“Eu achava que ele não seria eleito”, diz Ney Matogrosso sobre Bolsonaro

Em entrevista à BBC News Brasil, em Londres, concedida na última sexta-feira, Ney Matogrosso, 78 anos, falou de ditadura militar no Brasil, de política e classificou o comportamento de Jair Boslonaro de autoritário.

BBC News Brasil – Muita gente gosta de fazer comparação do Brasil com outros países e outros rejeitam, porque cada um tem sua história. Você acha que o Brasil tem o que aprender com exemplos no exterior?

Ney Matogrosso – Estamos voltando para uma era, talvez, de subdesenvolvido. Tudo de bom que a gente tinha aprendido foi desaprendido. Estamos em um retrocesso assustador no Brasil, em todos os sentidos. Saúde, educação, tecnologia, ciência, para falar de poucas coisas. Tá muito estranho.

BBC News Brasil – Você costuma dizer que o Brasil está mais careta do que era antes…

Ney Matogrosso – Sim. O que provocou esse retrocesso, nesse sentido, foi a Aids. Porque havia uma liberdade comportamental no Brasil. Vou fazer uma comparação: na Alemanha, as pessoas tomam banho nuas nas lagoas – homens, mulheres, crianças – e nessa época eu via, numa praia ao lado do Arpoador, as aeromoças de voos internacionais faziam topless e trocavam de roupa na frente de todo mundo e ninguém se assustava. Era uma coisa normal. Até que veio a ditadura e a ditadura cortou. Isso eles foram em cima. Se continuasse naquela batida, não sei onde estaríamos. Talvez mais avançados que a Alemanha nesse sentido. Porque (o brasileiro) é um povo bonito, gostoso, e que gosta de se exibir. A Aids que cortou, foi o grande obstáculo. Imagina, mexeu com a sexualidade das pessoas.

BBC News Brasil – Você é cobrado por mais protagonismo no movimento gay. Tem declarações suas de que existe uma coisa muito ligada ao consumo. Explica isso…

Ney Matogrosso – Olha, primeiro que ninguém pode me cobrar isso. Eles dizem que eu não carrego a bandeira. A bandeira sou eu. Ou não sou? Eu sou a bandeira, eu não preciso carregar uma. A minha maneira de pensar, de me comunicar, de me apresentar. Eu sou a bandeira. Parem de me cobrar isso porque isso não tem fundamento. Quando falo isso da coisa capitalista, eu digo que as paradas gays – na verdade, não é nem as paradas gays, mas a aceitação maior dos gays no país – e agora há um retrocesso nisso também -, mas era assim. Gay é fonte de renda, é uma coisa internacional que se aponta para o Brasil, que sempre foi uma meca. Eu morei no Rio de Janeiro na década de 1950 e já era meca. No verão, gays do mundo inteiro se dirigiam para o Rio de Janeiro.

BBC News Brasil – E como isso está mudando?

Ney Matogrosso – Está mudando porque temos um presidente que acha que pode determinar a sexualidade das pessoas. Isso é uma tolice, porque não adianta querer reprimir. As pessoas continuarão nascendo. E isso não é uma questão de opção, isso você não escolhe ser – a não ser que ele ache um meio de determinar os que vão nascer e os que não vão nascer. Fora isso, não tem como controlar isso.

BBC News Brasil – Sobre a sua relação com a ditadura, você diz que não foi mais atacado porque falava menos de política e mais de uma questão de costumes.

Ney Matogrosso – Eu não falava, a verdade é essa. Eu nunca falei ‘abaixo a ditadura’. Porque chegamos em um momento no Brasil que ou você pegava em uma metralhadora ou você ‘desbundava’. Eu era do desbunde, que eles odiavam tanto quanto quem tinha arma. Eu era o louco, que tomava ácido, fumava maconha, cabelo grande, hippie. Eles odiavam. Eu fui preso uma vez na Lapa porque eu era cabeludo e minha calça era apertada. E aí eles me revistaram, acharam dinheiro no meu bolso. Pouco. E eles disseram: ‘você não tem vergonha de andar só com esse dinheiro no bolso?’. E eu disse ‘não, porque com esse dinheiro eu chego em casa’. Aí prenderam eu, um bicheiro e uma puta. O bicheiro disse que tinha pago o comandante da polícia do Rio de Janeiro R$ 20 mil, foi solto imediatamente. A puta chorou, chorou, chorou, soltaram. E eu quei a noite inteira lá. Eles me ameaçaram, de me jogar para os presos fazerem de mim o que quisessem. Foi a única vez que eu usei o fato de o meu pai ser militar. Eu disse ‘tudo bem, vocês vão fazer o que quiserem, só que o meu pai é militar e ele vai dar falta de mim’. Mentira, porque meu pai estava em Mato Grosso e eu no Rio de Janeiro. ‘Ele vai dar falta e me procurar e vocês vão ter que se explicar para eles, são eles que mandam no Brasil neste momento’. Aí, de manhã, eles me perguntaram se eu queria dar o telefone de alguém, era o telefone de uma amiga que o namorado era almirante da
Marinha e ele foi lá me tirar. Por nada. Porque eu não tinha dinheiro no bolso.

