Afinal, tinha um Nordeste no meio do caminho, por Roberto Malvezzi (Gogó)

 

A ditadura de 64 deitou sua foice por todo território brasileiro. Entrou pela Amazônia em 1975, varreu no Nordeste as Ligas Camponesas e suas lideranças logo em 1964. Aqui no Vale do São Francisco pôs suas patas com a construção da barragem de Sobradinho, iniciada em junho de 1973, a primeira e devastadora grande obra do Regime Militar, com seus empresários e sua sociedade civil acompanhantes.

Os municípios de Remanso, Casa Nova, Sento Sé e Pilão Arcado se transformaram em área de segurança nacional. Os prefeitos eram nomeados pelo presidente da República. Não tínhamos partidos para fazer a defesa da população, proibidos pelo Regime. Restavam os sindicatos de trabalhadores rurais, extremamente frágeis. Além do mais, o governador da Bahia se chamava Antônio Carlos Magalhães.

Foram relocadas 72 mil pessoas, quatro cidades.

Quem ergueu a voz foi um bispo chamado Dom José Rodrigues, da diocese de Juazeiro da Bahia. Deu a cara a tapa e enfrentou o regime militar. Organizou uma equipe volante da CPT, as comunidades eclesiais de base e tentou dar um apoio mínimo à população relocada. Teve sua casa invadida várias vezes por espiões do Regime. Várias vezes ameaçado de morte, nunca fugiu. Quando amigos da política quiseram lhe oferecer proteção pessoal, respondeu: “prefiro levar um tiro que viver preso por uma equipe de segurança”.

Quando Sobradinho encheu, milhares de pessoas ainda não tinham sido relocadas. Uma parte foi parar nas agrovilas de Bom Jesus da Lapa. Outra parte, a maioria, por iniciativa própria, resistiu e acabou ocupando as bordas do lago de Sobradinho. Muitas vezes a indenização da população não pagava o ônibus para se deslocar de um local para o outro.

Foram anos de chumbo, de reuniões monitoradas, de absoluta insegurança para o povo e segurança para os coronéis e seus cupinchas. Interessante, na última eleição presidencial, Haddad teve 70% dos votos nordestinos, contra 30% do atual presidente. Pesquisa mais recente mostra que 80% dos nordestinos já rejeitam o presidente. Então, sobram de apoio ao atual presidente aqui no Nordeste somente aqueles grupos que ficaram órfãos dos coronéis e da ditadura, que sempre tiveram por tradição estarem vinculados aos poderes locais. A nova geração detesta ditaduras e seus ícones.

A união dos nove governadores da região é emblemática e aponta a consciência histórica e de nordestinidade de nosso povo. Portanto, os deputados e senadores nordestinos que se aventurarem a apoiar essa reforma da Previdência, também terão seus nomes gravados nos murais das próximas eleições.  A lógica é que 80% dos deputados e senadores do Nordeste votem contra a reforma da Previdência.

Paulo Freire sempre nos falava do Nordeste rebelde. A verdade é que há sempre um Nordeste no meio do caminho.

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