“Corrompidos pela inteligência?”- Por Ivânia Freitas

 

Confesso que a letargia coletiva já vinha me irritando há dias. Ando pensando, inclusive, que tem forças sobrenaturais atuando sobre nós, para impossibilitar que façamos um levante popular que mostre aos golpistas que e ao bando de gangster que tomaram de assalto o ‘poder’, percebam que três centenas de políticos corruptos não são maiores que uma nação de 200 milhões de pessoas.

 

Toda a ‘flexibilidade’ judiciária que abriu precedentes para o golpe e o sustenta; as (contra)reformas que exterminam direitos dos trabalhadores; os cortes em áreas estruturantes como saúde, educação e habitação; a retirada de mais 500 mil famílias do Bolsa Família, levando de volta à linha de pobreza, milhares de pessoas; o avanço do discurso machista, homofóbico, reacionário e conservador por segmentos religiosos, que assustam tanto pela alienação, quanto pela arrogância dos que se julgam sábios e bons, o suficiente, para condenarem todas as diferenças, tudo isso tem sido mais do que suficiente para nos tirar a paz, a tranquilidade, fazendo crescer em nós, uma angústia que tem nos colocado em estado de adoecimento da alma, do coração e do corpo.

 

Essa semana fui ao ápice da minha irritação, do meu incômodo. Uma entrevista que não apenas desqualifica, mas busca incriminar os intelectuais de esquerda (feita por quem é aparentemente, pelo discurso, um intelectual de direita), me levou a esse texto. Aquilo que se revela por trás da entrevista, evidencia o quanto a direita brasileira vem se movendo e atacando, por todos os lados, a esquerda (inclusive, com uma perseguição cinematográfica ao ex presidente Lula), para torná-la cada dia mais odiada e descreditada pela população. Isso tudo ocorre junto com o desmonte das políticas sociais, econômicas e culturais, acirrando o quadro de descontrole econômico, com a ‘inteligente’ finalidade de “consumir nossas forças”, nos colocando para trabalhar 24 horas por dia, minando portanto, nossa capacidade de organizar, mobilizar e fazer o enfrentamento de forma coletiva. Estamos ocupados demais!

 

Se aproveitando do ódio que forjou no povo pelo PT, a direita vem com o “auxílio luxuoso da mídia”, desconstruindo a esquerda brasileira e solidificando o terreno para o desmonte da nação, que vai sendo feito de forma acelerada. Levados pelo ódio à esquerda, muitos se recusam a ver o evidente estado das coisas ou silenciam convenientemente, demonstrando pouca ou nenhuma preocupação com o cenário catastrófico que se instalou e que vai chegar à porta da casa de todos, indiscriminadamente. Esses, que inclusive votaram na direita, que foram para as ruas contra Dilma, não vão para o embate (ainda que discordem de muitas ações do governo), inclusive, porque a direita os fez crer que, toda e qualquer manifestação contra as ações do governo em curso, inclusive, toda e qualquer manifestação pela garantia de direitos, é nada mais do que discurso de esquerda, discurso do PT. Desse modo, preferem ficar, assistindo de fora ou ‘apedrejando’ os petistas (denominação única para qualquer um que se manifeste na linha contrária ao golpe), sobretudo, nas redes sociais.

 

Contudo, isso não é o mais grave da questão. O que irrita mais é como nós, a esquerda, temos reagido a isso. Ou melhor, como nós NÃO temos reagido. É estúpido, porém verdadeiro, o fato que estamos cada dia mais divididos. Nos perdemos na disputa de poder e abrimos mão de vez, da construção de um projeto da classe trabalhadora, de um projeto de sociedade, para ser claramente apresentado à população como a saída para os danos que o golpe provocou e provocará, podendo dar ao povo, a oportunidade de ver com clareza, as distinções entre o pensamento de esquerda e de direita (que eu ainda acredito existir).

 

Temos muitos elementos que nos dão base para essa formulação, contudo, isso não tem nos interessado. Nossos partidos estão nas disputas político-partidárias de forma mais esdruxula possível. Estão negociando benefícios, fazendo alianças com os partícipes do golpe, tudo em nome do voto que garante o mandato, enquanto temos uma democracia em decadência e as desigualdades em rápida ascensão. Parece que não se deram conta de que, em um cenário antidemocrático, mandato de esquerda nenhum, sobreviverá (a não ser que se corrompa, jogando no lixo os princípios esquerdistas, como aliás, muitos já fizeram).

