Sempre Aos Domingos: ” Pensando 2018 na cozinha! ” Por Sibelle Fonseca

Eu estava em Salvador bem no penúltimo dia de 2017, quando pensei em escrever essas coisas aqui. Exatamente na beira do fogão da cozinha da minha filha primeira. Marisa cantava alguma música que tem ilusão pelo meio. O sol estava claro e eu só, tomava malte puro. Só, mas muito bem acompanhada por dentro. Acompanhada por mim mesma e pelos que, de alguma forma, me completam. Tive talvez uma das sensações mais gostosas que se pode ter: A de amar e a de ser amado. A de validar-se também.

Foi na cozinha que pensei nisso e não por acaso que foi na cozinha. Lugar de amor. Quem prepara, dá amor; Quem come, necessita; Ambos precisam um do outro. Quem dá e quem necessita.

Cozinha tem cheiro de mãe, sem querer ofender ninguém. Na cozinha se vê o pai sentado na cabeceira, dando ordens, como lhe ensinaram.

Cozinha tem o som de irmãos brigando e fazendo as pazes. Tem a cumplicidade dos mais próximos, os amigos que dividem feijão, alegrias, sal e dissabores.

Tem o barulho bom dos filhos pequenos e gosto dos avós.

Tem a hora certa do relógio na parede. Tem disciplina e a bagunça da pia cheia de pratos a lavar.

Na cozinha tem alquimia, tem alegria. Tem a sede, a fome, que bem poderiam ser  de justiça e de respeito. Na cozinha tem generosidade e egoísmo. Na cozinha, vaidades, um tradicional pinguim, arrotos e na real… é na cozinha que começamos a produzir os dejetos que nos igualam. Na cozinha tem ovo, água, alguma farinha, fartura ou pobreza.

Na cozinha tem elegância, bons modos e grosseria. (Ah, vá lá … quem nunca viu uma cena de berros na cozinha?)

Na cozinha tem armários, onde podem ser guardados os funcionais e os essenciais. Tem espaço para todos. Para o trivial e para as preciosidades. Basta que saibamos colocar cada um no seu lugar, no seu valor. Na cozinha tem geladeira, uma porta que nos sacia ou decepciona, mas que mesmo assim teremos que abri-la. Tem o individualismo e a coletividade. Tem a contradição e a desigualdade. Na cozinha tem mesa pra servir, dialogar, rezar, brindar, compartilhar, celebrar.

Tem uma mesa de pão e vinho, banquete ou simplicidade. Todos se alimentam, mas é quem pega no talher que faz a diferença. Tem garfo pra captura, garfo que espeta, alcança. Tem colher mais funda e faquinha de sobremesa. Tem concha generosa.

Isso eu não sei explicar, mas a cozinha é o lugar preferido da casa da enorme maioria de gente que eu conheço. Meu também. E só agora, muito tarde, eu aprendi que na cozinha habita muito do que somos. Do que vem de nós. Tem tudo na cozinha. E quem conduz a cozinha, não é somente o cozinheiro. Os que chegam, sentam e ficam na mesa, os que saem por último e os primeiros, conduzem também.

Na cozinha, quem paga e quem serve, sentam em lugares diferentes. Os que se submetem ou reagem a subserviência, sentam também. Ocupar ou invadir é questão de alerta. Depende de escolha ou empurrão.

Pelo menos eu, ocupo! E desejaria que todXs ocupassem, mas isso é um desejo meu que, na beira do fogão da cozinha da casa de minha filha, pensei um pouco mais.  E ainda o insuficiente para entender o que é gente, o que é vida. Querendo amar e continuar acreditando em gente, eu pensei. Porque no dia que eu deixar de acreditar, passarei a ter anos velhos. E isso eu escolhi não ter. Remoçarei em 2018 e em todos os anos que se seguirão!

Ah tá! Foi isso que eu pensei logo hoje. Imagino que seja porque 2017 foi duro demais. Foi um atentado ao amor, sem querer ser piegas, feminista, machista, petralha, coxinha, fascista, tendenciosa, “sibelinha paz e amor”, hetero-normativa, da direita, careta ,”o pessoal de Fidel” (sic) ou porra nenhuma que dizem por aí.

Eu só quero dizer que a folhinha de 2017 marcou em mim um ano de ódios, temeridades, intolerâncias, perversidades, xingamentos e estupidezes. Um turbilhão de desamor. Um ano de expurgos.

Eu, que já escolhi o meu lugar, quero que 2018, 2030 e todos os anos sejam de mais humanidade para a humanidade.

Eu, que escolhi um negócio chamado amor, como lema de vida, desejo um mundo de maravilhas para o mundo.

Para mim, peço só que me mantenha em mim. Muito feliz com minhas escolhas e superando os péssimos momentos.

Quero continuar, com minhas escolhas, 2018! Por  favor! Quero continuar sendo esta louca por viver mais a maravilha que é viver. E me saber amando, amado. Com sede, com fome, bem aí na cozinha da vida!

Feliz ano, pra raça de gente que ainda acredita e se esperança!

Sibelle Fonseca é radialista, juazeirense apaixonada, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

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