“Sempre aos Domingos”, por Sibelle Fonseca: Quais são as suas linhas de expressão?

 

Coisa rara pra mim é fazer passeios em shopping. O confinamento me incomoda, o barulho me deixa tonta e o apelo ao consumo me irrita, deveras.

Mas numa tarde dessas, forcei-me a ser uma mulher normal e passei uma tarde em um grande center da capital. Meio sem graça, sem apetite para as vitrinas, subi e desci os pisos e o que gostei mesmo foi de constatar que eu não precisava de nada que estava exposto. O que mais eu comprasse, seria puro exagero ou rendição ao supérfluo. E olha que eu não sou uma pessoa de coisas e de moda, sou mais gente e sentimentos.

Pois, bem… passando por uma das alas, fui abordada por um jovem vendedor de cosméticos que me lançou a seguinte pergunta: – “O que a senhora usa para esconder as linhas de expressão?”

– ” Nada”, eu disse, displicente.

E ele insistiu – “Como nada? um rosto tão bonito, precisa de cremes para parecer jovem. Temos aqui vários produtos que vão transformar a sua pele e deixá-la vinte anos mais jovem. Eles são infalíveis”, propagandeou o rapaz.

Fui até delicada com ele, mesmo diante de abordagem tão invasiva e segui meu passeio, respondendo apenas com um olhar de desinteresse e um “muito obrigada”, sem graça.

Ele me deixou pensativa e disso eu gostei. Só assim meu passeio seria acompanhado por pensamentos mais produtivos, que não sobre as liquidações e tendências da nova estação, isso que estava ao alcance dos olhos no cenário de shopping center. Gosto de pensar. Gosto demais de bulir com o óbvio e sair da superfície.

Sentei pra tomar um chopp e viajei na daquele rapaz vendedor, muito bem treinado para vender aparência, padrão, estética, promessas de juventude eterna, produto em voga.

Deu vontade de chamá-lo para sentar comigo, tomar um chopp e conversar sobre “linhas de expressão”.

Começaria o papo perguntando, se ele sabia o que eram “linhas de expressão”.

E lhe diria: “Garoto, esse rosto que você achou bonito é muito bem cuidado. Começo a cuidar dele logo quando acordo e olho-me no espelho. Fito-o e digo: “Mais um dia está começando e nós temos uma missão: sorrir para quem precise e mereça; fechar-se para a maledicência, a maldade, a amargura, a falta de respeito com o outro, as manifestações raivosas e carregadas no preconceito, na arrogância e na prepotência.

Libero-o para ser feio com os estúpidos, rosto meu! Libero-o também para ser indiferente e até superior, com os tolos. Libero-o para fazer caretas, muitas caretas na brincadeira com as crianças que encontrar. Para dar língua de gaiatice ou de irritação mesmo, quando toparmos com algum chato. Libero-o para chorar até se desfazer. Para se transfigurar. Libero-o para ser sedutor e dar aquela piscada para quem quiser. Para encarar o seu objeto de desejo, segurar o olho e dizer “eu te quero”. Libero-o para envergonhar-se de nossas besteiras, mancadas, vacilos, micos. Para ruborizar-se diante de um elogio, assédio ou queixa. Libero-o para ser limpo, sem tintas, sombras e batom. E para maquiar-se e carregar no rouge, eu te libero também”.

Depois desta primeira conversa, meu jovem, eu boto a cara no sol e vou viver, sentir, experimentar, ousar, desafiar, re-significar tudo, colorir, reagir, resistir. Vou botar emoção em todos os momentos das 24 horas que terei pela frente.

Isso se repete todas as manhãs de algumas décadas. E tudo isso produziu “linhas de expressão”.

Faça um esforço e tente ler nestas linhas, muitas vitórias, derrotas, gozos, desesperos, partos, chegadas, enlaces e desenlaces. Tente ver a dor e orgasmo de parir quatro filhos, de amar tantas vezes, de decepcionar-se outras tantas. Tente ver conquistas, perdas, ganhos. Tente ver vida por aí, meu belo rapaz! E vida em abundância.

Sinto muito, mas eu não quero ver essas linhas apagadas, nem aplacadas. Seu produto pode ser muito bom, mas não para mim. Eu passo cremes é no coração para que ele fique tão macio quanto a generosidade e a empatia. Tão firme quanto a coragem de validar-me e brigar pelo meu lugar no mundo. Tão sedoso, que se torne leve. Tão luminoso que atraia gente boa, gente jovem, poesia, arte, melodias, irreverências e o novo, o novo que me remoça.

Eu passo colágeno é a na cabeça, para que ela abra todo dia uma brecha a mais e não enferruje, jamais. Meu colágeno tem som, tem gargalhadas, soluços, tem cor de gente, tem gosto diverso e cheiro muito bom. Ele combate a flacidez das relações e dos sentimentos. Ele combate os contatos efêmeros e imediatos. Meu colágeno é massa, guri!

Agora, cá pra nós, você tem algum ácido poderoso na sua prateleira? Ahhh, porque se tiver, este eu quero!

Ainda tenho muitos radicais livres na alma que precisam ser combatidos!

Mas, por favor, me deixe com minhas linhas de expressão. Elas são minhas. Elas são eu.

Se tiver também um bom protetor solar destes que não me incomodem, este eu quero também. Preciso aprender a usá-lo.

E obrigada por me fazer pensar, “broder”!

Agora pode ir fazer a suas próprias linhas de expressão. Elas são uma escolha!

Um comentário

  1. Bacana, lindo texto pra pensar.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *

*