O nosso homem bomba: uma explosão de verdades por Djalma Andrade

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Trata-se de um episódio que, aos poucos, vai desaparecendo da mídia, dos comentários e, portanto, da seriedade dos fatos. Aliás, troquemos o termo seriedade dos fatos por piada dos fatos; pois, como é de costume, parece que o nosso humor perdeu a sensibilidade da realidade, e aí assuntos sérios são levados na gracinha, transformados em piadas e risos.

Conforme canta Frejat, que descubramos “que rir é bom, mas que rir de tudo é desespero”. De um lado, o real desespero do nosso “Homem Bomba”, do outro o real desespero em forma de piadas, risos e chacotas sociais. Tratado como Homem Bomba e, portanto, louco, o bacharel em direito Frank Oliveira da Costa perde a sua identidade e se torna cada um de nós que sonha com uma vida melhor. Ele representa os nossos sonhos barrados todos os dias. O nosso Homem Bomba é de família humilde, com dois filhos para criar…

Desempregado, que um dia sonhou em poder ter uma vida melhor, em oferecer uma vida digna à família, e viu nos estudos o meio mais honesto e possível para se chegar lá. Escolheu fazer direito, certamente por sede de justiça no tocante à vivência da carência da mesma. O investimento nos estudo foi, sobretudo, um investimento em esperança. Esperança frustrada no dia a dia do subemprego do nosso Homem Bomba, como vendedor de balas de gengibre nos coletivos de Salvador. Foi constatado pela polícia que ele não possuía nada que colocasse em risco a vida das pessoas, apenas trazia em seu corpo o produto de seu próprio trabalho, balas de gengibres. Parece ser um grito que não cabia mais na fala, que não cabia mais no dizer, que não cabia mais na ordem do verbal… para quem ouvir? E, então, o corpo “berra” em uma última tentativa de suspiro que demarca o real da verdadeira morte, a psicológica.

As balas de gengibre sobre o corpo de nosso Homem Bomba são sim verdadeiros explosivos, bombas reais que ameaçam o sistema ordinário. São bombas que denunciam a realidade de milhares e milhares de Franks Oliveira da Costa que concluem seus estudos e, no entanto, sentem seus sonhos, cada vez mais, distanciarem-se, dissolverem-se em um mar de falta de oportunidades, em um mar de falta de quem indique… E dificilmente irão exercer a profissão, abandonando os sonhos e migrando para o que aparecer primeiro, não por falta de capacidade, mas por falta de quem indique mesmo. É como canta Edson Gomes: “não tenho ninguém, só tenho o meu bem que também é ninguém”… O nosso Homem Bomba não é um “burro”, conforme as piadas rolaram, é um bacharel em direito que, segundo a sua mãe, passou em 10º lugar em um concurso em Brasília, porém não pode assumir pela falta da carteira da OAB.

Infelizmente ele não conhecia ninguém “grande” para resolver isso para ele. O nosso Homem Bomba é sim um louco, no sentido de que esse termo vem de lunático (lua), era alguém que, na Grécia antiga, tinha o prestígio de sacerdote, justamente por ter o dom e a capacidade de, no meio do ordinário (normalidade), dialogar com o divino, era alguém que anunciava e denunciava a verdade em meio à ordem do silêncio. O nosso Homem Bomba é esse “lunático” que denuncia os interesses e tramas desse exame da OAB. Denuncia também a verdade do meu, do seu, do nosso desespero, talvez nisso se justifique o motivo de tantas piadas, de tantos risos. Frejat continua com razão!

Djalma Andrade é psicólogo e neuropsicólogo

1 comentário

  • Victor disse:

    Infelizmente é a realidade de milhares de Bacharéis em Direito no Brasil, ninguém sabe as dificuldades e as lutas diárias que esse jovem passou até tomar essa atitude, esse tal “EXAME” vem causando uma grande ditadura, despedaçando sonhos de muitas famílias…….muito bom o texto para uma reflexão mais aprofundada sobre as várias histórias que cercam o referido ‘EXAME DA OAB”…..Parabéns pelo Texto…..

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