“Vai aí um textão????”- Por Sebastião Simão Filho

Sebastião Simão Filho

 

Imagino que Fatel esteja se divertindo com toda essa polêmica em torno de sua música. Eu também. Pelo menos assim me parece, pois ele ainda não meteu as caras no meio desse tiroteio todo, e faz bem. Infelizmente não vi ao vivo sua defesa no palco. Mas em vídeo. E a música é muito legal, divertida e em sua performance… não é que o caba se saiu bem!? Parabéns. A simbiose, o enroscamento, a misturação do artista com o público é sempre algo a se comemorar. Massa.

Então, como disse alguém sobre toda essa polêmica toda… talvez o autor nem quisesse tanto. Mas isso não vem ao caso. Pra isso também serve a arte: despertar no outro o que outro tem dentro de si. E essa de desafeto entre as duas belíssimas cidades… coisa briguenta, ciumenta – tem, viu, ora se tem! Coisa das antigas, meu véi. Noutro momento entro nesses pormenores. (Seria essa uma de nossas riquezas… culturais?).

Mas, como disse, a música O Quintal diverte. E por si só isso já é de bom tamanho, ora! Segundo Bertolt Brecht, pode se tirar todos os elementos da arte (ele falava em teatro, seu terreiro), mas se ficar o elemento “diversão”, tudo bem, ele ainda sobreviveria.

Eu, pessoalmente, gostaria muito de não alimentar essa fogueira. Mas, se tem lenha, vamos queimar. A canção mexeu com o ego de muita gente. Ainda bem que se acabou o tempo das faca-peixeiras, senão… Eu não sei bem o que é isso de ego-Juazeiro, ego-Petrolina. Talvez por não ser daqui? Mas, e que dizer do meu orgulho de ter iniciado minha vida artística no bairro Lomanto Júnior? As aventuras no CC João Gilberto? Ter sentido, em moleque e recente, as vertigens dos pulos na ponte?… Páginas fundamentais da minha vida que guardo com carinho. E Petrolina que, por intermédio do SESC me acalentou tanto? E tantas outras tantas!

Mas, sinceramente, essa de “juazeiranidade”… Mas, brecando com risos e gargalhadas, deve de ter mesmo disso, viu? Aliás, deve de ter de tudo um tantinho, meu véi. Eu gostaria mesmo era de refletir sobre a beleza que é essas duas cidades pérolas cravejadas nas beiras dessa outra belezura líquida que passa se esfregando e lubrificando as intimidades dessas fêmeas guerreiras. Mas, como a polêmica da vez é O Quintal, vamos a ele.

Alguém aqui falou de ranço academicista… Bom, eu, mesmo sendo autodidata e até mesmo semi analfabeto de pai e mãe, (breca aí os risos!), não pude me furtar a atinar essa canção como material de reflexão sociológica. Visualizei as imagens que o poeta-músico suscitou em sua canção ao perambular e “se perder” em Petrolina… De verdade me veio à cachola o Zé Matuto de Luiz Gonzaga vendo assustado na praia “tanta rabichola nas cadeiras da muié”. Na verdade essa de se assustar com as mudanças está demasiadamente presente na arte popular. Há algo de não sei o quê de nostalgia… Pegando, como exemplo, o próprio Luiz Gonzaga, diga-se de passagem, o que há de melhor, de absolutamente genial no forró nordestino, na canção brasileira… nele, e não só, claro, há infindos exemplos de nostalgia pelo ideal que se foi, de dor pelo torrão não ser mais tão torrão…

Essa nostalgia da canção de Fatel é recorrente em muito da literatura popular de exaltação de valores arraigados. A idealização do ideal. Do sofrido ideal, pois pelo sempre impossível ideal. Um ideal que se choca e sempre se chocará com o real das coisas. Entre nós o clássico dos clássicos da nostalgia, imbatível campeã, será sempre, até que se prove o contrário, O Portão, de Roberto Carlos em que ele voltou e “tudo estava como era antes”. Sua rival, mas não tão a altura, é Os Verdes Campos da Minha Terra em que Agnaldo Timóteo diz que “se algum dia voltar”, quer “encontrar as mesmas coisas que ‘deixou'”, numa ‘casa “feita de ilusão” (A Casa do Sol Nascente), etc, etc. Ou não seria exatamente isso, a mesma coisa quando, a uns 3 mil anos, o mor-cego Homero genialmente narrava o retorno heroico de Odisseu pros braços bravamente imaculados de sua fervorosa amada Penélope?

Existe outra forma de ver as coisas (fatos sociais)? Certamente. Rapidamente penso em Sampa, de Caetano, em que o poeta também se choca com o novo, mas o vê como desafio a desvendar. E o que dizer de Belchior quando diz que não vai voltar pois, mesmo que haja perigo na esquina, vê
“vindo no vento o cheiro da nova estação”?

Mas, como disse, a canção de Fatel é divertida e só por isso já se basta. Querer lhe emprestar ares filosóficos e reflexões outras, seria querer de mais. Nem de longe me incomoda nela esse pôr lenha na fogueira das querelas entre as duas cidades. Essas querelas são um fato. Vamos vivê-las e nos divertir. Realmente um mínimo de coisa me incomoda na canção. E na verdade nem é da canção, mas do geral. Um exemplo. Petrolina é cheia de monumentos belos, modernos e significativos. São muitos. O mais conhecido o chamam de monumento da besteira… uma besteira de bestas que assim besteiram. Afinal, não tem nada de besteira nesse monumento. Procurei aqui na internet e… “O Monumento possui 14 colunas representando os bairros que na época eram cortados pela Av. Integração. Curiosidade: olhando-se de cima, percebe-se o desenho de uma rosa”. Apendi com Maiakovski ver beleza nas coisas modernas. Uma gota de orvalho serpá sempre belo, que numa pétala de flor, quer num capu de um automóvel.

Um contraste. Outro dia recebi aqui em casa uma visita e o levei pra um passeio de caiaque no Velho Chico. Vimos de pertinho a mulher-sereia banhando-se ao sol sobre as pedras e, claro que fui lhe mostrar o Nego d`água, e todo orgulhoso, derramei sobre ele todo o meu “vastíssimo” conhecimento sobre as lendas locais sem esquecer de comentar das atrocidades que evangélicos bundões planejam contra esses monumentos-culturais. Depois subir na rocha da Ilha do Fogo é obrigatório, né?

Finalizo aqui esse textão, eu que não sou de beber cerveja nem me empanturrar em carisada, termino esse textão conclamando a todos os contendores: vamos pensar, senão pensarão por nós. Abraços.
Próxima pauta, manda aí.

 

Sebastião Simão Filho, autor, ator e diretor de teatro com trabalho voltado à pesquisa da Antropologia Teatral, tendo participado, na Europa, da XI ISTA – International School Of Theatre Antropology e Seminário de Antropologia Teatral, ambos coordenados por Eugênio Barba.

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