“Estranha, Estreita e Doutrinada Opinião”, por Josemar Pinzoh

O texto que aqui se apresenta é uma tréplica, em resposta a um outro texto, intitulado “Opinião fundamentada ou ‘estanhos’ argumentos? ”, de autoria de Victor Fidel, publicado em 27 de outubro, as 13:00, na página do Preto no Branco.

O referido texto é uma resposta de Fidel para o fato de eu ter pronunciado o nome dele em entrevista que dei ao programa Palavra de Mulher, do blog Preto no Branco, na manhã de quinta-feira, dia 25/10/2018, quando respondia a uma pergunta da entrevistadora, Sibelle Fonseca, sobre se eu, como professor, já tinha encontrado o tal “Kit Gay”. Sobre o que falei, o próprio Fidel confirma o ocorrido no segundo parágrafo do seu texto. O fato que lhe motivou fazer um “direito de resposta” foi achar que dei ênfase pejorativa ao fato. No entanto, em nenhum momento me referi a Fidel pejorativamente. Ao contrário, em seu texto ele se refere a mim pejorativamente, inclusive é assim que finaliza o seu texto. Foi isso que me motivou a tréplica.

Devo esclarecer que conheço Victor Fidel há bastante tempo, desde que ele trabalhava na gráfica D´Victor, exatamente onde o conheci, sempre prestativo e comunicativo. Fiquei seu amigo e descobri que tínhamos, à época, diversos temas e amigos em comum, a maioria do campo das artes, da música e da poesia, principalmente. Com ele e outros desses muitos amigos, poetas e músicos, fizemos diversos encontros, farras e demos inúmeras risadas, inclusive nos encontros dos “estranhos”, que ele agora qualifica pejorativamente como algo que “servia apenas para alimentar um festival retórico que só dava conta de banquete aos próprios egos”. Nós nos gostávamos de verdade, pelo menos isso era verdadeiro da minha parte e eu achava que era recíproco. Tanto que o convidei para fazer a capa do meu livro de poesias O Mesmo Outro (Editora Scortecci, 2011) e a escrever um de seus prefácios. Levando em conta essas memórias, acho que o encontro na casa dele em que me apresentou o Olavo e o vídeo do Kit Gay, talvez tenha ocorrido antes de 2013, quando ele ainda morava na Canta Galo e onde o visitei por diversas vezes.

Depois de um tempo, quando Fidel conduziu toda sua atenção formativa para as “aulas” de Olavo de Carvalho e para um grupo de pessoas identificadas com a “formação conservadora”, fomos cada vez mais discordando e nos distanciando, pela acidez das palavras usadas na divergência, que nos levou a desfazer a amizade que tínhamos em rede social. Mesmo dado este afastamento, nos encontramos esporadicamente, nos cumprimentamos e até nos servimos de seus serviços, inclusive no âmbito da UNEB, particularmente em um trabalho do colega Cosme Santos. Mas, o fato é que hoje estamos em polos políticos opostos, em razão de nossas escolhas. As minhas continuam as mesmas, os meus amigos, com raríssimas exceções, continuam os mesmos, e a minha disposição em fazer encontros animados com os amigos, conversar sobre temas variados e controversos, praticar versos e prosas, e rir em confraria com eles, continua a mesma – e acho que isso é uma coisa saudável, que faz bem ao corpo e à alma. Nesse círculo, Fidel será sempre bem vindo, se nos trouxer alegria e poesia, ao invés de um dedo em riste e a tentativa de nos fazer “ajustes de conduta”, moral ou intelectual.

