“Sempre Aos Domingos”, por Sibelle Fonseca: O choro será livre

 

 

Foram difíceis e odiosos esses dias de eleições no Brasil. Chegou a ser exaustivo, adoecedor. Nas redes sociais, uma enxurrada de provocações, mentiras, xingamentos, troca de farpas e artilharia pesada. Quem não se indispôs, com pelo menos uma pessoa, ou passou a olhar mal para a outra, que atire a primeira pedra. Amigos se intrigaram, se agrediram, passaram a se conhecer melhor e deram de cara com diferenças gritantes. Velhos conhecidos cruzarão a calçada para não mais se baterem, adversários ficaram ainda mais raivosos e é certo que tem muita gente torcendo o nariz para alguém, olhando com desdém ou com ira mesmo. As mensagens de “Bom Dia” dos grupos de família do WhatsApp deram lugar a discussões ferrenhas e ofensas. Muitos membros saíram, outros foram expulsos e uma leva de grupos foram até desfeitos por excesso de raiva. Deixou um rastro devastador esse processo eleitoral. Fez um estrago grande. Uma semana após a vitória do candidato da extrema direita, cujo símbolo era uma arma em punho e a máxima que “violência se combate com violência”, defensor da tortura, o ódio ainda está instalado nas redes e nas rodas.

Eu me encaixo nos que andam torcendo o nariz pra muita gente, mas não tive grandes problemas com amigos não. Quase cem por cento deles eram do meu lado mesmo. De certo, que algumas pessoas pelas quais eu nutria uma consideração enorme, se revelaram tão feias que não as quero mais por perto. Mas até que não tive grandes surpresas, a despeito de uma meia dúzia de gays, lésbicas e outras mulheres, afetos meus, que pegaram o lado oposto ao da sua própria existência, e àqueles que eu já desconfiava do caráter mesmo.

Entre os meus amigos houve sintonia e isso me deixa muito orgulhosa do lado que escolhi. Havia amor, desejo de liberdade e justiça social, respeito às diferenças e nós fomos votar com um livro, com uma flor. Mais certa da minha posição fiquei, quando vi que estavam na mesma fila que a minha, Chico Buarque, Leonardo Boff, Caetano Veloso e Fernanda Montenegro, só para citar alguns. Mais orgulhosa ainda me senti, quando vi meus quatro filhos enfileirados também. Não tive dúvidas de que Jesus Cristo estaria ali também perfilado. As escrituras são testemunhas de que ele pregou o amor ao próximo, o perdão, a igualdade, a fraternidade, o livre arbítrio e a paz.

Não escondo que fiquei indignada quando vi uns pastores que eu até respeitava usando o nome de Deus para lastrear uma proposta tão sanguinária.

O ódio a um partido, pelo qual eu tenho mil e uma ressalvas e críticas, fez desabrochar muitos outros ódios contidos e algumas perversidades guardadas. Os homofóbicos pularam do armário, os racistas se assumiram, os machistas abriram as comportas, os que “preferem cheiro de cavalo, ao de gente” e que estavam putos porque pobre estava ascendendo, se manifestaram. Preferiram um governo com viés fascista, fazer o que? Destilaram muita ira e, inescrupulosos, partiram para o ataque pessoal. Eu mesma fui alvo de julgamentos odiosos. Para não me abalar, recorri a Leonardo Boff, que disse: “Chamaram-me com qualificativos que não os honram” (…) Se não entender o que alguém diz a seu respeito, tenha pelo menos misericórdia.”

Ter misericórdia é uma das minhas marcas. Eu tenho misericórdia de quem votou contra si mesmo. Mesmo sabendo que será uma raça de gente que nem eu, que vai pagar mais duramente essa conta. Somos nós, as mulheres, os negros, os indígenas, os LGBTS, os artistas, os pensadores, combatentes e indignados que vamos sofrer mais. Mas nós saberemos ser luta. Somos resilientes e sonhadores.

Volto a parafrasear Boff, quando lucidamente declarou: “Creio que agora a situação e tão dramática que precisamos de uma Arca de Noé onde todos possam nos abrigar abstraindo das diferentes extrações ideológicas para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade e das violências que poderão irromper a partir de uma liderança que tem como ídolo um torturador como Brilhante Ustra e admira Hitler, o criador dos campos de extermínio em massa de milhões de pessoas.”

Não é questão de torcer contra. O prognóstico é que é assustador. O mito, confesso despreparado para o posto, sequer disse o que pretende fazer, mas considerando o que escapuliu das suas declarações, sua índole é perigosa e mais ainda suas intenções. Suas medidas anunciadas já assustam.

Mas vamos lá pra 2019, ver no que se apostou. Quem sabe o tempo agora não seja o de aprender pela dor.

Eu estarei firme e forte na Arca de Noé, fortalecendo aqueles para os quais o choro do remorso será livre e ainda mais sentido que o meu.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

 

 

 

5 Comentários

  • Edilene Pereira Gomes disse:

    “Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta!… O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: Esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. Ser capaz de ficar alegre e mais alegre no meio da alegria, E ainda mais alegre no meio da tristeza”…

    João Guimarães Rosa
    Grande Sertão Veredas.

  • Iraneid Carvalho disse:

    É veremos, quem sabe vc muda de lado,(já mudou tantas vezes). Quem te conhece q te compre. O livro e as flores NÓS teremos sim, sem corrupção. Avante MITO! O BRASIL TE ESPERA DE BRAÇOS ABERTOS.

    • chico egídio disse:

      Torço pelo Brasil e torço para que o presidente eleito não consiga realizar tudo que prometeu, não nos debates, pois fugiu, mas no seu plano de governo e nos quase 30 anos de vida pública, torcer pelo Brasil e pelo sucesso desse governo é contraditório!

      Que a maioria do povo brasileiro desperte dessa letargia e veja o quanto esse novo governo representa uma elite burra, preconceituosa que odeia pobre e vai ferrar com a classe média.

      Oremos

  • DANIELA ALVES disse:

    Verdade, quem te conhece que te compra, kkk essa foi a frase do dia, ja mudou tantas vezes!!!!!………

  • Pedro Muniz disse:

    Se diz feminista, mas não procura a verdade para publicar, quanto de trata de mencionadas denuncias, cuidado que os guardiões do mito, vai te pegar!

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