“A elite degringolada e um povo imbecilizado”, Por Ivânia Freitas

O Brasil aprendeu a amar as elites econômicas. Como um bom lacaio, admira seus patrões.
Brasileiro gosta da aparência, a elite sabe bem o que é isso. Nada precisa ser de fato, precisa apenas parecer ser. A elite adora ser admirada, ainda que seja pelo que não é. Para isto, construiu uma referência de domínio, também pela cultura, e transformou alguns intelectuais, em pessoas que fazem da inteligência, arma para se manterem afastados do povo. Intelectual no Brasil que ama as elites tem que ser da elite ou pensar como elite.
O amor às elites conservadoras, fez brasileiros chamarem Lula de analfabeto e Dilma de “tosca”, afinal, eles não falavam, nem tinham histórico de família tradicional, como o sociólogo de palavras bem articuladas que os antecedeu.
O brasileiro acha chique falar difícil. Na verdade, nem precisa ser tão inteligente, nem dizer algo relevante ou ter algum conteúdo. Basta parecer ser importante. Adora chamar de doutor qualquer um que aparente riqueza (ou com qualquer status acima do seu).
O pobre acha importante parecer com o rico arrogante da novela, com o ídolo do BBB que fala babaquices em rede nacional, para ele, saiu na TV é artista, é elite. Em tudo ele quer imitar seu ídolo. Tem que morar em condomínio caro e consumir coisas pelas quais não pode pagar e por isso vive endividado, com mil empréstimos e cobranças diárias na porta. Contudo, nada disso importa, vale o que aparece nas redes sociais, nas fantasias de realidade que cria para fugir da dura verdade cotidiana.
Por um tempo, porém, a tradicional elite brasileira sentiu-se fracassada, estava deixando de ser o mito e, portanto, agiu. Produziu a visão de Lula como analfabeto e do analfabeto como burro. Ela esperava que o sindicalista, torneiro mecânico, fizesse um governo cheio de erros, que nos envergonhasse perante o mundo, que se enrolasse para falar de economia, de educação ou de saúde.
A elite desenhou um Lula que não teve. Lula foi o oposto e tudo que a elite esperava que ele fosse, foi o maior líder da nação, respeitado por todos os líderes mundiais; amado pelo povo, pela imprensa, pelos artistas mais consagrados. Lula foi o ponto fora da curva das elites. Foi o inesperado, o surpreendente, o mais inteligente de todos. Por isso, o mais odiado pelo Brasil que ama a elite.
E, por essa razão simples, ela (a elite) se mostrou revoltada com as políticas de cota. Para ela, é inadmissível que o menino ou menina negra, crescida no campo ou na favela, estudante de escola pública, tenha se tornado médico ou tenha feito um doutorado. A elite pirou de vez quando viu seus filhos, que estudaram a vida toda na escola privada, não serem capazes de chegar aonde os pobres chegaram. Estava tudo errado, pobre não pode ser chamado de doutor, não pode comer filé, tem que admirar a vida pela vitrine, pobre tem que servir e não ser servido.
A elite degringolou. Desesperada com uma realidade diferente de país, que estava sendo desenhada, deu as mãos e se uniu para criar o monstro a ser combatido, ou melhor, abatido. A grande mídia de massa, os empresários e banqueiros que deviam trilhões aos cofres públicos e demais sonegadores de impostos (dentre eles, juízes, promotores, jogadores famosos e pastores evangélicos), se juntaram no “Todos pela nossa salvação” e foram pra cima.
Iniciou-se uma campanha de ódio despejado em Lula e Dilma, além dos velhos rótulos de burros (por não falarem como a elite), criaram um caos político, desestabilizaram a economia, semearam o ódio de classe (pobre começou a odiar pobre), produziram trilhões de fake news e deram o golpe.
A elite sabia que tinha um lugar confortável. Não precisava sair de seus condomínios para executar seu plano. Bastava pegar suas panelas caras, combinar com a Globo para filmar e bater, bater, bater. Deputados deram um show de horrores, uma das muitas vergonhas mundiais que entrariam para a nossa história.
Com uma população educada pela TV e ainda mais desinformada pelas redes sociais (nas quais optam pelas futilidades), convocou seu exército de “idiotas úteis”, que foi para as ruas fazer o trabalho sujo e convencer a si mesmo, de que o Brasil estaria melhor, nas mãos de quem sempre esteve.
Como dinheiro compra quase tudo e quase todos, o “Todos pela nossa salvação” contou com a parceria indispensável de um juiz e de um promotor que não precisaram se esforçar para alcançarem seus objetivos. Uma meia dúzia de delações (induzidas) aqui, uns papeis em branco ali, umas denúncias (que bastavam por si) acolá e uma apresentação de PowerPoint, que qualquer guri de dez anos faz (melhor) e pronto! Pegou tudo isso, jogou na grande mídia (corrompida, endividada de impostos e interessada nas concessões) e sucesso total! Derrubaram Dilma e prenderam Lula, com apoio do Supremo e tudo mais.
