“O vírus HPV é altamente contagioso e a imunização dos meninos tem como objetivo proteger contra os cânceres de pênis, garganta e ânus”, esclarece o médico Salvador Carvalho

Segundo a  Secretaria de Saúde de Juazeiro-BA, a partir do dia 23 de janeiro a vacina de HPV para a população masculina (meninos de 12 a 13 anos) entrará no calendário normal de vacinação e estará disponível em todas as unidades do município.

Para falar sobre a doença e a importância da vacinação, o Portal Preto no Branco entrevistou o médico Salvador Carvalho, formado pela Escola Latino Americana de Medicina em Havana, Cuba. Atualmente ele trabalha na Unidade de Saúde da Família do bairro Parque Residencial, no município de Juazeiro. Atua como médico plantonista no Hospital Regional de Juazeiro e no Hospital da Criança, ambos na mesma cidade. Também cursa especialização em Pediatria Clínica, na Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo – FACIS.

De acordo com ele, o vírus HPV é altamente contagioso, sendo possível contaminar-se com uma única exposição, e a sua transmissão se dá por contato direto com a pele ou mucosa infectada. O médico também ressaltou que a imunização dos meninos é uma estratégia que tem como objetivo proteger contra os cânceres de pênis, garganta e ânus, doenças que estão diretamente relacionadas ao HPV.

veja a entrevista completa:

Entrevista- Por Yonara Santos

PNB: O que é HPV?

S.C: Sigla em inglês para Papilomavírus Humano (Human Papiloma Virus – HPV). Os HPV são vírus capazes de infectar a pele ou as mucosas. Existem mais de 150 tipos diferentes de HPV, dos quais 40 podem infectar o trato genital.


PNB: Qual a relação do câncer do colo do útero com HPV?

S.C: O HPV pode ser classificado em tipos de baixo e de alto risco de desenvolver câncer. Existem 12 tipos identificados como de alto risco (HPV tipos 16, 18, 31, 33, 35, 39, 45, 51, 52, 56, 58 e 59) que têm probabilidade maior de persistir e estarem associados a lesões pré-cancerígenas. O HPV de tipos 16 e 18 causam a maioria dos casos de câncer de colo do útero em todo mundo (cerca de 70%). Eles também são responsáveis por até 90% dos casos de câncer de ânus, até 60% dos cânceres de vagina e até 50% dos casos de câncer vulvar. Os HPV de tipo 6 e 11, encontrados na maioria das verrugas genitais (ou condilomas genitais) e papilomas laríngeos, parecem não oferecer nenhum risco de progressão para malignidade.

A infecção pelo HPV é muito frequente embora seja transitória, regredindo espontaneamente na maioria das vezes. No pequeno número de casos nos quais a infecção persiste pode ocorrer o desenvolvimento de lesões precursoras que, se não forem identificadas e tratadas, podem progredir para o câncer, principalmente no colo do útero, mas também na vagina, vulva, ânus, pênis, orofaringe e boca.

 

PNB: O que é câncer do colo do útero?

S.C: O câncer de colo do útero é uma doença grave e pode ser uma ameaça à vida das mulheres. É caracterizado pelo crescimento anormal de células do colo do útero, que é a parte inferior do útero que fica em contato com a vagina. Quando uma mulher se contagia com certos tipos de HPV, se as defesas imunológicas do seu corpo não são capazes de eliminar a infecção, pode ocorrer o desenvolvimento de células anormais no revestimento do colo do útero. Se não forem descobertas e tratadas a tempo, as células anormais podem evoluir de um pré- câncer para um câncer. O processo geralmente leva vários anos e pode apresentar sintomas como sangramento vaginal, corrimento e dor. Cerca de metade de todas as mulheres diagnosticadas com câncer de colo do útero tem entre 35 e 55 anos de idade. Muitas provavelmente foram expostas ao HPV na adolescência ou na faixa dos 20 anos de idade. Dados da Organização Mundial da Saúde de 2008 apontam que, todos os anos, no mundo inteiro, 500 mil mulheres são diagnosticadas com a doença, das quais cerca de 270 mil morrem.

