Sempre Aos Domingos :” Não guarde muitas roupas sujas. Faz mal!” Por Sibelle Fonseca

 

Jane me vendia seus serviços de lavanderia, há uns cinco anos. Uma mulher de seus 40, forte, prestativa, saudável e muito simpática. Há menos de um mês, quando fui pegar as roupas limpas na casa dela, nos despedimos na porta e ela me disse: ” Não guarde muitas roupas sujas. Faz mal!”, advertiu-me porque conhecia meu desleixo. Quinze dias depois disso, ela partiu e eu fiquei profundamente triste, saudosa dela.

Fui ao seu velório e olhando o corpo morto, fiquei pensando nas últimas palavras dela para mim :” Não guarde muitas roupas sujas. Faz mal!”.

Quis ficar com essa frase dela para minha reflexão.

Quantas roupas sujas vamos guardando durante uma vida toda? Quantas deixamos de lavar ? Nessa trouxa há de tudo … ressentimentos, rancores, ódios, intolerância, prepotência, arrogância, orgulho, vaidade, inveja, indiferença, maldade e maledicência, preconceitos, culpas, culpas, culpas, crueldades e estupidezes e mais algumas peças vestidas de desamor.

Uma trouxa pesada que impede a evolução. Mas a gente vai carregando, mesmo assim, o peso que nos faz mal. Passamos uma vida toda aumentando as peças desta trouxa que nos deixa sujos, contaminados, maculados.

Fiquei pensando nas peças sujas que venho guardando por 50 anos. Desejei lavá-las. Avaliei que seria caro demais, difícil demais, doloroso demais. Mas comecei a fazer o rol e chamo isso de percepção. O que eu preciso lavar só eu mesma sei. Cada um sabe das suas roupas a lavar. É preciso fazer esse rol. Isso é percepção, a primeira ação do ofício de lavar roupas. O que está sujo? O que precisa de um polimento? de uma amaciada? de um perfume? É preciso ter a humildade de Jane para reconhecer.

A partir daí, começa a tarefa de esfregar, de bater, de ensaboar e enxaguar até que a sujeira saia. E ela não sairá de vez. Vai ser preciso bater mais. E isso custa caro. Requer empenho, boa vontade e tempo. Tempo para conviver com as pessoas, através delas nos reconhecemos. Requer disposição e coragem. Porque a sujeira acaba acomodando. Nos acostumamos com tudo mesmo.

Mas lembremos de Jane quando bem disse ” Não guarde muitas roupas sujas. Faz mal!”

Me despedi da minha prestadora de serviço que eu tanto queria bem, desejando que ela tivesse lavado muitas das suas roupas sujas e que partisse com uma trouxa mais leve, suave, saudável.

Lembrei do semblante dela, da sua gentileza e generosidade. Da paciência e paz que me passava, e comecei a fazer meu rol.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

2 Comentários

  1. Sibelle,
    Te conheci quando éramos meninas.
    Te conheci? Mas, a
    tua lembrança da rua Paraíso,
    ficou. Uma imagem! Gosto de muito dos teus textos e da tua sinceridade intelectuais en tratar às vezes assuntos pessoais. Talvez um dia te escreverei.

  2. Maravilhoso o texto, muito oportuno para uma longa e vasta reflexão, necessário que sabemos nossas roupas. Amei você é extraordinária.

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