“É ruim, é doloroso, mas passa!! A difícil tarefa de lidar com as perdas” – Por Luciandra Pinheiro

 

Todos os dias estamos em contato com eventos e fatos relacionados a perdas. Sejam elas físicas, emocionais, sociais ou psicológicas. Contudo, desejamos em nosso imaginário que o sofrimento humano e as perdas de um modo geral estejam muito distantes de nossas realidades cotidianas. Quando estas se tornam um fato real, muito perto de nós, como costumamos reagir? O que fazer para aceitarmos as condições a nós impostas diante do sofrimento, da dor de uma perda?

Em 1915 Freud já fazia elaborações acerca da perda e do luto. O último como sendo uma reação a um fenômeno mental e constante durante o desenvolvimento humano. Para o autor, no luto, nada existe de inconsciente a respeito da perda, ou seja, o enlutado sabe exatamente o que perdeu. Além disso, o luto é um processo natural instalado para a elaboração da perda; um sentimento que não diz respeito somente em casos de morte. Estamos sujeitos a várias situações dessa ordem como derrotas e fracassos do dia a dia, as frustrações profissionais, os fracassos sentimentais, os desejos de posse e as relações mal sucedidas e até mesmo nas relações parentais.

Melanie Klein – uma das mais importantes psicanalistas da história – foi além ao dizer que, durante o desenvolvimento psíquico, todos nós passamos por um primeiro luto, justamente à época em que nos diferenciamos de nossa mãe (ou cuidador principal), ou seja, quando aceitamos que há dois seres separados. Klein afirmava que “…apesar de a característica típica do luto normal ser o fato de o indivíduo instalar o objeto de amor perdido dentro de si mesmo, ele não está fazendo isso pela primeira vez. Na verdade, através do trabalho de luto, ele está restaurando esse objeto, assim como todos os seus objetos amados internos, que acredita ter perdido. Portanto, está recuperando aquilo que já tinha obtido durante a infância.”

Podemos entender a posição de Klein quando observamos as transformações que vivenciamos ao longo da vida. Uma criança quando se torna adolescente, por exemplo, que cresce e se transforma e nos transforma também como pais; pela perda da infância, pelo declínio das funções orgânicas que surgem com o envelhecimento…. enfim, cada fase da vida é acompanhada de mudanças que nos desalojam e podem ser sentidas como perdas, demandando um trabalho interno de luto. O simples ato de crescer vem com um doloroso abandono do corpo infantil e suas significações, ou seja, a capacidade de o indivíduo, desde a infância, em se adaptar às novas realidades produzidas diante das perdas. A vida é um constante processo de perda e superação, inegavelmente.

Normalmente as pessoas são vistas com admiração quando não se abatem diante de uma perda, golpe ou obstáculo. São estimuladas a mostrar força e quase ausência de sentimentos. Os imperativos “Bola pra frente!” ou “É preciso dar a volta por cima!” são interpretados como sinal de força e maturidade.

Numa sociedade em que a perda é negada e que a tristeza não pode ser tolerada, há uma demanda de que sejamos sempre felizes e bem sucedidos, o espaço para a fragilidade e para a própria subjetividade é cada vez menor. O ritmo acelerado nos faz também atropelar as emoções. Vivenciar o luto é extremamente importante. Ele traz consigo uma necessidade temporária de recolhimento, de parada. Um tempo de recuperação psíquica, que não está previsto ou pré-estabelecido, mas que pode promover recomeços mesmo que seja “dando a volta por baixo”.

 

Por Luciandra Pinheiro Cabral-Psicanalista com especialização em psicoterapia infantil pelo Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) em Recife.

3 Comentários

  • Ana Karina Lócio disse:

    Excelente matéria.

  • Ilda Marinho disse:

    Texto delicioso de ler, muito rico!!
    E me veio a mente a questão de quando experimentamos um momento de perda, seja pela morte ou apenas ausência de alguém, seja pela quebra de algo etc, pode surgir em nossa mente a ilusão de que estamos ficando mais fortes e preparados para um momento triste se assim for necessário passar por uma nova experiência, mas, como disse acima, é só uma ilusão, assim como cada sujeito irá elaborar de uma maneira diferente e em uma velocidade que é só dele, cada experiência exigirá do sujeito um novo e único recomeçar, seja dando a volta por cima ou por baixo, será sempre uma experiência nova… E não há nada de errado em passar pelas fases do luto, não precisamos nos manter fortes o tempo todo, as vezes vai doer e muito…
    O nosso amado e poeta e psicanalista Rubem Alves disse certa ver que temos um ar de despedida em tudo que se faz, e mas adiante ele completa dizendo, ter consciência desses instantes nos possibilita fruir da beleza única do momento que nunca mais será…
    Acredito que uma das coisas que mais nos ajuda a elaborar algo que se acabou é saber que vivemos da melhor maneiro possível, antes que tudo acabasse…
    Ilda Marinho

  • Adriana disse:

    Excelente texto. Lidar com as perdas não é fácil, também não existem receitas prontas, cada indivíduo reage de uma maneira. Fatores diversos irão nortear a elaboração de novos significados a vida. Já lidei com algumas perdas e a maior delas foi a perda de um filho, três coisas me ajudaram a não sucumbir e ressignificar a vida: trabalho, amigos e uma vida espiritual regada.

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