PNB: Qual a importância das verrugas genitais (ou condilomas)?

S.C: Estima-se que aproximadamente 10% das pessoas (homens e mulheres) terão verrugas genitais ao longo de suas vidas. As verrugas genitais podem aparecer semanas ou meses após o contato sexual com uma pessoa infectada pelo HPV.

PNB: Como se transmite o HPV?

S.C: O vírus HPV é altamente contagioso, sendo possível contaminar-se com uma única exposição, e a sua transmissão se dá por contato direto com a pele ou mucosa infectada. A principal forma é pela via sexual, que inclui contato oral-genital, genital-genital ou mesmo manualgenital. Portanto, o contágio com o HPV pode ocorrer mesmo na ausência de penetração vaginal ou anal. Também pode haver transmissão durante o parto. Embora seja raro, o vírus pode propagar-se também por meio de contato com mão. Como muitas pessoas portadoras do HPV não apresentam nenhum sinal ou sintoma, elas não sabem que têm o vírus, mas podem transmiti-lo.

 

PNB: A transmissão só ocorre na presença de verrugas?

S.C: Não. Na presença de lesões planas, não visíveis a olho nu, pode haver transmissão.

PNB: Como prevenir o HPV?

S.C: Melhor prevenção é o uso do preservativo (camisinha) nas relações sexuais. É importante ressaltar que o seu uso, apesar de prevenir a maioria das DSTs, não impede totalmente a infecção pelo HPV, pois, frequentemente as lesões estão presentes em áreas não protegidas pela camisinha. Na presença de infecção na vulva, na região pubiana, perineal e perianal ou na bolsa escrotal, o HPV poderá ser transmitido apesar do uso do preservativo. A camisinha feminina, que cobre também a vulva, evita mais eficazmente o contágio se utilizada desde o início da relação sexual.

– Evitar ter muitos parceiros ou parceiras sexuais.

– Realizar a higiene pessoal.

– Vacinar-se contra o HPV.

PNB: Qual é o público-alvo de vacinação contra HPV definido pelo Ministério
da Saúde?

S.C: – Meninos contra HPV será de duas doses, com seis meses de intervalo entre elas. Para os que vivem com HIV, a faixa etária é mais ampla (9 a 26 anos) e o esquema vacinal é de três doses (intervalo de 0, 2 e 6 meses). No caso dos portadores de HIV, é necessário apresentar prescrição médica.

 

– Meninas a partir de 2017 segundo o ministério da saúde, serão incluídas na vacinação do HPV as meninas que chegaram aos 14 anos sem tomar a vacina ou que não completaram as duas doses. Atualmente, a faixa etária para o público feminino é de 9 a 13 anos.

PNB: Por que é importante que os meninos também tomem a vacina?

S.C: A decisão de ampliar a vacinação para o sexo masculino está correta, de acordo com as recomendações das Sociedades Brasileiras de Pediatria, Imunologia, Obstetrícia e Ginecologia, além de DST/AIDS e do mais importante órgão consultivo de imunização dos Estados Unidos (Advisory Committee on Imunization Practices). A estratégia tem como objetivo proteger contra os cânceres de pênis, garganta e ânus, doenças que estão diretamente relacionadas ao HPV. A definição da faixa-etária para a vacinação visa proteger as crianças antes do início da vida sexual e, portanto, antes do contato com o vírus.

PNB: Qual é o número de doses que os meninos terão de tomar?

S.C: Meninos será de duas doses, com seis meses de intervalo entre elas.

PNB: A vacina é por via oral ou é injeção?

S.C: É por via intramuscular, ou seja,  injeção de apenas 0,5 ml em cada dose.
PNB: Por que é melhor vacinar precocemente?


S.C: 
Para prevenir futuras infecções e possíveis neoplasias causadas pelo vírus. 

PNB: Mulheres grávidas podem se vacinar?

S.C: Não é recomendado, pois  não existem estudos que demonstrem a segurança da vacina nesses casos.