Bom, feitos esses esclarecimentos pontuo o seguinte:

  1. Embora Fidel insista nisso, o chamado Kit Gay não existe, principalmente nos termos em que ele é apresentado nos vídeos e materiais de internet a que Fidel se refere. O livro que o Bolsonaro mostrou na Globo existe, mas não faz parte dos materiais didáticos enviados pelo MEC para a escolas. Ficou claro, agora no período eleitoral, que a versão que Fidel apresentou na ocasião e as versões recentes são fake news produzidas pela direita, hoje reunida em torno da campanha de Bolsonaro. O assunto foi desmentido pela imprensa e foi objeto de pronunciamento do Supremo Tribunal.
  2. Como professor, eu faço formação de professores há 24 anos e lido com um significativo contingente deles. Nesses anos todos tenho solicitado aos professores e professoras que me informem assim que encontrarem esse material nas escolas, como parte dos materiais escolares enviados pelo MEC, mas também informem algum evento de formação de professores dedicado à “doutrinação de gênero”. Até hoje não apareceu um professor ou uma professora que relatasse coisa parecida. Por outro lado, a discussão sexual e de gênero está no currículo oficial do Brasil, desde 1998, ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacional, figurando neles como um Tema Transversal, chamado Orientação Sexual. Tudo isso é história, é conhecimento e é pesquisa, que atestam que a versão de que o PT criou e tentou implantar nas escolas brasileiras a chamada “ideologia de gênero”, não passa de conversa fiada, distorcida, presa ao conspiracionismo irracional. Desafio o próprio Fidel a encontrá-lo em uma escola pública brasileira, como material didático ou para-didático enviado pelo MEC e reforço a campanha do Preto no Branco, que está dando como brinde uma viagem para Morro de São Paulo, a quem encontrar em uma escola pública o tal “kit”, como material enviado pelo MEC. Quanto a isso, os links que Fidel disponibiliza são todos eles fora de contexto. Há artigos do próprio Fernando Haddad na Fola de São Paulo e na Revista Piauí, nos quais ele esclarece o tipo de confusão feita com isso, com a participação ativa da bancada evangélica no Congresso Nacional, e atuação principal de Magno Malta. Mas, claro, Fidel prefere os materiais produzidos e difundidos por sua própria bolha interpretativa.
  3. Não acho que a inclusão da menção ao meu livro Pesquisa-Criação (EDUNEB, 2012) na resposta de Fidel faz algum sentido. Foi apenas uma citação jogada. Não tem nada a ver com o assunto em questão e os assuntos abordados no livro não se resumem a um menção aleatória à obra de Albert Camus. Nada a ver! Fidel talvez quis mostrar erudição, mas só que não.
  4. Apesar de fazer uma crítica à minha “lente ideológica” é exatamente com a lente ideológica que Fidel se pronuncia. A escolha dos materiais através dos quais ele se informa (e se deforma) são todos enviesados ideologicamente, por isso mesmo ele os prefere, em detrimento de outros materiais. A lente através da qual ele olha e vê é uma lente ideológica doutrinada por Olavo de Carvalho, esse bufão, charlatão de filósofo, que ganha a vida alienando uma multidão de pessoas, falando de assuntos que ele não entende e fazendo outros acharem que, tendo ouvido os resmungos do seu doutrinador, passam a achar que já entendem. Assim, fazem exatamente o que dizem combater: “confundir as pessoas propositalmente para criar uma atmosfera de desorientação” – que é o que está em pleno vigor, com as consequências que estamos presenciando e que ainda haveremos de presenciar, com uso avassalador de mentiras, nomeadas como Fake News, produzidas e circuladas pelas redes sociais, feitas por pessoas que se escondem atrás de perfis falsos, de identidades falsas, não têm coragem de mostrar a cara, porque não têm moral para mostrá-la e para sustentar as mentiras que inventam.
  5. Comunico a Fidel que eu tenho em minha estante quase 1.500 livros, sendo alguns deles de autores da Escola de Frankfurt, alguns mencionados por ele, como Max Horkheimer e Theodor Adorno e Jürgen Habermas. Eu tenho e li Max Horkheimer e Theodor Adorno (Dialética do Esclarecimento); Jürgen Habermas (Teoria da Ação Comunicativa); Walter Benjamin (Passagens; Imagens de Pensamento); Herbert Marcuse (Eros e Civilização; Cultura e Psicanálise). Se Fidel quiser se livrar do embuste de ignorância a que Olavo de Carvalho o submete, ele pode se livrar das explicações doutrinárias de seu guru ideológico e ler os próprios livros desses autores. Eu posso emprestá-los. A questão aqui é que Fidel, tendo assistido a “aulas” de Olavo de Carvalho sobre esses autores, acha que já entende do assunto. Eu sugiro que ele se livre do explicador intermediário e falsificador de conceitos, e vá aos livros e conceitos diretamente. Ele vai ver que não faz sentido a vinculação feita com a questão da discussão de gênero ou no caso da polêmica do tal “kit gay”. O conceito de mutação social, a que ele se refere, nem é um conceito central nos textos dos diversos teóricos da Escola de Frankfurt. Desafio-o a me mostrar em algumas dessas obras os trechos que justificam essa vinculação que ele faz.
  6. Quando à Paralaxe, o conceito não pertence de origem a Olavo de Carvalho, mas foi por ele apropriado e comunicado a seus “alunos” como se o fosse. Sobre este conceito eu não apenas publiquei 19 linhas sobre a Paralaxe Cognitiva em minha rede social. Eu promovi uma mesa de debate sobre o tema num dos eventos oficiais do nosso Programa de Mestrado PPGESA, na UNEB, em 2017, mesa que chamou-se Para Além da Paralaxe: Configurações e Conturbações do Pensamento Social e Político Contemporâneo, que contou com a presença de dois professores-pesquisadores de nossa universidade. Paralaxe, ao contrário do que Fidel pensa, é um conceito que transita na Trigonometria, na Astronomia, na Astrofísica, na Fotografia, na Filosofia e na Sociologia. Um exemplo é o de Slavoj Žižek, sociólogo, teórico crítico e cientista social esloveno, professor da European Graduate School e pesquisador sênior no Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana. Lançou um livro chamado A visão em paralaxe (São Paulo: Boitempo Editora, 2008), onde usa o que chama de visão em paralaxe, a partir da obra do japonês Kojin Karatani, que discute a paralaxe em Kant e Marx. No marxismo, de modo geral, seria o caso da predominância dada à esfera das relações de produção, sem levar em conta as relações de consumo – algo que foi desprestigiado na teoria marxista, que tomou a mercadoria e as relações de consumo que ela engendra apenas como fetiche e fetichização. Através disso, Žižek faz uma crítica à teorização marxista ou marxiana. Neste caso, além de ficar preso a uma visão restrita e doutrinária, enviesada ideologicamente, que é a que Olavo de Carvalho lhe oferece, Fidel poderia abrir o leque da abordagem sobre o conceito, porque é isso que estou fazendo e aprendendo. Mais uma vez ele tentou demonstrar ilustração, erudição, mas deu com os burros n’água, exatamente porque está preso à bolha interpretativa de Olavo de Carvalho – porque de fato, o que este senhor está fazendo é produzindo, ele próprio, uma paralaxe cognitiva, neste caso, um buraco na cognição daqueles que se entregam a ele como única saída interpretativa.

