Dom José Rodrigues, seguramente, um dos meus heróis, por Sibelle Fonseca

Ele dividiu a história de Juazeiro, inaugurando um novo tempo na Diocese de Nossa Senhora das Gotas e na dinâmica desta comunidade, onde atuou de forma marcante e decisiva.

Iluminou mentes, quebrou paradigmas, irrigou consciências, evangelizou pela palavra e pela ação. Enfrentou poderosos, defendeu os oprimidos, denunciou as injustiças sociais, pregou a igualdade e a resistência do nosso povo!

Foi perseguido, ameaçado, teve seu nome pichado e atacado pelos quatro cantos da cidade, foi julgado, condenado, incompreendido, caluniado, injustiçado, mas nunca se rendeu!

Endurecido e terno, ao mesmo tempo! Conheci de perto esse homem que, sem saber, teve uma participação forte na minha história de vida, na minha formação política e moral. Ainda pequena admirava sua coragem. Quando entrei no movimento de estudantes secundaristas, me espelhei no seu senso de indignação e na sua capacidade de lutar contra o “sistema” que escraviza mentes e corações.

Quando passei a exercer o jornalismo, tive um contato mais presente e aprendi muito a cada entrevista das dezenas que fiz com ele. Uma fonte de informação segura, de conhecimento, ensinamentos, politização, fé e destemor. Fiz, para minha honra, o cerimonial dos seus 50 anos de episcopado e pude conhecer mais amiúde a sua história. Foi quando ouvi dele um ensinamento que carrego e sigo à risca: “Se você presenciar uma briga entre um forte e um fraco, tome a defesa do fraco e depois vá ver quem tem razão”.

Suas homilias, eram aulas! Suas conversas informais, aprendizados! Um amante da cultura. Um cidadão incansável na luta pelos direitos humanos! Um leitor contumaz! Um brilhante escritor! Um ótimo papo! Presença forte em todos os momentos da história de Juazeiro. Nos mais difíceis e decisivos, sobremaneira! Quando mais se precisou da coragem e da voz de um homem pelo povo! Na construção da barragem de sobradinho, que desalojou centenas de famílias, estava presente! Nas questões fundiárias, estava presente! Na luta pelo direito à terra, a água, a cidadania e dignidade, estava presente! No episódio do sequestro da ponte, foi um mediador destemido e decisivo para um desfecho feliz. Nos enfrentamentos do cotidiano, estava presente!

Um guerreiro de estatura pequena e alma gigante. Dom José Rodrigues, o bispo dos excluídos, uma ausência presente em cada homem, em cada mulher que lutam por um mundo mais justo e igualitário. Seguramente, um dos meus heróis! Um herói da história de Juazeiro, tão carente de bravos personagens como ele! Um juazeirense mais que juazeirense!

Seis anos se passaram do seu falecimento, e neste 2019, um ano já marcado por tantos retrocessos, perversidades contra os mais pobres e vulneráveis, de ataques as liberdades individuais, a democracia, quando se comemora a tortura, quando a censura já dá sinal de fumaça e a intolerância e o ódio contra as minorias se instalam no Brasil, lembro-me de Dom José e isso me fortalece. Lembro-me de um poema que ele me apresentou e que assim diz:

“Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

No Caminho, com Maiakóvski
(Eduardo Alves da Costa)

Da Redação por Sibelle Fonseca

 

2 Comentários

  • Vanderlei Crisostomo Da Silva disse:

    Parabéns Sibele pela linda reflexão sobre um grande homem, que de fato influenciou além de você diversas pessoas a lutarem por um mundo melhor.

  • Que linda homenagem à esse esse grande homem de Deus. Pequeno na estatura, mas grande no amor e na humildade. Tive o privilégio de apresentar lhe um abaixo assinado de moradores do antigo bairro juazeiro 4 para a colocação do seu nome naquela comunidade. Todos os domingos eu abria a escola Antonilio da França Cardoso, para que nosso pastor D. José Rodrigues fizesse sua missa dominical .

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