Sempre Aos Domingos: “Eu fui uma criança feliz, e nem existia celular”, por Sibelle Fonseca

 

Quando vejo uma criança agarrada ao celular ou presa a televisão, lembro da minha infância. Um tempo em que não se dava valor a grife, não havia shopping center, jogos virtuais, Mc Donalds, Coca-cola, Danoninho, nem dança da garrafa e as meninas se vestiam como crianças.

Não é saudosismo e nem a pieguice de dizer que “no meu tempo era melhor”. Até porque o meu tempo é este. É o agora. O passado não me pertence e o futuro, só a Deus. E acho mesmo que tem muita coisa boa acontecendo hoje em dia.

Mas fico pensando o quanto o sistema é perverso com as crianças. Esse tal capitalismo que tem a lógica de mercado, atinge nossas crianças em cheio.

A maioria só conhece leite em pó e jamais viu uma vaca sendo ordenhada. Não sobe em árvores, jamais brinca de roda, de picula e nem vai a um circo destes mais fuleiros, onde a simplicidade é pedagógica.

Eu tive uma infância bem feliz. Não havia sofisticação, mas tínhamos tempo para brincar de verdade, experienciar, compartilhar momentos com outras crianças, sentir o abraço da melhor amiga, andar de mãos dadas com a colega, ficar de mal e de bem, com os dedos e cara a cara, tudo no mundo real.

Brinquei de casinha de bonecas e tive um bonequinho especial chamado “Bimbim”. Brinquei de médico, de salada de frutas, de guardar o anelzinho bem guardadinho e de se esconder. Brinquei de roda, de Amarelinha, de Boca de Forno e de Chicotinho-Queimado. Fui rica e pobre de Marré, Marré, Marré. Cantei a rosa despedaçada que brigou o cravo e tirei muitos amigos do fundo do mar, como se eu fosse um peixinho.

Cai de bicicleta e de árvores. Na roça do meu avô, o Acude de Pedras, tirei umbu do pé, tomei leite no curral, escovei os dentes num copo porque não havia água de torneira. Ouvi causos de assombração, dormi com medo do escuro, depois de apagados todos os candeeiros, e limpei o bumbum com malva. Lá também assistia, com o coração apertado, a matança dos bodes que ficavam dias estirados, eram conservados com sal e assim que consumidos, outros eram abatidos.

Fui ajudante da igreja e, ainda menor que o púlpito da catedral, já lia o folheto da liturgia. Fiz a primeira comunhão com direito a foto de véu como lembrancinha. Fiz aquela foto escolar com a bandeira do Brasil ao fundo. Escrevi 200 vezes e, por várias vezes, como castigo da professora, “Eu devo me comportar em sala de aula”. Me fiz de doente para ter o direito de tomar Guaraná e comer maçã. Merendei ovo cru batido com farinha e açúcar, borra de manteiga e meu iogurte era um prato de coalhada das boas. Participei dos “dramas” que minhas irmãs mais velhas faziam no quintal e chorei ouvindo as histórias contadas por meu pai, sobretudo a de uma tal garça que teve os filhos comidos por um socó.

Dei gargalhadas até fazer xixi dos palhaços dos circos improvisados que chegavam em Juazeiro. Tomei peia por fugir de casa e correr atrás do homem da perna de pau que anunciava que teria espetáculo na cidade, sim senhor.

Fiz xixi nas calças de medo nos trens fantasmas da vida. Minha Disney eram os parques que chegavam de ano em ano, com suas rodas gigantes. Eram a Praça do Jacaré, com sua fonte luminosa e a da Bandeira, com uma ladeirinha charmosa, tipo uma pontezinha, que foi demolida pela irresponsabilidade do prefeito de uma época aí. Aquela mesma que o pessoal da minha geração tirava foto.

Tomei 12 bolos em cada mão com a cruel escova de lustrar sapatos. Furtei um chocolate no Supermercado Pinguim, ajoelhei aos pés do gerente Hidilberto Benevides para pedir perdão, tomei umas cinturadas e aprendi com isso a maior lição de honestidade dada por meu pai.

Catei caju na Ilha de Nossa Senhora e me banhei escondido nas águas do Velho chico. Fugi para a Ilha do Fogo no horário da aula de educação física. Ganhei de minha mãe a assinatura da Revista Amiguinho e me apaixonei pela leitura. Ouvia minha avó cantar e fui aprendendo uma cantigas de amor.

Fui a baliza nos desfiles de Sete de Setembro e do 15 de julho. Fui uma rosa no desfile dos 100 anos da minha cidade Juazeiro. Fui anjo na procissão de Nossa Senhora das Grotas e a menina má na peça de teatro da escola. Fui Calouro nos shows da 28 de setembro e declamei poemas na Sociedade Apolo.

Tomei Guaraná Antártica na Primavera e na Kisabor, com meu pai e minhas irmãs. Vez em quando, ganhava um trocado para tomar o sorvete da “Delícia”, na 28, e na Iglu, em Petrolina.

Fui as manhãs de sol no Country Clube. Saia para almoçar fora aos domingos e todos os dias as refeições eram feitas com todos à mesa, e meu pai na cabeceira. Tomei carreira de Maria polpa de pau, de João doido e de Guiomar, a que mais eu temia. Via  “Legal” cheirando gasolina nos poucos postos de Juazeiro.

Tive catapora, caxumba, hepatite. Inventei dor de cabeça na escola, só para usar óculos de grau, o que eu achava um chame. Desejei quebrar uma perna ou um braço, só para engessar, o que eu também achava um charme. Tive sangue doce para piolhos, fiz bolinhas de cuspe e preguei chicletes em baixo da mesa de jantar.

Tirei 10 na escola, na maioria das vezes. Tirei nota “c”, a pior em comportamento, quase sempre.

Eu tive uma infância feliz. Tenho todas as marcas dela. A da vacina de BCG, ornamenta meu braço esquerdo. Nas pernas e joelhos, cicatrizes das quedas que me ensinaram a levantar. Guardo até uma deixada pela mordida do cachorro de Drubi que me atacou no caminho ao instituto Imaculada Conceição, minha primeira escola. Tenho marcas felizes na minha alma de criança. Algumas úlceras também, que doeram, mas me ensinaram a ser resiliente.

Cada uma destas marcas têm uma história. Marcas das expectativas frustradas e superadas, o que me ensinou a ser forte. Alguns traumas (ainda pra resolver), que estimulam a eterna busca. Marcas dos valores e princípios passados pelos meus pais, que me dignificam. Marcas das vezes em que me rebelei, contestei, subverti, o que me ensinou o enfrentamento e a resistência. Marcas suaves no meu coração, do afeto, da poesia e das cantigas da infância que vivi.

Foi uma fase bem vivida, e nem existia celular. Foi uma fase de histórias. Assim como esta fase de agora, em que as marcas todas, as rugas, as linhas de expressão, pintinhas senis e mexas de branco nos cabelos, contam as histórias que vivi. Elas compõem a mulher que eu sou, a que necessita do outro para se encontrar, crescer e ser feliz!

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente

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