BBC News Brasil – E qual é a sua pior lembrança da ditadura militar?

Ney Matogrosso – Quando eu morava em Brasília, quando a ditadura se instalou. Muitos amigos desapareceram. Uma que eu conhecia, no dia em que o Castello Branco, primeiro presidente da ditadura, foi na Escola Parque, ela puxou uma vaia pra ele e ela desapareceu. Quando apareceu, tinham cortado o bico dos seios dela. Muito escroto, né?

BBC News Brasil – Teve uma declaração sobre projetos culturais, do presidente Jair Bolsonaro, em que ele falava o seguinte: ‘Com dinheiro público não veremos mais certos tipos de obra por aí. Mas isso não é censura. Isso é preservar os valores cristãos. É tratar com respeito a nossa juventude. É reconhecer a família como uma unidade familiar’. De que forma…

Ney Matogrosso – É censura. Você pode colocar limite de idade para assistir um filme. Se em princípio você não quer que aquilo seja feito, é censura. Para o cinema, existe faixa etária. Há sempre muita reação a essas coisas que o presidente faz. Existem reações de todas as partes e muitas vezes ele retrocede nas ideias dele.

BBC News Brasil – Um ano antes de o presidente Jair Bolsonaro ser eleito, você disse que acreditava que ele não seria eleito e…

Ney Matogrosso – Eu achava que ele não seria eleito. Eu nunca pensei que o Brasil desse esse passo.

BBC News Brasil – E por que deu? O que o brasileiro quis dizer quando o elegeu?

Ney Matogrosso – Eu acho que existia uma enorme insatisfação, ouso dizer que foi um voto de raiva contra o PT. E o (ex) presidente Lula poderia ter apoiado Ciro Gomes, que é o candidato que no segundo turno venceria o Jair Bolsonaro, mas o Lula não apoiou. Acho que foi uma coisa muito errada. Ele abriu caminho para isso que chegar no que está.

BBC News Brasil – Você é um ex-eleitor do PT…

Ney Matogrosso – Votei muitas vezes. Desde a primeira vez que o Lula se candidatou, eu votei. Mas aí, quando chegou o Mensalão, eu saí fora. Eu disse ‘não, não, não’. Não posso concordar com isso.

BBC News Brasil – Em 2015, você disse que o então juiz Sergio Moro estava fazendo um bom trabalho e “dignicando a Justiça”. Como você avalia o trabalho do hoje ministro Sergio Moro?

Ney Matogrosso – Hoje eu não sei. Não quero julgar ele. Ele deu uma entrevista dizendo que aceitou porque achava que tudo que ele tinha feito na Lava Jato estava correndo risco. Era uma justicativa plausível até então. Agora ele é um ornamento dentro da História, infelizmente. Ele já não determina mais a coisa da Justiça no Brasil. Ele é o ministro da Justiça, mas não é da Lava Jato.

BBC News Brasil – Do lado das pessoas da esquerda, que dizem que o ex-presidente Lula é um preso político e que o impeachment da expresidente Dilma foi um golpe? O que você acha?

Ney Matogrosso – Eu não sei te dizer, porque o governo dela foi absurdamente estranho. Na véspera da eleição, ela falou que tudo que o oponente faria era errado e que ela não faria nada. No dia que ela se elegeu, tudo que ela disse que não faria, ela fez. Aí cou totalmente desacreditada e a coisa foi se desmoronando. Mas vamos car falando de política, desse povo?

BBC News Brasil – É um assunto desagradável?

Ney Matogrosso – É, eu não sou envolvido diretamente. Sou um espectador. Eu vou lá, coloco meu voto em quem eu quero, mas não sou envolvido com isso. Tanto que essa questão de direita, esquerda, eu não entro nisso. Eu tenho amigos que pensam diferente de mim e eu não deixo de ser amigo deles. Eu não votei no presidente Bolsonaro, mas tenho amigos que votaram nele e nem por isso eu vou enforcar o amigo. Eu acho que as pessoas têm direito, até de errar.

Entrevista realizada pela BBC News Brasil

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