“Quinto dos Infernos”, por Fabrício Carpinejar

 

Não são acidentes, não são fatalidades, não são casualidades. Há um grande abandono destruindo a cultura brasileira, dizimando as provas de quem somos e de onde viemos.

É um atentado político, uma forma de cortar despesas.

Em dezembro de 2015, o nosso idioma já havia se calado com a devastação das brasas do Museu da Língua Portuguesa, na região central de São Paulo.

No domingo (2/9), foi a vez da nossa história desaparecer nas chamas. Um incêndio destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do RJ. Perdeu-se completamente a instituição que completou 200 anos e serviu de residência a um rei e dois imperadores. Só o prédio em si era lendário.

As nuvens que cobriram o Rio de Janeiro eram cinzas de ossos (inclusive do primeiro esqueleto encontrado no país), dinossauros, múmias, esculturas, objetos indígenas, documentos históricos, a maior coleção egípcia da América Latina.

Meteoritos, na forma de vapores plúmbeos, cruzaram as paisagens do Corcovado, Pão de Açúcar e Maracanã. Riscaram o nosso passado do mapa. Como um eclipse forjado.

Para quem viu fogos de artifício na Baía de Guanabara ao final do ano, agora testemunhava fogos-fátuos decretando o fim de vários séculos.

Pedaços de todos nós, tecidos de nossas emoções fundadoras, para sempre desmontados, para sempre esfacelados, pairando no ar.

Papéis e fósseis raros subiram ao céu, cremados religiosamente pela negligência.

Estudantes e pesquisadores não terão mais acesso a 20 milhões de itens. Dez mil visitantes mensais encontrarão apenas ruínas no São Cristóvão. Lacunas ocuparão a nossa memória, como se estivéssemos experimentando um Alzheimer coletivo.

Talvez o país esteja mostrando a sua vocação para a extinção. Assim como queimamos impunemente grande parte da Floresta Amazônica.

Ou alguém acredita que os museus no Brasil estão se matando? Seriam os primeiros casos no mundo de prédios suicidas.

Carentes, desassistidos, solitários, um vai seguindo o exemplo do outro e se ateando fogo? Diante da falta de reforma, diante das fachadas caindo, diante dos aniversários com as alas fechadas, os museus brasileiros vão tirando a sua vida pouco a pouco, até que não sobre nenhuma prova de nossa barbárie? Alguém acredita?

Fabrício Carpinejar, jornalista, poeta, cronista 

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