“Sempre Aos Domingos, por Sibelle Fonseca”: Que minguem os julgamentos!

Quando há uns 20 anos, eu programei e decidi ter o quarto filho, o primeiro de um segundo casamento. Ouvi todo tipo de coisa: “É uma louca, irresponsável! Depois dos filhos crescidos vai querer outro?” “Um filho de outro homem?” “Vai perder espaço no mercado de trabalho, com a licença a maternidade e aí acabou sua carreira!” “Um filho de um homem que já tem três filhas com outro? É uma louca mesmo!”… Ouvi isso e muito mais.

Nasceu uma menina que no sânscrito significa Felicidade. Uma das melhores escolhas que fiz na vida. Uma programação exitosa, uma decisão acertada!

Tive que mudar completamente minha rotina por um tempo. As madrugadas livres e festivas passaram a ter som de criança com cólica, peito à disposição, batidinhas pra arrotar, troca de fraldas, dancinhas pelo quarto pra acalmar e muita música de ninar.  Daí pra frente, foi só recomeço e reaprendizado.

Neste crepúsculo que já se anuncia, eu lhe digo: O que seria de mim se eu não tivesse ela? Meu ninho estaria vazio e, talvez, eu nem estivesse instigada a viver! Imagine aí meus dias? Com quem eu compartilharia momentos importantes para eu ser melhor? Quem iria me apresentar a novidade, o senso de juventude que me retarda o envelhecer? Quem me desafiaria? Quem reforçaria meus conceitos e derrubaria meus preconceitos? Quem, mesmo dormindo e acordando com minhas tantas imperfeições, me ama incondicionalmente. INCONDICIONALMENTE. Quem, mesmo vendo minhas aventuras, confia em mim e me respeita, incondicionalmente (outra vez)?

Ainda bem que eu não ouvi os julgamentos de outrora. Ou os pré-julgamentos, melhor dizendo, o que acaba sendo a mesma coisa. Mas eles me atormentaram, sabia? E eu os enfrentei. É preciso valentia para enfrentar julgamentos, sob o risco de ter uma existência sofrida e sofrível. Os julgamentos atormentam, até mesmo as pessoas mais livres! Do menor ao maior julgamento, eles fazem um estrago grande.

Julgamentos são prepotentes e têm ares de superiores. Por isso eles também são enganos. Julgamentos são perigosos porque o Universo os ouve, e em reação, pode nos colocar numa situação igual ao do nosso julgado. Julgamentos são perversos porque eles não dão sequer a chance de defesa. Eles são injustos, crudelíssimos e podem ser nefastos. É preciso ter força para enfrentá-los! Paga-se um preço muito alto por não lhes dar ouvido. Julgamentos paralisam uma existência inteira. Julgamentos são feios, nada generosos e reduzem a nossa humanidade. Eles não são de Deus, seguramente.

É tolo aquele que julga e é tolo aquele que ouve quem lhe julga. E como estamos o tempo inteiro julgando, sendo julgado e, mais ou menos, nos abalando com os julgamentos, somos todos uns tolos! Está aí a nossa inferioridade.

Ninguém sabe de ninguém, a verdade é essa. E ainda assim nos achamos no direito de apontar a cara do outro por causa das suas escolhas, orientações, da aparência, pelo jeito de ver e viver a própria vida. O quão somos audaciosos! Queremos até moldar o outro para que atendam as nossas expectativas. Quão arrogantes somos!

Passei estes 51 anos sendo julgada pelo meu jeito de ver e viver a minha vida. Convivo com julgamentos desde que me entendo por gente. Mesmo sendo branquinha do olho verde, de classe média, imagina aí! Sou julgada, diariamente, até hoje. Julgam meu ofício, meu gênero, meu sexo, minha palavra, meus vícios, minhas paixões e idiossincrasias. Julgam minha ideologia, meus rompantes, meus excessos de amor e de tudo, minha intensidade, meu mal e o bom jeito. Julgam tudo! Até minha roupa, meu batom e meu cabelo!

Isso tudo já me atormentou bem mais. Eu sou desse jeito, poxa! Queria ser perfeita, acertar sempre, não decepcionar nunca, “tá” dentro do padrão, conter meus ímpetos e verdades, mas eu só sei ser assim até agora. Eu não posso pedir perdão, por isso que sou eu. Porque isso sou eu. Uma existência de erros e acertos, como outras tantas. Tentando ser a melhor que pode. A fazer o que está ao meu alcance. E que mesmo quando erra, é tentando acertar.

Mas embora eu tenha aprendido a enfrentar julgamentos, alguns ainda me entristecem. Não por mim, mas pelos meus julgadores. Eles ainda não aprenderam que combater julgamentos é evolução. Não que eu não julgue. Faço isso o tempo todo e me sinto uma merda. Não é pra me gabar não, mas eu já me livrei, em grande parte, desta coisa feia de julgar. E vivo em estado de vigilância pra não julgar e nem me deixar levar por julgamentos. Cá pra nós, me sinto bem melhor e mais leve hoje em dia.

Os conflitos, ódios e intolerâncias vêm do nosso pré ou julgamento. A paz não tolera isso.

Fazendo um balanço da minha vida, neste final de ano, identifiquei que preciso melhorar no quesito julgamento. Julgar nada, tarefa para os 365 dias. Eu já sei que isso é evolução, fortuna que eu quero alcançar. Me atormentar nada com os julgamentos que me façam. Isso também é evolução. É evolução compreender que estamos todos no mesmo barco e, se o que nos move, é sermos felizes, assumindo riscos e consequências, com o coração cheio de amor, é evolução combater e enfrentar julgamentos.

Aí de mim, se tivesse ouvindo os julgamentos! Minha menina Ananda, que no sânscrito significa Felicidade, uma das melhores escolhas que fiz na vida, a cada dia me ensina a ser melhor. Eu tenho evoluído tanto com ela!

Que nesta virada de ano de lua minguante, minguem os julgamentos, as intolerâncias, os ódios, a falta de empatia, de compaixão. Que mingue a involução!

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

3 Comentários

  • CarlaPereira disse:

    Belíssimo texto, obrigada compartilhar e nos ensinar tanto e assim vamos …Aprendendo a ser melhor. Feliz Ano Novo,paz,saúde,enfim tudo de bom pra VC e família ,Gratidão

  • Neydja Araújo disse:

    Que mensagem linda. Que possamos ser menos julgadores. Que possamos ter mais empatia, mais tolerância e mais amor.
    Também ouvi vários comentários depois que resolvi ter meu terceiro filho, aos 43 anos. “É doida! Depois dos filhos já grandes e criados!” Troquei as noites de descanso, pela amamentação e horas em claro. Mas estou muito feliz com meu bebê, hoje com quase três meses. Graças a Deus, que me concedeu esse presente, esse milagre em minha vida!

  • Marília dos Anjos disse:

    Tão lúcido esse texto, essa vulnerabilidade de dizer que faz e que combate, já é a evolução.
    Faço minhas as suas palavras.
    *E é uma meta para 2019.*
    Que mingue todo e qualquer julgamento da face da terra.
    Forte abraço, cheiro.

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