Homens, meus queridos: galanteio, flerte, cantada, com bom senso, podem!

Por Sibelle Fonseca:

Eu tinha 14 anos quando recebi, atravessando uma rua da minha cidade, a primeira cantada. O sujeito era já um rapaz feito e largou um sonoro “Gostossssssa.” Reagi na hora e devolvi a cantada com algum xingamento apropriado. De imediato, ele, desapontado, me disse “Você acreditou, foi? Eu disse de brincadeira, menina. Você é muito é feia!” Quem presenciou deu risada e foi duplo o constrangimento. Mas eu não ficaria calada diante do acintoso adjetivo que se dá a uma comida, um pedaço de carne, um naco de rapadura, ou algo que o valha. E ele, coitado e sagaz, reagiu “bem” diante da negativa de uma “presa” que enfrentou o predador.

Daí pra cá, passei por muitas situações semelhantes e tão desconfortáveis quanto. Me sai como pude e sempre desaforadamente. Já beirando os 50, um homem que conheci através de uma amiga e que a ele não demonstrei o menor interesse, deu um jeito de conseguir o meu contato do whatsApp e saindo do ambiente onde estávamos me passou a seguinte mensagem: “eu quero te comer.” Era um moço de seus 40 anos idade, informado, de pensamento progressista, e de um status social privilegiado. Li a mensagem chocada e sem acreditar. Deixei o bonitão no vácuo. Me dei ao direito de não responder a um homem que passara o tempo falando na roda de conversa, que não era machista e se mostrando bem “moderninho”. Preferi, como pretensa comida, deixar que o meu silêncio azedasse dentro dele. Achei que era melhor deixá-lo amargar a própria estupidez.

Pois bem, com toda esta polêmica boa e mais que na hora, do que seja assédio, abordagem machista ou “cantada”, Ailton Nery, parceiro das antigas e meu sócio no Preto No Branco, me perguntou “se não mais poderia “cantar” uma mulher que deseja”. Entendi a angustia dele, como entendo a sua, meu amigo vítima desta estrutura social desgraçadamente machista, que, aos poucos, está ruindo. Graças! Imagino o quanto está inseguro e assustado. Então, vamos lá. Não espere mais viver 60 ou 100 anos para aprender uma lição que deveria ter sido dada em casa, caso esta casa não tenha sido alicerçada no machismo perverso que violenta com os olhos ou com uma faca e faz mal e mata.

Não conheço uma mulher que não goste de um “galanteio” (como dizia meu avô). Que não goste de um “flerte” ( Como dizia meu pai). Que não goste de uma “cantada” (Como me diz Ailton). Sim, não tem coisa melhor do que se sentir desejada- falo como mulher. Mas desejada por quem se deseje também. Tem que ter algo de correspondido. Algo de consentido. É uma questão de sensibilidade e empatia. Aprenda! Houve retribuição no olhar? Houve interesse de dois?  Houve alguma troca de sinais? Então vá lá, e demonstre que você achou aquela mulher interessante. Mas não a trate como uma comida gostosa, uma galinha exposta numa “televisão de cachorro”. Eu sei que essa linha é tênue. E sei também que vocês, homens, sempre ultrapassaram o limite, impunemente, e jamais tiveram uma linha.

Sinceramente, tenho pena de vocês, tão perdidos, tão inseguros, com a nova ordem que se estabelece nos tempos de agora. Mas é simples, muito simples. Nós, mulheres, estamos dizendo: CHEGA da brutalidade da abordagem de vocês! A violência velada da cantada rude. Mas não estamos dizendo que parem com a cortesia, com a poesia de demonstrar desejo, com a atitude (e nós adoramos homens de atitude) de demostrar interesse. Mas, reparem, há de ter consentimento. Sabem o que significa bom senso? Então… Usem e abusem dele, do bom senso. Bom senso que é irmão do respeito, primo próximo do “semancol” e inimigo ferrenho da estupidez machista que belisca, pega na bunda, no braço, puxa no cabelo, come com os olhos e diz que quer comer o que não está ao seu alcance.

A seguir, a opinião de belas e inteligentes mulheres, que vão lhe dar “um puta” de um “fora” se vocês insistirem em tratá-las como um pedaço de carne qualquer.

Moema Cavalcanti, Advogada:

“Diante de um assédio ou uma cantada eu sempre reajo com uma expressão de reprovação ou até mesmo uma resposta exigindo respeito. Infelizmente deve existir um cuidado por parte da vítima, já que não se pode prever a reação de uma pessoa que faz uma abordagem tão grosseira, mas se intimidar ou se culpar nunca é uma opção.

Assédios e cantadas sempre são manifestações abusivas e desrespeitosas que não devem ser toleradas ou justificadas”.

Will Carvalho, Cantora

“Adoro cantadas, mas precisam ser oportunas e inteligentes. Se for cantar por cantar, estará perdendo tempo comigo, afinal de contas, de  ‘cantada’ eu entendo!

