Autoestima e a relação com o ambiente por Luciandra Pinheiro

Há algumas evidências que sugerem que ansiedade, depressão e outros problemas mentais comuns, podem também estar relacionados às questões de autoestima. Mas o que é essa tal autoestima? Segundo o festejado Aurélio Buarque de Holanda, autoestima tem a seguinte definição: “Apreço ou valorização que uma pessoa confere a si própria, permitindo-lhe ter confiança nos próprios atos e pensamentos.”

Parece simples a fórmula. Mas será que autoestima ou amor próprio é algo que se aprende? De onde surge? Surge da auto imagem positiva que temos de nós mesmos, algo que construímos e repassamos exatamente como aprendemos, implicando o ambiente e seu contexto, bem como o universo ao nosso redor. Assim explicam Jacques Lacan e Donald Winnicott. O primeiro afirma que o Eu é constituído a partir do olhar do outro e o segundo traz contribuições voltadas para a forma como o sujeito (enquanto bebê) é manejado, acolhido, carregado e observado no seu cotidiano.

Automaticamente, chegaremos à conclusão de que essas relações são passíveis de falhas. Todo ambiente falha e algumas pessoas não experimentam o deleite de um “bom começo”. Nesses casos, a base do amor próprio não está presente. No seu lugar mora o vazio e a dor. Às vezes, como uma dinâmica da personalidade que se culpa, o sujeito não acredita em si, na sua capacidade própria.

Então, imaginemos esse ambiente com a chegada de um bebê. É um ser naturalmente especial, dotado de virtudes singulares e personalidade própria. O olhar dos pais (ou cuidadores) sempre devotado, vigilante a qualquer sinal. Ainda não fala, não anda, mas ocupa o lugar de majestade. Sua majestade, o bebê! É uma relação de encantamento e certamente estão fornecendo a ele tudo que demanda, sem forçá-lo a nada, respeitando o seu SER.

O bebê é tão poderoso que pode então acreditar na ilusão que cria o mundo ao seu redor e essa ilusão, Winnicott vai falar que é necessária. É a base da possibilidade de acreditar em si mesmo. Acreditar que pode ser capaz. Um otimismo extremo que o faz perceber o mundo como aquele que oferece coisas boas, mas essa ilusão vai ser útil para o caminho da desilusão. Desilusão? Onde ela cabe na construção da autoestima?

Precisamos entender que os ambientes falham e vamos, inevitavelmente, padecer de defeitos, limitações e incapacidades. Mas é assim que somos. Tudo bem! nós não fomos o bebê majestade das nossas famílias; não atenderam e nem entenderam as nossas necessidades; não fomos amados suficientemente, não construímos relações saudáveis. Por isso vamos nos julgar incapazes de praticar o amor próprio? Claro que não!

Autoestima se aprende, se constrói. Se os outros fazem parte do nosso contexto, que sejam apenas como coadjuvantes, o papel principal é o nosso. Temos a capacidade de mudança, um exemplo é que nos modificamos para alcançarmos a estima dos outros e por que não fazemos para alcançar a nossa própria?  Devemos aceitar quem somos, amar aquilo que somos e cultivar de alguma forma esse amor. Se aproximar ao máximo do que somos verdadeiramente. Os outros? Ah sim… Que nos acompanhem!

Por Luciandra Pinheiro Cabral – Psicanalista com especialização em psicoterapia infantil pelo Centro de Pesquisa em Psicanálise e Linguagem (CPPL) em Recife.

1 comentário

  • Maria Alencar disse:

    Meu orgulho, ver que mulher e profissional se tornou essa minha amiga de adolescência.
    Textos maravilhosos. Fico feliz de poder acompanhar seu crescimento daqui da esquina rs -Londres . Amor sempre

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