“Sempre Aos Domingos”, por Sibelle Fonseca: Lembrando as matinês dos meus carnavais

Como o domingo é de carnaval, libero o pensamento para visitar o passado. Visitar, eu disse. E não voltar a ele e nem desejar que ele volte. O tempo de hoje é outro e é neste que vivo. É este que tenho. Desejar o passado é coisa de saudosista bobo e acaba travando a roda da vida. Acaba amargurando a gente. Viver nele, deve ser um tormento.

Me incomoda ouvir gente que diz “No meu tempo era diferente”, “No meu tempo tudo era bem melhor”. Que tempo, criatura? O único tempo que temos é o instante de agora. O que passou já não nos pertence e o que virá é incerto.

Só me permito visitar o passado se for para lembrar de coisa boa, como os carnavais que vi e vivi, por exemplo. De resto, deixo tudo lá mesmo, sob os escombros do passado. Sem remorsos e nem arrependimentos.

Hoje, liberei minhas memórias pra buscar os carnavais da minha infância. Aí vejo os “caretas” passando pelas portas das casas das ruas de Juazeiro. Eram bem mais mulheres, eu lembro. Aliás, não lembro de nenhum careta homem. Elas mudavam a voz e, irreconhecíveis, diziam e faziam o que queriam no carnaval. Soube depois que grande parte do grupo era de mulheres casadas que precisavam do anonimato para sair do salto da moral e dos bons costumes e viver suas fantasias tão pueris. Elas levavam alegria e a minha curiosidade instigavam, quando passavam pelas ruas.

Não lembro muito bem de mim menina brincando o carnaval. Mas me vejo segurando uma seringa de plástico mole, cheia de água, que a gente esguichava nos outros chamando pra brincar. Sei que era uma coisa divertida que eu ainda tenho vontade de fazer (acho que vou comprar uma daquelas).

Da minha brevíssima adolescência, lembro das matinês do Country Clube. Nós meninas, enfileiradas, tipo fazendo o “trenzinho”, dávamos voltas e voltas no salão nos mostrando para os meninos, que ficavam também enfileirados no contorno do salão esperando, quase que de prontidão, por aquela que lhe desse algum sinal de querer. Era um rabo de olho, um sorriso sem graça, um andar de consentimento e eles logo vinham acasalar. O par ganhava independência do grupo e dava suas voltas no salão, lado a lado. Tinham vezes que rolavam umas “bitocas” e umas saidinhas do calor para, lá fora, dar umas “coladas” mais quentes. Aquilo podia dar em nada e a menina ficar arrependida do beijo que deu, ou podia também selar um namoro sério, que viraria noivado e casamento. Vi muitos amigos casarem com seus pares de hoje naquelas matinês. O som era da banda Bispão, boa retada. Tinha uma cantora negra que me fazia perder mil voltas no salão só para lhe admirar ao pé do palco, cantando lindamente. Lembro até que ela cantava como ninguém mais: “Aquela mulher vale ouro, leva o samba no pé, leva o samba no couro”. Consigo ouvir até que “esse ano não vai ser igual aquele que passou”, “olhos negros cruéis tentadores” e “Bandeira Branca”, já anunciando que era fim de festa.

Eram 4 dias de folia e como era bom sair de casa, a uma da tarde, vestida para as matinês do Country. Encontrar a turma, rodar o salão até achar o par para sempre ou para se arrepender porque beijou um menino que não deu em nada. Eu amava tudo aquilo. Amava também o pastel que Azambuja trazia pra mesa de meus pais, seus amigos e esposas. Eles tomavam Whisky Passport comprado no Pinguim de Etelvir e muitas Antárticas de Zé Gomes. Elas também bebiam alguma coisa.

No quarto dia, terça de carnaval, eu já acordava com o coração cheio de saudade e combinava com minha irmã, parceira de fantasias, que naquele último dia íamos botar pra quebrar. As voltas no salão tinham que dar em alguma coisa. Afinal, era o último dia de carnaval e no carnaval, parecia que meu pai relaxava mais na rigorosa vigília para também poder extravasar.

