“Então é natal. E o que você tem?” O sentimento de melancolia que invade algumas pessoas nessa época do ano – por Luciandra Cabral

Eis que chega o final de mais um ano. E com ele o entendimento automático que chegou também a época de muitas alegrias, encontros e celebrações. Com amigos, família, colegas de trabalho. Enfim, o cenário de puro prazer. E por que algumas pessoas não conseguem entrar nesse clima? Por que são acometidas por tristeza e melancolia, já que a ordem é celebrar a vida, os sonhos, os planos?

Um fenômeno muito comum nessa época. Poderíamos chamar inclusive de “síndrome de final de ano”, se quiséssemos. Mas na verdade trata-se de um estado emocional que algumas pessoas se encontram. Sentem tristeza, se tornam introspectivas e reflexivas. Podemos entender esses sentimentos se levarmos em consideração que o ser humano, com sua capacidade singular de se reinventar, cria novos desafios para si, principalmente em períodos de fins de ciclos e esses sentimentos negativos caminham na direção oposta aos objetivos das festas de final de ano. Um período ao mesmo tempo esperado e temido.

Papai Noel desde sempre nos ensina que devemos nos comportar muito bem se quisermos ganhar presentes. Será que essa construção do universo infantil nos acompanha ao longo da vida? E se não nos comportamos bem qual a nossa punição? Não estaríamos substituindo a figura do papai Noel pela figura de nós mesmos, ainda que simbolicamente?

Talvez seja isso. Exigimos muito e somos exigidos também. Ora pela sociedade, ora pela família, pelos amigos. E nós como sujeitos desejantes que somos, desejamos alcançar sempre os lugares que nos propõem. Natural que façamos as nossas promessas, de pés juntos e tudo. Listas imensas enumeram as novas velhas condutas na tentativa de afirmar que tudo será diferente, quando na verdade nos basta um olhar mais simplista de nós mesmos, que nos faça enxergar que fizemos muito ao longo de um ano. Ajudamos alguém, fizemos pessoas se sentirem melhores com as nossas presenças, usamos uma palavra ou frase que serviu em algum momento, nos beneficiamos com um conselho, um abraço, um olhar. Mas tudo isso parece pouco diante de tantas exigências.

As vezes temos a sensação de que a alegria que invade o mundo não chegará até nós. Mas como foi dito anteriormente, o ser humano tem uma capacidade singular de se reinventar. Mudemos então o foco, a forma de fazer ou chegar. Usemos a criatividade. Para o impecável Donald Winnicott (psicanalista inglês) a criatividade representa um aspecto fundamental na vida de qualquer ser humano, estrutura o emocional, traz recursos para lidar com a vida e nos ensina a alcançar o que está adiante. Somos muito bons nisso. Tem algo mais criativo do que saltar as sete ondas, comer lentilha, tomar banho de sal grosso e vestir branco?

A sensação de estar encerrando e reiniciando ciclos faz parte de nós. Natural que assim seja, afinal, atravessar simbolicamente o “portal” para um “novo” ano nos dá novas chances de seguir em frente, de recomeçar. O ano termina, mas nasce outra vez… Cinco, quatro, três, dois, um….

Por Luciandra Pinheiro Cabral – Psicanalista com especialização em psicoterapia infantil pelo Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) em Recife.

3 Comentários

  • Ilda Marinho disse:

    Em minha cidade, quando eu era criança ( infelizmente hoje não é mais assim rs) acontecia um ritual de passagem de ano que era delicioso, quando chegava o horário de meia noite em ponto do dia 31, acontecia um apagão em toda a cidade de um minuto!!! Era mágico, fantástico… Um ano morria e logo ao voltar das luzes um ano novinho, uma ótima oportunidade de fazer tudo de novo, de recomeçar!!
    Depois as luzes não apagaram mais… E agora??? O que fazer?
    Vem então a maturidade que os anos acaba trazendo…
    Não tem problema se as luzes não apagam mais, na verdade as luzes se apagam todas as noites quando fecho os olhos para dormir e penso, sim… Amanhã tenho mais uma oportunidade para tentar ser melhor no que não conseguir hoje, no apagar das luzes de cada dia, é possível também pensar em tudo que deu certo , se reconhecer e se alegrar com o progresso, e de se dá a oportunidade de se cobrar menos… Festejar mais, ser mais grata…e assim, mais feliz a cada dia! Feliz dia novo!!!

  • Luciandra Pinheiro Cabral disse:

    Perfeito, Ilda!!!!

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