Sempre aos domingos, por Sibelle Fonseca: “Parabéns? Feliz dia da mulher?”

No Dia da Mulher, entrando em uma escola pública para participar de uma roda de conversa, fui abordada por um garoto estudante que me disse “Parabéns! Feliz dia da mulher”. Agradeci a gentileza que me inspirou a iniciar minha fala na mesa, com essa reflexão: Parabéns? Feliz dia da mulher?

Mas por que parabéns? Por ser vítima de uma cultura que julga e subjuga a mulher? Que a limita, tolhe e lhe dar preço, sem lhe dar valor? Parabéns por ser espancada e morta dentro de casa por quem diz que lhe ama? Por não poder vestir, ser, falar, sentir e gozar como quiser sem ser apontada? Parabéns por ter que disputar um lugar espremido nos espaços e se obrigar a ser muito mais excelente do que eles e ainda assim ser a obrigada a lavar, passar, arrumar, educar e fazer a comida?

Você, homem que desejou feliz dia da mulher, continua olhando torto para uma mesa de mulheres no bar, sem pensar que elas são fáceis e disponíveis? Continua dizendo que “mulher no volante é perigo constante” e outras piadinhas de mal gosto? Diz que aquela menina que estava de shortinho na madrugada merecia ser estuprada? Continua metendo o olho no decote da colega de trabalho deixando-a constrangida? Continua assediando a funcionária e dando cantadas ridículas e invasivas? Você, homem que desejou feliz dia pra mamãe, continua tendo as cuecas lavadas e a comida feita por ela? Você, homem que acordou sua esposa com um feliz dia, continua levantando a voz pra intimidar e dizendo o que ela tem que fazer?

E você, minha amiga mulher, pensa que vai ser feliz como, se nem sabe de que lado está? Vive reforçando preconceitos e julgamentos perversos às mulheres e acha que é da luta? Se apressa em taxar a gostosona da balada de “periguete” ou “puta” quando ela chama atenção do seu macho ? Como você vai ser feliz se desqualifica a mulher, assim do nada, porque ela te contraria de alguma forma? Me diga como você vai ser feliz se vive incomodada com o sucesso da outra e com as escolhas que você não teve coragem de fazer e ela fez? Como vai ser feliz se levanta da mesa e sequer tira seu prato, na certeza de que uma mulher fará este serviço por você? E a lavagem das suas calcinhas, quem faz? Você continua submetendo uma mulher, geralmente preta, a esfregar suas intimidades? Como quer ser feliz assim maledicente, frustrada, contraditória, sem aliar-se as suas iguais? Como vai ser feliz necessitando impressionar e servir, a todo custo, àquele “príncipe encantado” que jamais existiu? Como vai ser feliz rotulando de “vagabunda” e “indecente” a colega de trabalho ou a vizinha de vidas livres, a prima mais ousada ou aquela que você diz que “tomou o que é seu”? Você não será feliz nunca, minha querida, se continuar supervalorizando o macho e reproduzindo os ditames do machismo.

Pense nisso, por favor! Porque precisamos mesmo é de união, dessa tal sororidade para mudar esse estado de coisas e sermos dignas de parabéns todos os dias.

Não tem outra saída não, as meninas, ou a gente se junta, se encoraja, se apoia, se fortalece e atreve ou nada nunca vai mudar.

E os oito de março serão sempre uma grande hipocrisia. Um dia de parabéns falsos e desejos de felicidade falsos também.

E por falar em 8 de março, alguém revisitou a história para saber a origem do dia? Sabem vocês das centenas de mulheres que foram queimadas numa fábrica têxtil lá em 1859 por reivindicarem alguns poucos e óbvios direitos trabalhistas?

Pois é, meus caros, minhas caras, a fumaça de lá ainda nos sufoca agora e a tod@s!

O dia é de luta, de reflexão, de consciência, de enfrentamento e resistência.

Tem essa de parabéns não!

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

 

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