PNB: A vacina serve como tratamento?

S.C: Não, a vacina não funciona como tratamento para quem já adquiriu o vírus, pois uma vez instalado é para sempre.

PNB: A mulher vacinada precisa continuar fazendo o exame Papanicolau
(preventivo)?

S.C: Sim. Existem outros tipos 16 e 18 do HPV que são responsáveis por 70% dos casos de câncer do colo do útero, mas existem outros tipos desse vírus. Portanto, é preciso continuar fazendo o exame Papanicolau anualmente.
PNB: Quais são os efeitos colaterais?

S.C: A vacina é usada em vários países, milhões de pessoas já foram vacinadas e a segurança está bem demonstrada. Como é produzida com vírus inativados (mortos), não é capaz de causar a doença. Como ocorre com todas as vacinas, alguns eventos adversos podem ser observados, geralmente, apenas reação local como dor, endurecimento e vermelhidão. Raramente, pode ocorrer febre baixa e passageira.

O desmaio, também chamado de síncope ou reação vaso-vagal, pode ocorrer após a aplicação de qualquer tipo de injeção e está relacionado a uma hiper-reatividade do sistema nervoso diante de uma situação de stress. É mais comum em adultos e adolescentes. Na maior parte das vezes (90%) a síncope ocorre nos primeiros 15 minutos após a aplicação da injeção (cerca de 60% dessas reações acontecem nos primeiros cinco minutos). As pessoas que se sentem ansiosas, com sudorese, mal-estar, falta de ar antes da aplicação da vacina precisam ficar atentas para prevenir quedas e devem permanecer sentadas ou deitadas após a vacinação.
PNB: O que fazer se sentir alguns desses sintomas após ser vacinado?

S.C: Recomenda-se que a pessoa permaneça sentada por 15 a 20 minutos, imediatamente após receber a vacina sem fazer esforços para prevenir possíveis reações. No caso da aparição de sintomas durante os dias posteriores a vacinação se recomenda procurar uma unidade de saúde mais próxima relatando o que sentiu ou o que está sentindo.
PNB: Quem já teve diagnóstico de HPV pode vacinar?

S.C: Sim, desde que esteja na faixa etária estipulada.  Existem estudos com evidências promissoras de que a vacina previne a reinfecção ou a reativação da doença.

PNB: Por que a vacina HPV não é introduzida para todas as faixas etárias no
País?

S.C: A vacina é potencialmente mais eficaz para adolescentes vacinados antes do seu primeiro contato sexual, uma vez que a contaminação por HPV ocorre juntamente ao início da atividade sexual.
PNB: A proteção dura a vida toda?

S.C: Até o momento, se sabe com convicção que a vacina pode proteger por 9 anos, mas a imunidade relacionada à vacina ainda não foi determinada, principalmente pelo pouco tempo em que é comercializada no mundo, que é desde 2007.

Embora se trate da mais importante novidade que surgiu na prevenção à infecção

pelo HPV, ainda é preciso aguardar o resultado de estudos em andamento para

fornecer mais dados sobre a duração da proteção e necessidade de doses de reforço.

PNB: A vacina HPV pode ser administrada concomitantemente com outra vacina?

S.C: Sim, a vacina HPV quadrivalente pode ser administrada simultaneamente com outras vacinas do Calendário Nacional de Vacinação (PNI), sem interferências na resposta de anticorpos a qualquer uma das vacinas. Quando a vacinação simultânea for necessária, devem ser utilizadas agulhas, seringas e regiões anatômicas distintas.

PNB: Em quais situações a vacina contra o HPV não deve ser administrada em
meninos/homens?

S.C: A vacina HPV é contraindicada e, portanto, não deve ser administrada em meninos/homens com:

– hipersensibilidade ao princípio ativo ou a qualquer um dos excipientes da vacina;

– história de hipersensibilidade imediata grave a levedura; ou, que desenvolveram

sintomas indicativos de hipersensibilidade grave após receber uma dose da vacina HPV;

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