Mais um prédio histórico é demolido em Juazeiro

(foto: reprodução/Whatsapp)

A demolição de mais um imóvel histórico, que está localizado na Avenida Dr. Juvêncio Alves, centro de Juazeiro, está causando revolta à muitos cidadãos e instituições de representação social da cidade.

A casa já foi residência de uma família tradicional de Juazeiro, funcionou como quartel da Polícia Militar, além de ter funcionado como estabelecimento comercial e como Hotel.

O Conselho Municipal de Cultura (CMC) de Juazeiro emitiu uma nota de repúdio contra a demolição da obra. Foram enviados ofícios à Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esporte (Secult) de Juazeiro e posteriormente ao Ministério Público, pedindo a paralisação das atividades, o que não havia acontecido.

Porém ontem (06), a Secretaria de Meio Ambiente e Ordenamento Urbano (Semaurb) determinou que a obra fosse embargada. Mas a informação obtida pelo portal Preto no Branco é que a casa continua a ser demolida. Leia a nota na íntegra.

NOTA – CMC

O Conselho Municipal de Cultura (CMC), vem, por meio desta, publicizar as ações (reações) no tocante a Demolição do imóvel histórico, localizado na Avenida Dr. Juvêncio Alves, nº 100. Já na eleição da nova gestão do biênio 2018/19, que ocorrera em dezembro de 2017, houve um comunicado do que estava se passando no imóvel, inclusive fora feito pedido de tal comunicação, constar em ata.

Num segundo momento, com os conselheiros devidamente empossados, tivemos a primeira reunião onde definiu-se duas comissões permanentes, uma delas foi a comissão de Patrimônio e Memória. Desde então, a comissão tem se debruçado sobre os dispositivos legais existentes no município e nas demais esferas. Como produto desse estudo, tivemos, o encaminhamento do primeiro ofício para Secretaria Municipal de Cultura – SECULTE, cuja tônica fora, além de informar requerer da mesma, informações sobre o imóvel. Isso se dera no dia 2 de fevereiro.

Passados poucos dias, vimos que, as intervenções no imóvel se desenrolaram mais rápidas do que as informações da secretaria, assim, tomamos a decisão de encaminhar outro ofício endereçado ao Ministério Público, cujo objetivo seria a paralisação da obra, até que sejam tomadas medidas de adequação e cumprimento da lei.

Ao final do dia tivemos notícias de que a Secretaria de Meio Ambiente e Ordenamento Urbano – SEMAURB, havia embargado a obra, o que pode indicar que a SECULTE e SEMAURB dialogaram em algum momento.

Para finalizar. Gostaria de elogiar em nome do CMC, os companheiros desse grupo que denunciaram com registros imagéticos e questionamentos sobre o imóvel. É preciso agora um ato público que faça do imóvel em questão um marco afetivo de alerta sobre essa temática (patrimônio histórico-artístico), que tem tentáculos latentes desde, a concepção de organização urbana, novas possibilidades econômicas e a formação afetiva da identidade do juazeirense.

Conselho Municipal de Cultura de Juazeiro

(foto: reprodução/Whatsapp)

Jomar Benvindo, membro do Conselho Municipal de Juazeiro e da Câmara Temática de Turismo do Vale do São Francisco, também se manifestou contra a demolição da Obra. O turismólogo considera um desprezo à história da cidade, e ressalta a importância da cultura em instigar a sociedade na valorização histórica e identitária.

“Importante o reconhecimento de todos sobre o papel desta instância, mas acima de tudo devemos refletir sobre a necessidade de mudança, de atitude de todos nós, filhos de origem e adotados por esta cidade linda, porém maltratada por todos (povo e poderes). Desprezamos nosso símbolo de origem, que há 139 anos de emancipação encontra-se abandonada por todos, pedindo socorro, permitido a destruição de patrimônio edificado que poucas cidades detinham em nome da modernidade, descaracterização de imóveis históricos na atualidade e agora este crime .

