Muriçoca vira Boi de Piranha e, com vaquinha, começa a campanha eleitoral, em Juazeiro

Passando pela orla de Juazeiro na noite desta quinta-feira (5), por volta das 21 horas, senti um clima de campanha política. Começou foi cedo. Um número considerável de carros e motos fazia um barulho danado, em torno de uma muriçoca gigante, com direito a jingle, fogos, lives e gritos de guerra. O artista da réplica, o mototaxista Rafael, me disse que um homem (que ele não sabia dizer quem era) encomendou e pagou caro pela obra, para que ela protagonizasse o desfile pelas ruas, uma largada da disputa eleitoral em Juazeiro.

Eu, que sou adepta a movimentos de protesto, ainda mais quando se trata de um problema que incomoda a população e também a mim, estaria engrossando as fileiras deste ato, caso não fosse atenta a intenção que motivou o tal desfile. Me nego a fazer parte de qualquer massa de manobra, que tenha fins politiqueiros e orquestrada por quem tenha interesses mais particulares, que públicos. O que me interessa é a coletividade.

Não vi, na manifestação, pessoas comuns incomodadas com a praga das muriçocas que assola Juazeiro. O que vi foi um grupo de opositores à atual gestão, ávidos pelo poder, querendo picar o gestor de então e o seu grupo político, usando o velho e conhecido inseto, como se fosse coisa de agora.

Eu queria ter visto pessoas do Itaberaba, do Tabuleiro, do São Geraldo, e mesmo do meu bairro Santo Antônio, nas ruas, reivindicando um trabalho efetivo de combate as muriçocas que tanto nos infernizam.

Mas o que vi foi um “oba oba” de pretensos candidatos, defensores destes mesmos candidatos, viúvas e viúvos do poder, ressentidos e loucos para ter uma “brechinha” nele, fiéis seguidores de Jair Bolsonaro, odiosos a Lula, alguns que são chamados para dar volume a massa, de manobra, e outros que já estiveram no poder e nunca se rebelaram contra esta praga, que de tão antiga, virou piada em Juazeiro.

A muriçoca foi usada como boi de piranha. Sim, boi de piranha, “expressão que se origina no meio pecuarista, em referência a uma situação onde criadores de gado, ao atravessar um rio infestado de piranhas, abateriam um dos touros, já velho e/ou doente, atirando seu corpo, sangrando, ao rio, para atrair os peixes carnívoros, enquanto os peões cruzavam o rio com o restante do rebanho”.

Hoje (6) pela manhã, recebi uma lista com 16 nomes de pessoas que pagaram ao artista Rafael para que confeccionasse outra muriçoca gigante, a que desfilou na noite de ontem. Na lista tem pastor, vereador, doutor, nomes de juazeirenses que apoiaram a brincadeira. Sete deles já expuseram sua intenção de pleitear o executivo ano que vem. Os demais, não conheço todos, identifiquei como alguns que pleiteiam uma vaguinha no Legislativo e outros que são ferrenhos opositores a gestão atual.

Conversei com três deles para apurar a participação na vaquinha. Os três confirmaram a contribuição, que rendeu, até onde foi a lista que eu recebi, R$ 1.800. Me reservo ao direito de não expor os nomes. Mas confesso que gostariam muito que a lista fosse mentirosa, que o protesto ao problema da muriçoca não fosse uma ação orquestrada da oposição, para aparecer às vésperas de ano eleitoral. Minha esperança de uma oposição séria, propositiva, responsável e inteligente, caiu por terra.

Como comunicadora, ao longo dos últimos anos, já produzi dezenas de matérias denunciando, duramente, o inferno que é conviver com estes insetos e não me recordo destas vozes defendendo Juazeiro das muriçocas.

Com muita tristeza, concluo que Juazeiro precisa urgente se respeitar, precisa crescer moralmente, precisa pensar grande e deixar de picuinhas, de coisinhas rasteiras que nada constroem. Juazeiro precisa ser amada pelos juazeirenses. E quem ama não desdenha, não deprecia, não faz chacota, não joga baixo e nem expõe ao ridículo. Fico triste com a conduta dos candidatos a representantes da cidade. Juazeiro precisa de uma oposição e eu, cidadã juazeirense, preciso de um nome opositor para acreditar e respeitar. Mas assim fica difícil.

Em meio a essa “brincadeira”, vejo uma lição para a gestão municipal, que foi truculenta quando censurou a primeira muriçoca feita pelo artista Rafael. A gestão não teve habilidade para lidar com o protesto, não considerou a liberdade de expressão, princípio democrático que deve ser respeitado, ainda mais por um governo popular, que se diz de esquerda. A gestão não teve competência para dialogar com a comunidade sobre o problema, como não vem tendo no trabalho de combate as muriçocas que infestam a cidade.

O desfile passou, as muriçocas continuam nos infernizando, e Juazeiro continua sendo levada na brincadeira, pelos seus representantes, os atuais e os pretensos. Até quando, minha Nossa Senhora das Grotas?

Da Redação por Sibelle Fonseca 

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