“A culpa é minha e dou a quem eu quiser!” Por que os outros são sempre os culpados? – Por Luciandra Pinheiro

 

O ser humano tende a buscar culpas e culpados fora de si mesmo. Uma prática comum se levarmos em consideração a tendência individual de autopreservação que atribui mérito a si próprio pelos acertos e aos outros a culpa pelo fracasso e insucesso, ou seja, tudo aquilo que conquistamos de positivo, atribuímos às nossas virtudes; já os nossos fracassos estão atrelados aos outros.

Raul Seixas, em uma das suas canções já dizia que “é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”. Podemos afirmar que ele tinha razão. Numa tentativa de proteger o ego, nossa mente tenta nos distanciar dos problemas e de sentimentos indesejados como a fraqueza ou incompetência. Para tanto, utilizamos como mecanismo de defesa a projeção, que explica essa tendência de transferir responsabilidades às outras pessoas com o intuito de nos proteger da dor e do julgamento alheio.

Por isso apontamos na direção do outro e agimos assim como uma prática comum, certamente a adotamos desde sempre e ninguém está livre desse comportamento que se manifesta principalmente nas experiências do cotidiano. Quem nunca foi vítima do clima, do chefe, do marido, do meio de transporte e até dos astros? Quem nunca experimentou a falta de sorte, falta de tempo, falta disso ou daquilo? Enfim, temos todo motivo para ceder o lugar principal para outros personagens. Somos sempre coadjuvantes, afinal, como afirmou o filósofo Sartre “o inferno são os outros!”.

Transferir a culpa para evitar possíveis julgamentos é transferir responsabilidades. No entanto, assumir os erros e encarar a realidade pode promover a aceitação das nossas limitações. Reconhecer em algum momento que somos incapazes de algo, que participamos ativamente dos nossos fracassos não é uma tarefa fácil, mas podemos enxergar como um exercício. Mais cedo ou mais tarde, acabamos confessando nossas culpas e nossos deslizes.

Nem sempre a culpa é do outro. E nem nossa. E às vezes de ninguém. São apenas situações que deram errado. Simples assim. Por um somatório de circunstâncias deixaram de acontecer como planejamos e cabe a nós enxergar dessa forma. Se os erros nos atestam como humanos, desumano é responsabilizar quem não tem nada a ver com nossos fracassos.

 

Por Luciandra Pinheiro Cabral-Psicanalista com especialização em psicoterapia infantil pelo Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) em Recife.

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