Marlon James: “Bob Marley foi visto por alguns como um revolucionário perigoso”

 

“Meu trabalho é descrever da mesma maneira um tiroteio e um beijo”, diz o escritor jamaicano Marlon James (Kingston, 1970), que vai participar da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip 2017). James garante que sua obra tem mais de jornalismo que de literatura. Mas não deixa de ser curioso que ele considere seu bisturi narrativo tão frio e preciso quando as 800 páginas de Breve História de Sete Assassinatos, romance ganhador do prêmio Booker e publicado no Brasil pela editora Intrínseca, são um vulcão que cospe frenesi, violência, sensualidade e corrupção. Tem a verve infecciosa e sufocante daquelas histórias do subdesenvolvimento onde a vida não vale nada. Mas é uma verve que também recebe as chibatadas de um escritor obcecado com o rigor documental e a técnica investigativa que herdou de sua mãe, que era detetive.

“Como escritor, tenho a tendência de escrever demais, de usar muitas metáforas. Mas quando falo através das personagens, restrinjo-me de uma maneira que me agrada. Eu gosto quando minha personagem diz sobre um entardecer: ‘Esse entardecer é um tédio’, e não preciso sacar mil epítetos. Nasci em 1970 e esta história é de 1976, minha voz aqui não é relevante e não há nenhum aspecto de mim que se impregne em minha obra. Para isso já tenho meu diário. E acredito que retratar a violência requer muito autocontrole. Basta olhar o Guernica de Picasso”, diz o escritor em uma entrevista ao EL PAÍS.

James ganhou o Booker com seu terceiro romance, depois de John Crow’s Devil (2005) e The Book of Night Women(2009). Demorou quatro anos para lançá-lo e o que se percebe do outro lado é como uma viagem por um arquivo de história oral da Jamaica dos anos 1970 e 1980, que reflete, no uso da linguagem, a estratificação social e a poesia do instinto de sobrevivência.

“A língua pode te incluir ou excluir. Na Jamaica, falar um bom inglês indica que você pertence a uma classe ou outra, mas isso não significa que, se não falar, você é inculto ou idiota. Pode ser enganoso: eu falo um bom inglês e venho da classe média. Não se dão conta de que o inglês não é uma língua a que todos devem aspirar. É uma ferramenta qualquer”, diz quem foi descrito como uma mistura de Quentin Tarantino com William Faulkner.

Com dezenas de personagens, entre elas o próprio Bob Marley, o autor tece uma selva espessa de interesses, desejos e corrupções, um quadro impressionista que requer distância para ver a imagem nítida de um mundo pré-globalizado que já tecia sua teia com duas aranhas irmanadas: a política e o narcotráfico. “Acredito que a esta altura os norte-americanos são os únicos que se surpreenderão com os horrores de sua própria política externa. Ao menos em Cuba e na Jamaica temos isso bastante claro”, diz sobre o duro golpe que atribui à CIA devido a seu papel no Caribe.

 

 

Sua prosa é exigente e ele mesmo quis incluir um guia das personagens no início do livro. “Não acredito que os leitores vão seguir adiante de maneira fluida em cada página. Nem deveriam. Há confusão, os personagens se contradizem e a história não se encaixa, mas isso é premeditado. Não há uma autoridade que conte uma história assim. Não estou tentando posicionar nenhuma das vozes como a verdadeira. Os personagens às vezes tiram sarro do leitor”, diz o autor.

Existe um gancho comercial na figura de Bob Marley. Um recurso fácil em um romance tão complexo? “Por que não? É a pessoa mais famosa da Jamaica e nosso embaixador cultural. E, como embaixador cultural, acho que não está nada mal. Percebi que muita gente não sabia que tinham tentado matá-lo. Através de um ícone podemos conhecer uma boa história. E as pessoas não sabem que, além de cantor, foi um revolucionário que muitos consideraram perigoso”, diz.

Enquanto desenhava essa tapeçaria ultraviolenta, Marlon James lia James EllroyMarguerite Duras e Virginia Woolf, que considera indiretamente presentes no livro. Tudo o que diz James parece destinado a dinamitar os rótulos que queiram pôr nele como jamaicano, negro e homossexual que deixou seu país para se instalar nos Estados Unidos, concretamente em Minneapolis.

“Quando saí da Jamaica deixei uma sociedade pacífica. Eu era de classe média. Esta é uma história do oeste de Kingston e, sim, é uma história violenta. Mas pensar que o que aqui retrato é a Jamaica é como pensar que a África é ebola quando só 1% dos africanos têm essa doença. Além disso, a história de que fugi de uma terra turbulenta para vir aos Estados Unidos é falsa, mas só porque há muita violência nos Estados Unidos também”.

Tampouco fugiu da perseguição por ser gay em um país considerado um dos mais homofóbicos do mundo. Na verdade, foi o tédio que o fez partir, conta. Seu conceito de Breve História de Sete Assassinatos é muito relativo. “Para mim é breve, porque daria uma trilogia. Mas foi mais uma brincadeira com aqueles dicionários concisos de Oxford que tinham três volumes. E a vida das personagens é breve. Das que começam o livro, apenas duas sobrevivem as 200 primeiras páginas”.

Por isso, o leitor que terminou o livro arrebatado e exausto se surpreende com a resposta de James quando se pergunta se ele se considera otimista: “Tenho certa fé no ser humano. Meus livros nunca acabam mal. É uma reconexão depois de uma desconexão. Este é o terceiro romance que termino com uma voz feminina. Talvez elas devessem dominar o mundo”.

Mateo Sancho Cardiel/El País

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