“Sempre Aos Domingos, por Sibelle Fonseca”: Tenho alguns conselhos pra você   

Em 2019 eu faço 51. Já me acho no direito de dar conselhos. Não somente pelos anos em si, mas pelo que vivi nessas cinco décadas e um ano. Vivi tanto esses anos que nem vi as horas passarem. Foi assim íntegra, integral e intensa em tudo que fiz e continuo fazendo. Eu não segui o fluxo, graças a Deus, o que me livrou do senso comum. Nada de especial, apenas fiz meu próprio caminho. Um engancho aqui, outro acolá. Uma queda ali, uma rasteira, um tombo, um salto, um impulso, um voo. Eu só sei que não parei. Paguei caro para andar com minhas próprias pernas. Foi um pedágio alto. Investi em uma taxa alta para trilhar minha estrada. Passei troco, dei o troco, perdi, ganhei, apostei, me endividei, zerei e investi, em mim, que sou meu patrimônio. E me garanto! Garanto o bem que sou e a herança que estou deixando. Por todos os meus defeitos e pelos efeitos dos meus defeitos, eu já posso tirar algumas conclusões, que podem virar conselhos para alguém. Mas leia com moderação! E beba também, vai aí o primeiro dos conselhos.

Não viva pensando na aposentadoria e nem no dia seguinte. Eles podem não chegar. O bom mesmo é viver f-a-z-e-n-d-o a sua aposentadoria e o seu dia seguinte serem melhores. E isso só se consegue com dedicação, respeito ao outro, trabalho, coragem, generosidade, empatia, compaixão, senso aguçado de justiça, solidariedade, ousadia, fé, esperança, humildade, simplicidade, grandeza de caráter, coerência e franqueza. Tudo isso aí junto, vai lhe render muitos amigos, amores, filhos melhores, afetos, sono tranquilo, consciência leve, culpa zero e uma sensação imensa que sua existência vale a pena. 

Saiba servir. Senão, sua existência não terá servido. Sirva igual, ao chefe e ao colega de repartição. Sirva, igualmente, ao pobre e ao rico. Sirva igual a todas as cores, jeitos e seres e coisas. Servir por escolha é nobre. Ser servo é outra coisa. Sirva olhando no olho.  Nem de nariz em pé, nem de cabeça baixa, porque a arrogância pesa e a servidão aprisiona.

Viva para os outros. Doe-se ao outro, invista no outro, mas saiba qual a medida exata, para não correr o risco de anular-se. Porque aí será o fim. O fim da sua pessoa. Cuide de quem te dar atenção, de quem encontra na rua. Tenha responsabilidade com o que alimenta e cativa. Seja empático e vista a camisa alheia. Viver para o outro é diferente de deixar que decidam suas escolhas e determinem seu destino. No final, quem vai pagar é você e só. Deve ser um tormento viver assim, aparentando ser o que não é. Não tendo o que aparenta ter. Sendo o que não quer ser. Quem sorri quando não quer, chora por dentro.

Não viva pelos os outros. Pra quê dar satisfação, sendo você também uma pessoa insatisfeita? Não prive ninguém de nada. Principalmente da verdade. Não engane e nem queira impressionar, porque num minuto a máscara cai. Não se violente e nem tente parecer o que não é. Logo você será descoberto. É uma questão de tempo. Seja você, sem tirar e nem por, em todas as suas relações.

Desapegue-se de coisas, de conceitos, preceitos e de até de pessoas (mas só daquelas que te fazem mal). Corra de quem nada te acrescenta e agarre quem te faz feliz e se importa com você.

Aceite suas espinhas, seus sinais, suas rugas, suas marcas. Aceite-se! Não corra contra o tempo, alie-se a ele e siga sua dinâmica. Só não envelhece quem morre antes e isso você não há de querer.

Pelo bem da sua saúde, cuide do corpo e mais ainda da mente, pois é ela que cria uma existência inexpressiva ou uma que marca o universo por ter sido ímpar sabendo também ser par.

E por último viva o instante, o eterno que há nos sentimentos, viva suas loucuras, suas aventuras e fantasias. Permita-se! Troque de posição, aceite novas posições, não prenda o grito de prazer e nem a lágrima da frustração. Não se submeta, você é o sujeito! Arrisque-se! Se jogue, mas sabendo quando precisará de pará-quedas e quando não. Não faça pacto com os erros e tente acertar, mas sabendo que não há como acertar se não se submeter aos erros.  Aí a escolha é sua.

Não exija de você o que nem mesmo o criador está esperando. É burrice perseguir a perfeição. Respeite suas limitações e o seu jeito de ser.

Seja, seja você, sabendo ser o outro também, este o último dos conselhos. E conselho eu só dou a quem eu desejo que acerte nas suas escolhas e seja muito feliz! Feliz vida, pra você!

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

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