Hoje, segunda-feira, dia 29 de outubro de 2018, esta resposta a Fidel deve incluir o fato de que seu candidato, Jair Bolsonaro, venceu as eleições presidenciais, para minha tristeza e a de muitos, baseando-se na ausência aos debates, na intimidação de adversários (eu mesmo fui vítima de ameaças) e na mentira disseminada pelas redes sociais, sendo que muitos de seus apoiadores sofreram ações da justiça que visaram eliminar inúmeras contas falsas, usadas para a disseminação de fake news. Dado este fato, estaremos firmes na defesa contra a intimidação, a ofensa, a mentira e, principalmente, a ignorância que tudo isso gera. O grupo de Bolsonaro, de atirador de pedra, agora virou vidraça! Terá que provar coerência com o que pregou e disseminou até agora, e pagar o preço disso.

No mais, deixo a Fidel o meu abraço. Ele não é meu inimigo, apenas discordamos imensamente e estamos em campos políticos opostos. Mas, se ele quiser, ainda podemos nos abraçar, tomar umas cervejas e dar umas boas risadas. Inclusive podemos discutir todos estes assuntos. Desde que, repito, ele venha de espírito aberto, nos traga a alegria e a poesia, ao invés de um dedo em riste e a tentativa de nos fazer “ajustes de conduta”, moral ou intelectual.

Josemar Martins Pinzoh
Pedagogo/Professor Adjunto da UNEB

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