Sempre aos domingos: “Posso estar só, mas sou de todo mundo”, por Sibelle Fonseca

 

Outro dia escrevi sobre o orgulho que tenho das minhas linhas de expressão. Era um domingo ensolarado e eu estava prenhe de vida na varanda da casa de minha filha mais velha. Me sentindo mais povoada que avenida de Salvador numa terça de carnaval.

Alguns dias se passaram e o cinza marca o dia de hoje. Vida é assim. Um dia diferente após outro. E em todos alguma emoção. É só prestar atenção. Então, presto atenção que neste dia ameno de dezembro deixo que a solidão se sente em mim. Os dias menos quentes me deixam assim reflexiva. Dia chuvoso é bom que é danado pra se pensar.

Hoje, morando quase só numa casa enorme que faz uma zoada danada dentro de mim, abro as portas para a solidão e me sinto muito bem acompanhada pelos tantos momentos felizes que depositei na memória da minha existência.

É sério mesmo. Tenho gostado e me dado bem com ela, a solidão, esse estado de espírito que me faz lembrar de mim e de uma ruma de momentos cheios de gente e de festa. Vida cheia de barulho de crianças, de amores doidos e doídos, de ansiedades expectativas e agitação.

Dá uma saudade das boas.

Os meus filhos, pássaros que ensinei a voar, fazem seus próprios ninhos. Eu de cá sinto uma felicidade extrema em contemplá-los. Sinto uma saudade enorme também, mas não há vazio. Há completude. Há compensação.

É aí que entram os meninos e meninas que trago pra mim, os filhos fora útero. É aí que entram os amigos que eu vivo a conquistar, mesmo correndo riscos.

Os mais mais velhos e os novos amigos e os que estão por chegar. Eu me valho deles.

Os novos me remoçam, extraem de mim sentimentos maternais e me aguçam a saber das novidades. Adoro quando eles me solicitam e é com um amor bem puro que passo a calça de um, ouço atentamente a outra. Que ofereço abrigo, ouvido, colo e ombro a eles, a elas e assim vou ressignificando tudo.

Eles são meus cremes de rejuvenescimento e vitamina que deixa a alma atenta, elástica, viva.

Os mais velhos são seiva e me dão bálsamo. Eles que guardam partes da minha história. Sabem de mim e, ainda assim, continuam querendo saber. Com eles me despedaço e me desnudo. Me entrego, solicito e peço ajuda. Deles ouço conselhos e aceito atalhos.

Amigo é livre arbítrio. É gente da família escolhida a dedo. Amigo é liberdade de opção. É o que conta, no findar de tudo.

Quem tem amigos não se assusta com a solidão. Até permite-se viver os dias cinza, por querer.

“Posso estar só, mas sou de todo mundo
Por eu ser só um. Ah, nem! Ah, não! Ah, nem dá!
Solidão, foge que eu te encontro que eu já tenho asa.
Isso lá é bom
Doce solidão”. (Marcelo Camelo)

Perto do dia da família e em um dia que escolhi a solidão pra me acompanhar, saúdo os meus amigos. Aqueles, para quem passo a calça e para os que me fazem passar bem melhor por esta vida.

Saúdo a você que me lê e sabe que é meu amigo.

Saúdo a você que soube fazer amigos como os meus.

Os amigos salvam, vá por mim!

Sibelle Fonseca é radialista, juazeirense apaixonada, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

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