“Lêdo Ivo me representa. Estamos diante de uma grave agressão à nossa identidade cultural”, desabafou Beto Borges

Lêdo Ivo me representa

Lêdo Ivo é um dos mais expressivos artistas do São Francisco. Ele é aquele que eternizou, em esculturas, as lendas do Rio São Francisco. Com ele, o Nego D’agua e a Mãe D’agua emergiram das aguas do Velho Chico para um convívio permanente com os ribeirinhos de Juazeiro e Petrolina. As cidades modernas, já com ares de metrópoles, reavivaram parte de suas tradições culturais. São duas obras imensuráveis.

Entretanto, hoje Lêdo Ivo vai passar pelo constrangimento de ter que explicar essas obras magníficas ao Ministério Público de Pernambuco. Lêdo Ivo, o maior escultor dos símbolos sanfranciscanos, vai pedir que o Nego D’agua e a Mâe D’agua permaneçam onde estão. Quando ele entrar na sede do Ministério Público de Pernambuco ele ganhará a autoridade de quem representa e fala por um “povo inteiro”. Será o porta-voz do povo ribeirinho e carregará consigo nosso total repudio aos autores desse inominável.
– Sinto-me maculado, violado diante desse questionamento absurdo, submerso em intolerância disfarçada. Estamos diante de uma grave agressão à nossa identidade cultural. Fico imaginando os desdobramentos e as consequências de uma violência dessa natureza contra o patrimônio cultural de um povo multisecular.
As consequências de um absurdo pode ser a produção de outros absurdos, então não custa imaginar que assim sendo, por analogia, seremos obrigados a convidar o Cristo Redentor, o Padre Cicero e outras milhares de esculturas espalhadas pelo país afora, para darem uma licencinha e caírem fora dos espaços públicos que ocupam. Assim sendo, por analogia, os cultos evangélicos que ocorrem em espaços públicos como praças, ruas e parques, amparados pelos órgãos de segurança publica, deverão se recolher às suas igrejas e templos sob pena de terem que responder por perturbação da ordem pública, por beneficio indevido da maquina pública ou por algo que nos pareça suficiente para uma ação judicial qualquer.

Desse modo, haverá equidade no tratamento de todas as manifestações culturais, isso inclui obviamente as manifestações religiosas. Instalaremos com essa pratica um novo modelo de sociedade, censora e restritiva, fundada na negação das identidades culturais. Em um processo social de autofagia, nós provavelmente criaremos o mundo da negação. Será então o paraíso do “inominável”.

Beto Borges é pedagogo e, acima de tudo, cidadão sanfranciscano.

 

4 Comentários

  • MARIA WILMA ROSA DIAS DE ANDRADE disse:

    Respeitem o nosso folclore. Não tem nada a ver com a nossa religiosidade. Acho isso uma ignorância religiosa sem limites

  • Leo disse:

    Acessei a matéria para saber de que se tratava e saí sem entender. O que é que estão tentando fazer com essas obras de arte? Qual é o questionamento que estão fazendo em que ele é obrigado a se explicar?

  • mara disse:

    Cultura é saber, viver e reviver. Quanto o nosso folclore é rico, maravilhoso e não se restringe a duas esculturas horrendas dentro do Rio, é podem ter certeza valeu muito na lavagem do nosso dinheiro de servidor que é minguando.

  • João Sereno disse:

    Existem grandes mentirinhas que nos contam quando ainda criança. Estas mentirinhas se transformam em algumas frustrações, outras descobertas felizes e tantas outras são colocadas como exemplo, até mesmo pra nos dar apoio, ou pra nos fazer tomar algumas quedas, que são necessárias no nosso caminhar.
    Existem algumas “verdades” que nos são ditas, pela grande maioria das pessoas, algumas porque vão no ensejar-se da onda, outras porque proveitam pra tirar uma lasquinha de alguém que esteja um pouco menos informado, ou que se enconre um tanto quanto desprevenido no momento.
    Mas todas essas mentiras e verdades fazem parte do caminho. É a humanidade brincando, criando, aquecendo seus atalhos e seguindo normalissimamente ao encontro do seu conhecer-se.
    Dá pra discutir isso sem preconceitualização de crenças? Diferenciação de cor de forma pejorativa?
    Pior que isso, eu acho, é: brincar com aquilo que temos de mais sagrado, a fé. Pior, é usar esta fé como meio de subtração do vil metal. E mais, o que seria de nós sem estórias, sem brincadeiras, sem o lúdico, sem a tão nossa desbravadora poesia?
    O que temem? Medram perder público pra o seu faturável negócio de estorquir pela “sAlVaÇÃo”?
    A salvação salva, é tão alva, mas também é ação.
    Senhores benditos religosos e santos pensadores:
    Deixem o artista brincar infantilmente de adolescer.
    E VIVA LÊDO IVO!
    E pronto.

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