Cidadão juazeirense é processado pela Agrovale por reclamar de incômodo com a queima da cana pela empresa

O ambientalista Ênio Costa, que integra o “Movimento pelo fim da Queima da Cana de Açúcar”, participou nesta segunda-feira (18) do programa Palavra de Mulher na Web e falou sobre o manifesto lançado ontem (17) em protesto ao processo de queima da cana pela empresa Agrovale, em Juazeiro.

Ênio questionou e provocou os órgãos ambientais da região, para a necessidade de fiscalizações à empresa, que há anos é alvo de inúmeras reclamações das comunidades de Juazeiro e Petrolina, atingidas pelos impactos da queima.

“Desde o final do ano passado que estamos denunciando o sofrimento da população das duas cidades,  principalmente dos moradores dos residenciais do bairro Itaberaba, atingidos pela queima da cana. Juazeiro não pode mais tolerar. Durante o período de queima, a gente é massacrado e nada é feito. O “Movimento pelo fim da Queima da Cana de Açúcar”  surge desta inquietação.  Ninguém reclama, nada é feito. A empresa fica na sua zona de conforto. O movimento reúne algumas pessoas ligadas a causa ambiental e populares sensíveis e incomodados com esta situação. Muitos problemas a longo prazo podem surgir em decorrência desta situação.

Ele também afirmou que reconhece a importância da empresa para a região, mas criticou a falta de diálogo com a comunidade.

São mais de 500 mil pessoas que moram em Juazeiro e Petrolina e sofrem por conta disso. Não queremos o fim da Agrovale e sabemos da sua importância. A Agrovale precisa dialogar com a comunidade e não ficar fazendo marketing na mídia, que só é procurada no período da safra, para divulgar o trabalho sócio ambiental que a empresa diz realizar”, criticou.

Ênio Costa também sugeriu um estudo técnico sobre os impactos da queima para o meio ambiente e saúde das pessoas.

” Há a necessidade de um estudo sobre os impactos. Temos a Univasf, a Uneb, a Upe, universidades públicas, com cursos ligados a área ambiental, que deveriam fazer um estudo sobre os impactos desta queima, mas existe uma omissão muito grande, conivência até. Não somente o MP, mas o Inema e o órgão ambiental do município, deveriam fazer o monitoramento desta queima, como manda a legislação”, declarou.

Durante a entrevista, Ênio Costa revelou que está respondendo a um processo judicial movido pela Agrovale, que o acusa de prejudicar sua imagem através de uma postagem que o ambientalista fez na sua página de facebook.

” Ano passado a gente fez alguns encaminhamentos de diálogo com a Agrovale e, já no final da queima, eu, muito angustiado, fiz uma postagem dizendo que a Agrovale produzia açúcar, mas meu pulmão estava preto de fuligem. O jurídico da empresa, ridicularmente, abriu uma ação por danos morais, alegando que eu estava ‘denegrindo’ a imagem da empresa.  Foi uma forma de me intimidar, de me calar. Uma forma de perseguição. Eu estou respondendo a esta ação, mas também vou acionar a Agrovale na justiça. E não vou me calar, porque estou no meu direito de cidadão,” concluiu.

Confira manifesto do “Movimento pelo fim da Queima da Cana de Açúcar”   

A empresa Agro Indústrias do Vale do São Francisco S.A. – AGROVALE, empresa do ramo sucroalcooleiro, que ao longo de quatro décadas vem sistematicamente desenvolvendo a queima palha da cana-de-açúcar como forma de colheita da cana, ocasionando assim graves consequências a saúde de toda população de Juazeiro e da
região do Vale, lesão ao potencial hídrico, o extermínio brutal de inúmeros espécimes de animais e vegetais.

O Estado de São Paulo é o maior produtor, sendo responsável por mais de 60% de toda produção nacional de açúcar e etanol e, também, por mais de 70% das exportações.

A região de Ribeirão Preto é responsável por 45% do total produzido no estado e vários outros municípios têm grandes áreas de plantio com diversas usinas instaladas, gerando milhares de empregos diretos e indiretos. São mais de 17 usinas da cana-de-açúcar.

Mesmo com todo seu potencial econômico foi criada no ano 2002 a Lei no. 11.241, que controla a queima da cana-de-açúcar para despalha e instalou um cronograma para que a totalidade dos canaviais deixe de ser queimados até o ano vigente.

Um dos pontos mais críticos sobre a queima da palha da cana-de-açúcar são as emissões de gases do efeito estufa na atmosfera, principalmente o gás carbônico (CO2), como também o monóxido de carbono (CO), óxido nitroso (N2O), metano (CH4) e a formação do ozônio (O3), além da poluição do ar atmosférico pela fumaça e fuligem
Não somos contra a cultura da cana em nossa região, o que não podemos tolerar, no atual estágio da civilização, é que isso se dê mediante práticas dantescas.

E pelo que estamos vivenciamos nos últimos anos, é inadmissível que a sociedade do Vale do São Francisco fique somente com o ônus desse processo produtivo.

Reafirmamos nosso compromisso com o desenvolvimento do vale, com as centenas de trabalhadores e trabalhadoras rurais da AGROVALE, acima de tudo reafirmamos nosso compromisso com respeito ao meio ambiente e com a dignidade da pessoa humana.

Da Redação

1 comentário

  • Stefan Mantu disse:

    Parabéns meu amigo e companheiro Ênio Costa pela iniciativa de organizar a luta pela preservação do que existe de mais importante no planeta: o meio-ambiente, fundamental para a sobrevivência do ser humano !
    Mesmo à distância me coloco à sua disposição para essa batalha !

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