Aos teus e aos que você abraçou, Juazeiro

 

Por Queila Patrícia

“A ingratidão tira a afeição! ” Frase célebre, desferida a quem com esnobe atitude despreza, ou não reconhece uma benevolência praticada por outrem. Há muito me questiono sobre o que leva um
indivíduo juazeirense, ou não, a criticar sua cidade e por ela nutrir tamanho desprezo a ponto de supervalorizar uma outra, sem nem perceber o mesmo desprezo desta outra e das/dos suas/seus pelo cujo ser.

O direito a crítica (direito a crítica, não desrespeito e xingamento) é irrefutável, tanto que estou a fazê-la neste momento, de modo a tentar refletir junto sobre esse “Complexo de vira lata” (de forma livre: termo de Nelson Rodrigues ao se referir ao povo brasileiro como idólatra e supervalorizador dos Estados Unidos.) que acomete algumas pessoas juazeirenses, ou não, no que se refere à vizinha cidade de Petrolina. Não quero aqui criticar, ou tolher ninguém no seu direito de ir e vir e/ou adotar qualquer lugar como seu. Mas atentar para o fato da desqualificação gratuita que se faz à cidade de Juazeiro, sem
refletir acerca das suas posições e atitudes enquanto cidadã e cidadão deste torrão do São Francisco. Sou juazeirense e me sinto legitimada a repudiar qualquer atitude de menosprezo e/ou
desvalorização por esta terra que tanto acolhe e recebe hospitaleiramente quem aqui pisa. Não sou ingênua ao ponto de não perceber as necessidades da minha cidade, bem como suas deficiências.

Mas há muito deixamos de ser uma província e alcançamos o status de cidade de médio porte, tornando-se uma das mais importantes do Vale do São Francisco, da Bahia e do Brasil, vide os destaques dados nacionalmente nos telejornais e nos mais importantes jornais impressos do país, até virando enredo de escola de samba, como será o caso da Grande Rio no ano que vem, na homenagem feita a Ivete Sangalo. Visto
isso, há aqueles e aquelas que aqui chegam, ou nasceram, estejam bem sucedidas/os, fizeram-se estruturadas/os e tiram seus sustento desta “pobre e atrasada” Juazeiro. Mas, sendo ela desta forma adjetivada, optam por morar na vizinha cidade do estado de Pernambuco, pois, esta, é progressista, evoluída, desenvolvida e rica, merecendo que o indivíduo invista lá, more lá, gere receita para lá, escolha as melhores escolas de lá, lembrando que temos ótimas escolas aqui também, mas “a mente provinciana” teima em prevalecer, pois, o que é de Juazeiro não presta, nada aqui presta, tudo é atrasado, o bom é de Petrolina (falo sem nem uma intensão de ofender a vizinha cidade,
pois, ambas, são necessárias à região e tem seu valor perante a História.). Nada aqui funciona, as coisas aqui não andam, é uma terra sem lei, por isso eu não paro na faixa de pedestre e nem uso o cinto de
segurança, porque não tem câmera e nem fiscalização. Petrolina que é lugar de se viver, o povo é educado, respeitador, “um povo bonito” que nem parece daqui… Afirmações como estas são proferidas a todo tempo por pessoas de Juazeiro, sem nem se darem conta
de que estão desqualificando a elas mesmas. Ora, se sou eu uma cidadã
cumpridora das obrigações que me dizem respeito enquanto tal, eu as cumpro em qualquer lugar do planeta, seja ele monitorado ou não, pois, de mim, depende o bom andamento da sociedade e das leis vigentes. Se sou cidadã, sou em qualquer lugar e não somente onde sou obrigada a cumprir com a lei por meio de coerção, e não por educação e cidadania. A culpa é dos governantes? Sim, talvez.

Tivemos muitos que também pensavam dessa forma provinciana e faziam seus investimentos fora daqui. Mas a culpa também é da cidadã e do cidadão que não os monitora, que não os cobra e que não faz a sua parte, no que diz respeito às várias contra partidas para o bom andamento e ordem das bem feitorias executadas na cidade. Não há governante bom, se o povo é mal educado e não se percebe como responsável pela cidade e o seu
ordenamento. Voltando a frase inicial e, repito, não quero criticar ninguém pelo seu direito de escolha, me refiro aqui às pessoas que menosprezam e desqualificam gratuitamente Juazeiro, sem nada fazerem para transformá-la na cidade que tanto desejam. Assim sendo: Se trabalho aqui, em Juazeiro, ganho meu sustento aqui, por que não querer que este local seja do jeito do que eu escolhi para desfrutar do bônus que ganho na que me acolheu e me oportunizou esse bem estar fora dela?

 

 

Queila Patricia, juazeirense, graduada em Letras-UPE e graduanda do curso de Ciências Sociais-Univasf. Especialista em Gestão de Políticas Públicas em gênero e raça-NEIM/UFBA; em Língua Portuguesa
e Literatura-UNIESB; em Língua Portuguesa:uma perspectiva didática-UPE. Militante feminista da Marcha das Mulheres Negras e dos Movimentos Antirracistas do Vale.

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