A reflexão é de que devemos ter a devida maturidade em não mais buscar culpados de fatos do passado e sim utilizar como exemplo de erros cometidos e evitar a destruição da memória de um município que precisa do entendimento por parte de seus munícipes, que a sua gente deve assumir a responsabilidade através das instâncias da sociedade civil e contar das autoridades com organização e coerência de que não existe salvadores da pátria.

Temos que fazer com representatividade, comprometimento até sacrifícios mesmo. Por isto a participação de todos do processo de fortalecimento do conselho e também da sociedade ciente e informado dos processos de cidadania. Acredito que vivemos um novo momento de maturidade coletiva de reconhecer instrumentos democráticos e de cidadania. Todos somos moradores e vivemos nesta cidade tão sofrida quanto a fragilidade histórica, cultural e por sequencia identitaria por conta de desleixos de autoridades ou poderes.

A cultura sem dúvida deve ser o termômetro que estimulará o resto da sociedade a buscar esta mudança de atitude quanto a valorização da nossa história, cultura e identidade, agora a partir da sociedade civil organizada. Portanto vamos fortalecer o conselho com participação de todos e do seguimento indistintamente, independente de ser conselheiro. Participem”.

Jomar Benvindo

Da Redação

2 Comentários

  1. Esse é um episódio para o qual a sociedade não pode fazer vista grossa.Ao longo dos anos vimos ir para o chão o patrimônio histórico da nossa cidade e consequentemente nossa identidade.Agora a ação demolidora está se repetindo.Então juazeirenses, será que não está faltando a recente festejada juazeiranidade?

  2. A preservação do Patrimônio Histórico (Material e Imaterial) Artístico, e natural na cidade de Juazeiro/BA, tem ocorrido em âmbito jurídico e teórico, isso no mínimo há duas décadas, que é quando fora promulgada a primeira lei que versa especificamente sobre o tema. Lei Nº 1.371/94. -Ora, não se promulga uma lei que visa uma temática dessas, sem que preexista na população, o saber de que a sua cidade tem um Patrimônio Histórico capaz de apontar um fio condutor de sua identidade. Mas no caso específico da cidade de Juazeiro, o que aconteceu foi, uma possibilidade jurídica de preservar, com uma produção teórica local que pendia aos ideais nacionais do que deveria ser preservado. Ou seja, a prédica não encontro afeto na grande população. E realmente se considerarmos a grande maioria dos bens a serem preservados na nossa cidade, surgirão explicitamente as ideologias do poder financeiro e uma arquitetura que a priori não representa a maior parcela da população; mas o que implicitamente estão contidos nas paredes desses bens são:

    As pessoas, aqueles que venderam a sua força de trabalho e foram invisibilizadas, aquelas cujas técnicas construtivas foram suplantadas (taipa de mão, por exemplo), aquelas que se relacionaram nos casarios, ou tem nestes gatilhos de memórias.
    Uma arquitetura que embora tenha sua gênese fora do município, teve que se adaptar as ofertas de material e soluções estilísticas. Tornando-se assim, uma arquitetura também ribeirinha.

    Corroborando com as leituras latentes dos bens que compõem o patrimônio histórico arquitetônico da cidade e as mudanças na legislação, está o professor pesquisador Sérgio Motta, que tem defendido pesquisas que visam um outro olhar sobre o patrimônio, inclusive um dos seus trabalhos, o inventário arquitetônico de 1999, teve como desdobramento a promulgação de uma outra lei municipal Nº 1.667/2002. E por último, ainda sobre leis municipais, tivemos além das duas citadas, outra que integra ao patrimônio histórico da cidade, as estações ferroviárias de Juremal, Carnaíba, Massaroca e estação velha de Piranga. É o que diz o caput da lei 1.372/94.
    Destarte, é fundamental que além de apologias, nos apropriemos das produções jurídicas e históricas, dando a cada uma seu devido mérito. Caso contrário, seremos para sempre reativos, tendo em vista que, temos uma legislação que obriga a preservação (bens históricos, artísticos, material e imaterial, e natural), e leituras de mundo (de grupos sociais e acadêmicas) atuais que convergem para uma melhor compreensão do que deve ser preservado, e mesmo assim, só conseguimos expôr a questão do patrimônio histórico, por meio de reações ao descumprimento da lei.

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