Sinto-me constrangida quando aceito pessoas nas redes sociais e os mesmos são claros ao dizerem que me adicionaram por terem me achado bonita e vão imediatamente pedindo meu telefone de contato. Isso realmente me tira do sério e me sinto uma mercadoria. Daí respondo à altura.

Uma cantada inteligente vem com olhares discretos e com uma conversa com conteúdo. Abordagem significativa. Saber um pouco sobre aquele que você está cantando, ou melhor, querendo conversar, pra poder abordar. O resto seria, simplesmente, uma cantada infantil”.

Lorena Pesqueira, Psicóloga:

“O assédio, cantadas, e toda forma imprópria de persuadir uma mulher, tem me deixado reflexiva. O homem quando faz isso, não está querendo a “Mulher”, ele quer o seu corpo, o seu “órgão genital”.

É um sentimento abusivo, asno, da ideia de uso de poder, de machismo, de mediocridade. Geralmente, quando reajo à esse tipo de prática, eu devolvo a piada com o mesmo tom, e percebo que a reação é de ofensa.

O que eu acho disso tudo, é que as mulheres precisam falar sobre o assunto, denunciar mesmo”.

Carla Batista, integrante do Fórum de Mulheres de Pernambuco e Articulação de Mulheres Brasileiras:

“Assédio é também uma forma de violência contra as mulheres. Ele geralmente vem na forma de cantadas, de coação, de pressão, mas ele não deixa de ser uma negação da humanidade de outra pessoa, do lugar de sujeito da outra pessoa. Ele nega que aquela outra pessoa tem vontade própria, que ela tem direito a ser respeitada, a não ser invadida na sua dignidade e na sua privacidade. Então é uma forma de violência muito grave.

Felizmente, hoje em dia as mulheres já estão entendendo como tal. Você tem o caso dessa funcionária da Rede Globo que foi assediada por um dos atores e ela reconhece isso, ela faz a denúncia e tem o apoio das suas colegas de trabalho. E isso é muito interessante, porque anos atrás, o movimento feminista dizia que esta violência não poderia mais continuar sendo naturalizada como sempre foi na nossa sociedade, e convocava as mulheres para denunciarem.

Hoje elas compreendem esse tipo de violência, que é o assédio. A Lei Maria da Penha reconhece a violência psicológica, moral, e o assedio é uma das formas visíveis desta violência. E nós estamos lutando contra esta forma de violência também”.

 

 

 

5 Comentários

  1. Excelente abordagem de um assunto que é antigo e super atual. É necessário dar um basta à cultura machista que sempre viu a mulher como algo para “comer”, deliciar-se e cumprir com trabalhos domésticos, sem se dar conta que ali está um ser humano capaz, para além da criação de filhos, que merece ter respeito e muita consideração. Nós atingimos um patamar importante com a Lei Maria da Penha, mas temos muito para avançar. Denunciem os maus tratos, a tortura psicológica e principalmente o assédio existente em seu local de trabalho. Juntas seremos muito mais. Respeito é bom para todos.

  2. Maria Gloria da Paz

    Menina, vc sabe que “no meu tempo”, isso era comum, a gente ficava super angustiada, tinha meninas que tropeçavam nos propios pes e chegavam a cair, envergonhadas com as cantadas de mau gosto. Nesta epoca, as “meninas do Norte” eram consideradas mercadorias, pois eram peradas para a prostituiçao nos cabares da cidade. Nos, as negras e pobres, fomos muitas vezes confundidas, sofriamos duas vezes, nesse tempo, nao se falava em machismo nem em misogenia, eramos nascidas para parir,cuidar dis filhos, da casa e do senhor marido.
    Hoje a idade avançada nao nos permite a cantada e sim a discriminaçao/ chacota por conta da idade.
    Isso nao nos assusta mais, somos donas de nos mesmas, nos mantemos e nos comandamos.

  3. Com certezaaaaaa ♡♡♡♡… uma cantada sutil, poeticamente falando, faz bem pra alma!! Mas uma cantada grosseira eh algo tão agressivo quanto uma punhalada nas costas… feri a dignidade humana!! .
    Parabéns pelo assunto abordado. ⭐
    “RESPEITO EH BOM E TODO MUNDO GOSTA”!!
    E eu digo: – “Seja inteligente e conquiste o MUNDO… não apenas uma garota ou um garoto, mas o mundo” !! ♡♡♡♡

  4. Fere*

  5. enio silva da costa

    Parabéns pelo artigo, como sempre abordando temas muito importantes. Há uma unanimidade quanto o prazer de uma cantada, que pode ser um gracejo ou um elogio, desde que não venham enrustidos de machismo ou vulgaridades. Mas enfim, não devemos viver a angústia de não poder desejar e ser desejado. Muitos relacionamentos duradouros e respeitosos nasceram de um flete ou de uma cantada.

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