“O futebol e o direito de torcer para quem quiser”, por Raphael Leal

(foto: arquivo pessoal)

Eu sempre digo que torço para o Vasco e para o Bahia. Mais pelo Vasco, por influência do meu pai e irmão mais velho. O Bahia foi uma escolha mais influenciada pela admiração ao meu padrinho, por Bobô e pelas cores da camisa, que acho uma das mais belas do mundo. O tempo foi passando e muitas pessoas que chegavam a Juazeiro me questionavam a torcida pelo Vasco. Eu sempre dava a explicação que, historicamente, o rádio foi parte influenciadora, pois só transmitia jogos do eixo Rio-Sampa, o que levou a milhares de brasileiros, em vários estados, assumirem a torcida pelos times da “elite nacional”

Isso é um fato, e um aspecto. Mas creio que há outros.

Ainda na faculdade, lembro de um texto do genial/sensacional Milton Santos, onde ele falava sobre a relação entre litoral e sertão; de uma certa arrogância litorânea em relação ao que não estava na capital. A Bahia, por exemplo, era somente Salvador. O resto era interior, ou algo qualquer. Por isto a expressão: “Vai pra Bahia?”, quando alguém saia de uma cidade do estado para a capital.

Aí retorno para esta relação futebolística e a falta de torcedores, principalmente, nas cidades do interior dos estados do Nordeste. Além da influência dos meios de comunicação, no caso o rádio, há também a arrogância litorânea, que consegui identificar após a leitura do texto do fantástico Milton Santos (mesmo ele não falando isso). Lembro que na minha infância, quando na minha cidade não tinha time para disputar o campeonato baiano, jogava apenas o Intermunicipal, frequentemente, os times da capital vinham a Juazeiro fazer amistosos. Mas o que mais me chamava a atenção é que não havia intenção dos clubes da beira da praia em conquistar torcedores. E sim de massacrar os selecionados locais. Os jogos, geralmente, eram verdadeiras guerras, com relatos dos atletas locais vítimas de desdém dos jogadores de Bahia e Vitória.

Creio que torcer por um time é um gosto construído. Pode ser um gosto consolidado e que se torna comum, como foi o do meu pai e que passou pra mim. Ou o que é imposto, ditado. O Bahia e o Vitória nunca proporcionaram momentos para que a população do interior tomasse gosto por eles. Nem mesmo as TVs apresentando 99% do noticiário esportivo se referindo aos dois clubes geram atração para torcer por eles. De acordo com Censo do IBGE de 2018, Bahia e Vitória têm mais de 3 milhões de torcedores. Tenho certeza que este número poderia ser maior.

Para mim, a equipe de comunicação/marketing/redes sociais tem feito um trabalho excelente, mas desta vez forçou a barra ao publicar um ‘meme’ como quem dita uma regra: quem é do Nordeste torce por time do seu Estado. Não é bem assim. Cada um torce para quem quiser. E não esqueçamos que o futebol mundial é negócio, bussines, que se aproveita das paixões. Em tempos em que propagar ódio é tornado quase que oficial pelo Presidente da República, um pouquinho de prudência, paciência e nada de provocações que levem aos ânimos exaltados faz muito bem.

Raphael Leal é jornalista

2 Comentários

  • Flavio Ciro disse:

    Belo texto Rafa. Eu por exemplo priorizo os times do Nordeste. Bom ver os times do Ceará na pro.eira e agora que o Bahia ta entre os 10…..
    Mas antes disso. Vamos nos lembrar que torcer para um time eh sim um exercicio de liberdade e livre arbítrio. O sofrimento eh meu, o choro tambem.Então vamo la baea minha p…..

  • Jose Ferreira de Souza disse:

    Muito obrigado meu filho, por esolher torcer por meu time e estar do meu lado pra gritarmos junto, bora baea…

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