“Sempre Aos Domingos”, por Sibelle Fonseca: Uma superpopulação que me sustenta e conduz nos becos da vida

 

 

Coisa rara eu andar pelas ruas do bairro onde fui criada. No máximo vou até a padaria da esquina. E toda vez que vou, volto contente. É tirar o pé de casa e sempre tem um rosto familiar. Tem uma cara conhecida que me remete a mim mesma. Quando pego o beco, quase saltitante, é a menina que caminha. A terceira menina de “Seu Manoelito do Leite”, da rua do Paraíso, que desde os dois anos vive neste pedaço. No percusso escuto meu nome dito com carinho por uma gente que sempre foi minha. Passo pela casa de seu Baninho, topo com Bolinha, atravesso a praça e Derlin tá lá, no balcão tem galego, que outro dia era um menino e hoje é empresário. Mais adiante, vejo “Seu Nô” na porta da bodega onde meu pai tomava uma antes do almoço, esbarro com Pró Tânia da minha quarta série e me vejo colegial no olho dela. Cruzo com Simone, que ainda mora no beco, tem a minha idade, mas nunca envelhece para mim. Na menina preta e engraçada, me vejo menina também. Ir na padaria é ir um pouco em mim. É ver minha origem. Origem é berço. Berço é feito de pessoas. Me vejo nos rostos donde fui criada. São tão familiares! Alguns despertam antipatias que são minhas. Mas no geral, é muito afeto que sinto! Me vejo nos amigos da infância, nos amigos dos meus pais, nos filhos dos meus amigos.

E como isso é bom!

No dia do Amigo, fui comprar pão e no percurso, de ida e volta, me pus a pensar na importância das pessoas na nossa vida. São elas que nos constroem. Fiquei pensando no tanto de gente que tem dentro de mim. Sou povoada, graças a Deus. Tem uma superpopulação que sustenta a construção que sou. Não tem uma pessoa que tenha apenas passado pela minha vida. Todas elas ficaram e deixaram alguma coisa. Mesmo os desafetos. Os que magoaram, de alguma forma.

Com as pessoas, aprendemos. Como eu conheceria o perdão se alguém não tivesse me ofendido? Como conheceria a tolerância, se alguém não tivesse extrapolado meus limites? Pra aprender que o ódio não vale a pena, precisamos do outro. Para entender o que é amor, necessitamos ainda mais de alguém. O que eu saberia de generosidade, se não fosse o outro para eu me doar? Nada de empatia eu saberia, se não existisse o outro. Passariam longe de mim, a cumplicidade, o senso de justiça, a coragem, a resiliência, a piedade, a compaixão, a humildade… se não fosse o outro.

O que eu sei, vem do outro. O que eu ainda não sei, também virá.

E como eu não sei muita coisa e tenho pressa em me melhorar, vou deixando mais gente entrar. Agora bem mais seletiva. Tenho poucos espaços. Afinal, já são 51 anos de gente.

Hoje em dia, garimpo pessoas leves, porque preciso de leveza. Também pinço gente com quem eu troque simplicidade e desapego. Deixo a porta aberta para os honestos, os justos, os inquietos, os combativos, os livres, os fraternos, verdadeiros, espontâneos e originais.

Brincará pela casa quem trouxer poesia, tesão pela vida, alegria, entusiasmo, música e paz.

E aí é que entram os meninos e meninas da minha vida. No pedaço em que fui criada, tem agora Ananda, a filha caçula, que traz o novo para o meu velho endereço. O novo que me alimenta de esperança e fé na humanidade. O novo que instiga e desafia. O novo que alarga o pensamento e faz cair por terra antigas crenças, e oxigena. O novo que impulsiona a caminhada e re-significa.

A novidade me chega também pelas pessoas, sobretudo pelos rapazes e moças que povoam o meu presente. E me fazem tão bem. Elxs me rejuvenescem diariamente. Sem o peso de ser somente a mãe, sou a amiga. Aconselho, mas sou aconselhada também. Sem a obrigação de ser sábia, aprendo mais que ensino. Elxs remexem meus conceitos e pré conceitos todos. Me mostram o quanto eram bobagens as verdades que aprendi. Fazem uma bagunça da porra em minha cabeça, mas eu juro que agora tudo está mais organizado e suave. Meu ninho não conhece o vazio.

Elxs me libertam e eu, uma pessoa em construção, absorvo esse ar rarefeito e vou saltitando como menina pelo beco que dá na padaria do meu pedaço, pelos becos e avenidas da vida.

E todas essas considerações aqui, eu ofereço a Ananda, a Eurivalter, a Raphael, a João, a Andrezza e aos tantos mais que eles representam.

Sibelle Fonseca é radialista, juazeirense apaixonada, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

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