Neste dia, nem o pastel de Azambuja fazia a gente pisar na mesa de meus pais, seus amigos e esposas, coisa que era uma ordem assim que chegávamos na festa: “Toda hora venham aqui na mesa”, dizia o pai de 5 meninas mulheres. A gente desobedecia mesmo. Não tinha mais matinê mesmo no outro dia… que viesse o castigo! O que não podia era perder tempo. Era o que pensávamos.

Voltas e mais voltas desfilando expectativa pelo salão em busca de um par, anoitecia e Bispão começa a tocar Bandeira Branca. Aí o coração apertava mesmo. Agora só no ano que vem. Quem se arrumou, se arrumou. Quem não… Dava uma tristeza danada!

Lembro que dei voltas que não deram em nada. E também lembro que já saí de lá de namoro firme e até achando que seria eterno. Que sacanagem fizeram com as mulheres! Nos fizeram passar a vida vivendo na expectativa. De um par, uma alma gêmea, uma aliança, um príncipe encantado, um homem perfeito, um casamento sólido, filhos lindos, uma casa de mulher prendada, um livro de receitas para prender marido, fraldas e cuecas para lavar…

As matinês do Country acabaram faz tempo e eu continuo vendo mulheres pelo salão vivendo as mesmas expectativas de outrora. Dando voltas e voltas para achar seu par para somente assim serem felizes.

Mas como os tempos são outros e bem diferentes, graças a Deus, vejo vanguardistas se divertindo sem compromisso e sem esperar. Elas vão. Elas não ficam de bandeja e beijam quantos quiserem. No outro dia não estão nem aí. Vivem o momento. Não se iludem com final feliz. São mais livres e felizes mulheres assim.

Elas não têm ressaca, como tinham as meninas que acordavam tristes na quarta-feira de cinzas, depois de 4 matinês de carnaval, sem ter encontrado o par para sempre no carnaval.

Elas também não anseiam viver para sempre com aquele com quem engatou namoro firme no carnaval. Elas apenas vivem o momento. Se rolar, rolou. Senão, parte pra outra. Simples assim. Elas têm outras prioridades e sonhos.

São mais livres e felizes mulheres assim.

E eu, depois de muitas matinês no Country, de ir raras vezes nos bailes noturnos da 28, ver Chiclete na Rua da Apollo e os desfiles das escolas de samba de Juazeiro; Depois de passar noites de carnaval embalando filhos e vendo TV; Depois de viver aventuras e confusões no carnaval de Salvador e ter até preferido passar a festa de momo numa praia, em casa, completamente fora de circuito, vou vivendo no meu tempo, fazendo um esforço enorme para  desconstruir a menina que buscava um par para sempre no salão e ser a mulher que vive o momento, sem expectativas. Tem sido um delicioso conflito esse aprendizado.

Uma coisa que vou aprendendo nas voltas dos salões da vida, é que a expectativa pela felicidade é eterna. Como não? Só que, as experiências vividas me ensinaram a exterminar a ilusão da perfeição, a convenção ou a super valorização do outro. Se encontrar um par, vamos lá brincar de viver até quando for eterno! Mas se este encontro não valer a pena, eu vou brincar também e comigo mesma.

Eu, que já tenho muitos carnavais e também muitas quartas-feiras cinzas, estou aprendendo a viver o momento e cada instante com toda intensidade e dando o melhor de mim, assim como fazem as mulheres livres e felizes.

Sem máscaras, nem fantasias, porque não é do meu feitio.

Mas espalhando confetes e serpentinas, porque viver é um luxo! É um carnaval. Mas só para aqueles brincantes que aprenderam a lidar com o real e a fantasia. A viver ilusões e continuar esperando as matinês começarem no dia seguinte.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

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