O que a elite não contou, foi com o fato de que parte de seu plano daria errado. Queria um representante à altura de sua arrogância intelectual, mas, o Aécio tava enrolado demais, muito pó, etc., era melhor não arriscar, livrá-lo da cadeia já era o suficiente. Voltou-se às apostas para o ex-governador de São Paulo (que, aliás, vive elegendo governadores arrogantes). Mas, ele também não emplacou.
A elite então viu-se no inesperado. Não tinha tempo hábil. Havia uma bifurcação. De um lado a esquerda brasileira representando a democracia e uma possibilidade de correção dos erros, para um avanço considerável da nação e do outro, um ex-capitão, com aspectos de mentalmente desequilibrado, cujas declarações homofóbicas, preconceituosas e apologia à violência, já apontavam seu caráter para o pior que se poderia prever.
Bolsonaro se apresentava como uma versão emburrecida de Hitler, capaz de forjar uma facada para se livrar do debate de propostas, apelando para a comoção pública dos imbecilizados, ganhou uma popularidade que nem ele mesmo esperava.
Para a elite, Bolsonaro não passava de um meme. Preferiu, assim, elegê-lo, achou que poderia controlar o grau insano de seu desejo de matança dos homossexuais, das mulheres, dos camponeses, dos índios, da Amazônia, achou que poderiam controlar sua boca e deixá-lo, apenas, para concretizar seu projeto econômico.
Bolsonaro coloca-se de joelho diante dos EUA, enquanto a população mostra-se serviçal aos valores do grande empresariado, tomando-os como se fossem seus, defendendo-os até a morte (já que se aposentar não é mais possível). Um cenário perfeito…
Mas não se contava que o “capitão” fosse uma aberração tão grande. Não imaginava que o seu “mito” faria cair o outro mito – de que a elite brasileira é feita de grandes intelectuais, que a elite é inteligente. Bolsonaro foi a faca, verdadeira, no orgulho da elite.
Ele é de uma burrice assustadora! Por onde passa, deixa um rastro fétido de ignorância, autoritarismo e arrogância. A elite está assustada e, muitos até, passaram a acreditar na lei do retorno. Pois é, Bolsonaro é tudo o que eles disseram que Lula e Dilma seriam. Só que em dose 100% maior.
A elite degringolou de vez. Não sabe qual caminho tomar daqui em diante, pois Bolsonaro no poder, reafirma uma elite muito abaixo da capacidade intelectual que tanto fez questão de sustentar!
Tá difícil achar o compasso. Quase nove meses de governo e tudo que Bolsonaro fez foi DESFAZER. Desfez direitos dos trabalhadores e isso agradou a elite. Mas, não como ela imaginou. Suas lojas ameaçam fechar as portas, suas empresas não produzem como produziam, as revendedoras de carro e moto estão com pátios cheios, pois ninguém pode comprar, afinal, não se sabe como pagar, já que o emprego é incerto, se pode ser demitido a qualquer momento (e não tem direitos a receber), o salário mínimo é insuficiente para o básico e como não há esperança de se aposentar… tá complicado!
A elitezinha (aqueles que tinham uma empresinha e se achavam ricos, ou os que ganhavam cinco, dez, vinte mil reais e pensavam que faziam parte dos milionários do país), viu que não dá para passear em Nova York ou na Disney, como um dia sonhou e bradou em seus cartazes mal feitos. Diferente dos anos dos governos do PT, o dólar está alto, as passagens estão caras e, na economia brasileira, tudo é mais do que incerto. Melhor guardar o pouco que se tem, pois a coisa tá feia, de verdade!
O pobre, aquele que ama a elite, está passando a entender que começa a ser deixado de lado. A elite que o colocou dentro dos carrões conversíveis nas carreatas para eleger “o mito”, aquela que postou foto lado a lado no face, não está nem aí para ele. A elite o quer escravo, sem carteira assinada, sem saúde e educação públicas e gratuitas, sem aposentadoria, sem dias para descanso, sem políticas sociais. A elite (de verdade) vê, nos mais pobres, apenas mais um serviçal. Pois é, foi mais do que uma facada, foi um tiro no próprio pé e poderá deixá-lo aleijado para sempre.
Mas, a elite ainda tem o que comemorar. Uma parte do seu exército ainda está nas ruas, rindo da falta de educação do seu presidente (tomam como piada), apoiando a reforma da previdência, repetindo os mantras contra Lula e o PT, exaltando falsos heróis, ignorando a verdade, se abastecendo da alienação de falsos filósofos que negam a história e criam a verdade dos imbecis.
A elite perdeu-se em si, mas os pobres imbecilizados ainda custarão a entender o que se passa para além das fake.
A desqualificação exaltada de um chefe de estado mundialmente criticado deixará um legado de vergonha para nós perante o mundo e, também, para a história da elite brasileira que carregará consigo uma referência nada boa!
Deu ruim e agora, fazer o quê?

 

Por  Ivânia Freitas – Professora na UNEB- Campus VII e Doutoranda em Educação pela Universidade Federal da Bahia.

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