“Sempre Aos Domingos”, por Sibelle Fonseca: Andar e permanecer de mãos dadas

 

Coisa que gosto é de observar os casais. Ainda ontem me peguei observando-os em um barzinho onde estava. Nunca tinha pensado nisso. Por que eles entram e saem de mãos dadas? Qual a origem desse convencional entrelaçamento? Natural não é, senão andariam também assim em casa e isso eu nunca vi. A senhora sociedade deve ter uma mão pesada nisso.

Deixa lá. O que quero é pensar no simbolismo das mãos dadas. Sinceramente, as mãos dadas dos casais me comovem. Acho forte a mensagem de “estamos juntos” que passa. A coisa de caminhar lado a lado, da escolha feita, de que “é você que quero” e da aliança de compromisso que elas passam, as mãos dadas.

Mas ontem vi com tristeza, no bar onde eu estava, que as mãos dadas que entram logo se distanciam. É só chegar na mesa e cada um sentar no seu canto. As mãos solitárias se dedicam a malinar os celulares e os juntos, se separam. Mergulham, sem cerimonias, em mundos distintos. Não conversam e nem se acariciam. Quando levantam os olhos, momentaneamente, é para dizer nada e baixá-los rapidamente. Bebem indiferentes com uma necessária presença física. Uma pausa no silêncio para uma selfie do casal se divertindo e logo a “felicidade” estará postada na rede. A partir daí, é esperar as curtidas, os comentários e interagir com lá fora.

Não entendo e não confio em casais que não conversam. Eles me passam a ideia de que estão ali por pura obrigação. Um ritual , uma convenção, sei lá. Me inquieta e dá vontade de adverti-los que aquele namoro não dará certo, que aquele casamento já acabou faz tempo.

Eu adoro meter meu pensamento bedelho na vida dos outros. Faço laboratório observando a vida alheia.

E como, claro, vejo tudo a partir de mim que sou intensa demais, traço os parâmetros para as relações que desejo. Eu não estaria feliz naquelas mesas que vi, de jeito nenhum.

Fico pensando em como teria sido o encontro daqueles casais. Como se conheceram e chegaram até ali? Que fantasma se instalou entre os dois ? A intimidade que quebra o mito ? a rotina? as mágoas guardadas? os ressentimentos contidos?

Vá saber …

O que sei é que está cada dia mais complicado entender os relacionamentos. Eles estão gasosos ao extremo. Superficiais ao extremo. O tempo do “ficar”, da química sem alma, da nenhuma conversa, das buscas em sites de relacionamento me assusta um bocado. E me desanima ainda mais. Dá uma sensação de peixe fora d’ agua, de inadequação.

Como não me rendo fácil, teimo em ainda acreditar na mágica dos encontros que o destino traça. No inusitado e surpreendente que têm neles. No que não foi por acaso e nem por escolha. Na trama que faz duas pessoas saírem de casa, sem pretensão alguma, e ficarem detidas em um olhar. No esbarrão que a vida promove, sem dar chance de não ser. No que não foi busca, mas reencontro. Um tinha que acontecer.

Teimo em desejar profundo, me atirar sem reservas, desnudar-me e querer que o pra sempre nunca acabe.

Aprecio a inteireza e a integralidade. Garimpo gente de verdade, que escancara o que sente. Exemplares raros hoje em dia. Valorizo os gestos, a escuta, a conversa, cada palavra e movimento de aproximação. Sou dada as declarações, acordos e juras. Coisas também raras hoje em dia.

Talvez seja ilusão ou bobagem tudo isso que desejo. Mas é assim que sou e isso em mim é incurável, é reincidente.

Me fecho para o que não é legítimo, genuíno, verdadeiro, autêntico. Superficialidades não me interessam. Se tô ali, naquele exato, e dando o meu mel, o meu melhor momento, não tem porque aceitar menos. O menos também não me interessa.

Talvez seja ilusão ou bobagem tudo isso que desejo. Talvez não.

O destino é astuto e nos pega bem na virada da esquina. Num boteco que você nunca vai. Na fila da farmácia ou da loteria. Reserva cadeira em ônibus e marca encontros nos lugares mais inusitados.

O destino vive mesmo nos surpreendendo. E tem surpresas boas nas suas armações. Ele também sabe nos dar coisas e exemplares raros. Pessoas em forma de presente ou recompensa. Daquelas que a gente deseja entrar de mãos dadas, andar de mãos dadas, permanecer de mãos dadas. Até quando for de verdade.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *

*