 

Olho com repulsa, muitas das gestões de esquerda (vereadores, prefeitos, deputados, governos), que não se deram conta do papel que têm nesse momento da história, que nos coloca na missão de ajudar a reinventar democracia, de reerguer o pensamento ( e práticas) de esquerda, de estar junto com as bases na construção de saídas e retomada da esperança. O que tenho visto em muitos municípios, é um cenário de esquerda apenas na sigla partidária. Vereadores com mandatos mornos, silenciados pela conveniência; prefeitos com gestões medíocres que de nada lembram  o projeto de esquerda, se aproximando muito mais, da lógica capitalista de fortalecimento do mercado, de cumprimento de metas e índices que servem apenas para controlar e alinhar as gestões públicas ao projeto do capital, muito bem representado pelas forças de direita que hoje ocupam os poderes (executivo, legislativo e judiciário) brasileiros. Deputados rendidos e vendidos, exercendo seus podres poderes bem distantes do povo e seus reais interesses. Ocupantes de cargo público travando políticas, alienados pelos ‘benefícios pessoais’ das posições que ocupam, fazendo barganhas como ‘se não houvesse amanhã”, perdendo a oportunidade que têm de fazerem a diferença positiva em espaços que sempre foram dominados pela direita. Infelizmente,  o que temos visto (com raras exceções) é a manutenção da ‘velha’ política, embora revestida de discursos progressistas que nem empolgam mais.

 

A esquerda dos intelectuais, a esquerda inteligente, parece está morrendo enquanto surge uma direita ‘bem articulada’, ‘unida’ e estrategicamente posicionada para levar a cabo, seu projeto de poder. Nele se inclui, descreditar a esquerda; vender o Brasil; aumentar as desigualdades, que por sua vez, fortalecem o capital e seus representantes.

 

Enquanto tudo isso acontece, nossos sindicatos travam brigas entre si. Cumprem (consciente ou inconscientemente) o que a direita espera deles: desmobilizam, enfraquecem as gestões de esquerda,  a partir do discurso de que “não importa a hora, nem a forma, se não atender aos nossos interesses imediatos, vamos detonar”. Ora pois, o papel dos sindicatos (que não  devem ser instâncias de representação dos interesses de quem os coordena, mas dos que os constituem), têm sim o papel de fazer o enfrentamento, independente de qual sigla partidária está no poder. Contudo, no momento grave da história pelo qual estamos passando, cabe coerência ética, política, clareza de projeto, da grande disputa que está dada no atual cenário, que nos coloca apenas duas opções: ou estamos de um lado ou estamos de outro. Não há o meio termo. Se, do mesmo lado que estamos há contradições, incoerências em nossas posturas, vamos discuti-las a fundo, mas, sabendo que estamos do mesmo lado da batalha.

 

Nas academias, enfrentamos as mesmas questões. As disputas regadas pela vaidade, tem nos impedido de estarmos mais próximos da base, mas dentro do debate político (que tanto nos “acusam” de fazermos). Olho incrédula, para dentro das Universidades e vejo as coisas “andando(?)” sob o ‘conforto’ daqueles muros, como se nada tivesse relação com o turbilhão de ataques ao povo e a democracia que o Brasil vive. As mesmas aulas, os mesmos debates, as mesmas posturas, o mesmo distanciamento.

 

Ouço meus colegas de outros países da América Latina relatarem espantados suas percepções sobre como o Brasil chegou até esse quadro e como é possível, em um país que teve um partido de esquerda no poder por mais de uma década, que fomentou como nenhum outro a universidade pública, as academias não assumirem a liderança por uma grande mobilização social para retomada do estado de direito que vai se fragilizando em velocidade incontrolável!

 

O produtivismo ao qual fomos jogados pela  Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível- CAPES (constituída por nossos próprios pares – que parecem viver em outro planeta!); a vaidade e arrogância de muitos de nós, irão nos trazer muitos ônus imediatos e futuros. Os tão suados e ‘importantes’, títulos acadêmicos, parecem não servirem de muita coisa quando temos que lutar pela vida de verdade, a vida que exige sair das salas de aula (ou ampliá-las para além dos muros da academia e das “referências bibliográficas”), dos discursos rebuscados (úteis apenas para se distinguirem da voz do povo), que nos exige estar junto das comunidades, das organizações que ainda resistem, enfrentar sol e chuva, colocar a vida na berlinda, fazendo ‘jus’ à inteligência que muitos sustentam ter (muitas vezes de forma arrogante).

 

A direita vence e parece que o discurso de “esquerda inteligente e direita burra” se inverte.

 

O fato é que estou sem paciência para travar batalhas entre nós mesmos, para guerrear do mesmo lado da linha, gastando todas as nossas forças com aqueles e aquelas que deveriam estar cientes de que estamos lutando do mesmo lado e precisamos uns dos outros para não morremos no fronte de batalha. Toda a nossa força deveria se voltar nesse momento da história contra o inimigo maior que se agiganta: o fim da democracia, o aumento das desigualdades, o avanço do projeto da direita e o  fim da esperança.

 

Não “corrompemos a inteligência”, como insinua o Flávio Gordon na entrevista no site da globo.com (a qual me referi no início do texto). Eu acho que aconteceu o pior: fomos,‘corrompidos’  por ela e penso que esse pode ser o decreto final mais duro a enfrentar.

 

Professora Ivânia Freitas

UNEB-Campus VII-Senhor do Bonfim-Bahia-Brasil

 

7 Comentários

  1. Bem isso! Texto muito bom! Com diversos pontos a serem discutidos. Penso que é uma realidade cansativa, suga nossas forças. De fato, precisamos nos ocupar “quase” que exclusivamente com a busca pela sobrevivência (estratégia do capital para minar as possibilidades de reação), além disso, vivemos uma crise na esquerda, que perdeu grandes oportunidades de se fortalecer ao longo dos anos em que o PT esteve na presidência da república. Acho que os valores capitalistas foram internalizados de forma muito eficiente, pois o individualismo tem nos impedido de reagir.

  2. Essa é uma reflexão muito importante pra todos nós brasileiros

  3. Dailton evangelista

    Concordo plenamente com todo o texto , o povo brasileiros tem vergonha de assumir os seus erros. A maioria daqueles que foram para as ruas pedir a saída da Dilma hoje tenho certeza que se arependem, mais tem vergonha de fazer o mesmo com o temer. Cabe a nós brasileiro de verdade e de amor aos mais necessitados, dar uma resposta nas urnas.

  4. Penso que, em grande medida, Ivânia, nós da esquerda precisamos ter clareza do que queremos. Queremos tirar o Temer do poder? Queremos eleger Lula? Queremos um projeto popular no poder? Queremos, simplesmente, chegar ao poder? Ou queremos restabelecer o regime democrático? Friso que, todas essas questões são diferentes uma da outra. Entendo que essa inércia que nos aflige, na verdade, é uma tentativa errônea de guardar forças, e apostar todas as fichas, para a eleição de Lula. Isso, desde já, pressupõe um entendimento equivocado de que Lula desfará tudo o que está sendo feito hoje pelo desgoverno golpista. Apesar de acreditar muito em Lula, não entendo que ele fará esse tipo de enfrentamento, inclusive, por que precisará do Congresso para fazê-lo. Nossa inércia também se dá por que, temos visto, ainda, pouca materialidade do que está sendo realizado pelo governo golpista. Ainda acredito na luta, por isso, ocupo os Sindicatos e Fóruns populares. Penso, e defendo, que todos devemos fazer resistência e luta ideológica e política, a partir do lugar que cada um ocupa, seja Sindicato, Universidade, Instituto Federal, Igrejas, Associações, Mídias entre outros espaços. Nunca se fez tão necessário o esclarecimento e reconhecimento acerca do conceito de ‘luta de classes’.

  5. Reginaldo Rodrigues da Silva

    Texto bastante coerente, estamos em uma disputa hegemônica cuja materialização é a narrativa

  6. Comungo dos seus iluminados pensares, dileta amiga Ivânia, com extrema lucidez, traduz com fidelidade o que vivenciamos na conjetura política nacional. Encontramo-nos inertes, passivos, omissos a nós mesmos, a mercê dos algozes senhores da verdadeira criminalidade organizada que rege o nosso país, dirigida e coordenada pela escrota escória executiva, legislativa e judiciária GOLPISTA.

  7. Pedro Carlos Figueiredo Pinto

    Infelizmente o domínio da direita, puramente capitalista, está dominando, manipulando e submetendo todos países à sua sanha monopolista. A América Latina que já está ficando dentro do seu sistema de dominação (começando pela Argentina, agora o Brasil, quiça a Venezuela (que é potência petrolífera) e os menos afortunados) para, inclusive, nos impor o neo-liberalismo escorchante. Hoje, vendendo nossas riquezas, estatais e bancos, empresas, industrias de base, energia, transportes, etc, fatalmente nos transformará em meros e submissos trabalhadores para o grande setor financeiro dominante. Nossa democracia está enferma e carece de ajuda. O governo imperialista americano, que se diz democrata, é a grande praga. PENSO ASSIM.

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