“Carta convite ao Governador Rui Costa”, Por Ivânia Freitas

Professora Ivânia Freitas. Foto Arquivo Pessoal

 

Gostaria de convidar meu querido Governador Rui Costa para conhecer, de perto, as Universidades estaduais. Gostaria que viesse, primeiramente, à Universidade do Estado da Bahia (UNEB), da qual fui estudante e sou professora assistente.

Chamo-o de querido porque, até hoje, senti muita simpatia por sua simplicidade e pelo compromisso que seu primeiro mandato demonstrou com a Bahia e seu povo. Votei no senhor nos dois pleitos, por acreditar no projeto do Partido dos Trabalhadores e pelos avanços que nosso estado teve durante as gestões do PT. Por essa razão me sinto no direito e no dever de convidá-lo a conhecer-nos mais de perto.

A UNEB está territorializada em 24 campus universitários e 29 Departamentos distribuídos por todo o Estado da Bahia. Essa Universidade já formou milhares de pessoas, e, no seu caráter de multicampia, se interiorizou, fazendo com que, os trabalhadores e trabalhadoras, os mais pobres, pudessem acessar a educação de nível superior.
O departamento de Educação do qual faço parte, querido governador, situado no município de Senhor do Bonfim, atende a população de nove municípios do Território Piemonte Norte do Itapicuru e vários outros do Sisal. É um departamento de estrutura pequena, com 5 cursos de licenciatura, um bacharelado em Ciências Contábeis e um curso de Enfermagem.

Teria muito prazer em mostrar-lhe as nossas salas de aula, o nosso auditório de pouco mais de 150 lugares, os nossos laboratórios e a biblioteca, para que o senhor visse de perto, sob quais condições nós damos nossas aulas, fazemos pesquisa e nos dedicamos à extensão.

Há pouco mais de dois anos, conseguimos trocar rede elétrica do nosso departamento que, até então, não tinha condições, sequer, de manter ligados todos os equipamentos, ao mesmo tempo. Queria convidá-lo a assistir nossas aulas, a nossa tentativa de fazer uso das possibilidades do acesso à internet para diversificar a produção do conhecimento, porém, nosso sistema de internet é ruim, não alcança todo campus e, dentro do auditório, perto de um dos roteadores, a internet não funciona.

Em nossas aulas, utilizamos cadeiras pouco confortáveis, os laboratórios onde nos esforçamos para produzir outros conhecimentos não dispõem dos devidos equipamentos para investigações mais avançadas, os veículos que utilizamos, não são em número suficiente para atender as nossas demandas de Estágios, ou para fazermos o acompanhamento dos diversos projetos de pesquisa e extensão. Como não temos esse suporte, fazemos isso em nossos carros particulares, pegamos taxi, vamos de ônibus ou vans, quando precisamos sair do departamento para ir a outros municípios onde temos ações.

Queria muito que o senhor solicitasse de sua equipe de assessoria, o número de bolsas de pesquisa e extensão que o nosso departamento possui para alunos e professores. E isto não é por falta de projeto, mas, por o número de bolsas ser insuficiente ou por não existirem. Ainda assim, fique tranquilo, não deixamos de fazer pesquisa ou extensão por causa desse “pequeno detalhe”, nossos alunos têm muita vontade de aprender e nós, muita vontade de ensinar, e é o que fazemos.

Se o senhor passar, ao menos um dia inteiro conosco, verá que professores como eu, que tenho dedicação exclusiva, não trabalham apenas 8 horas ou 12 horas. Se não tivéssemos projetos de pesquisa e extensão, que triplicam nossa carga horária semanal, já trabalharíamos, pelo menos, o dobro dessa carga horária. Sabe o que fazemos aos fins de semana?

Depois de fazer a feira, vamos sentar em uma mesa rodeada de papéis ou em frente a um computador (por pelo menos 8 horas), para preparar nossas aulas, ler, corrigir, avaliar e orientar os projetos dos alunos, bem como, os artigos que temos que produzir para manter nossa “produção” em alta e não desqualificar a avaliação de nossos cursos e da universidade.

Quando não estamos em sala de aula, mesmo durante a semana, estamos na universidade, fazendo orientação aos alunos, dando a devolutiva dos projetos, artigos e dos TCCs, que passamos o fim de semana corrigindo. Por falar em TCC, a depender do curso, no geral, ficamos sempre com 4, 6 e até mais orientados (por professor) a cada semestre (eu já cheguei a ter 11!), especialmente, quando atuamos não apenas na graduação, mas também nos cursos de especialização, mestrado e doutorado na nossa instituição (e não apenas em nosso Departamento) e até mesmo em outras instituições públicas, que não pagam pelas nossas contribuições, mas vamos como colaboradores.

Como o senhor já deve supor, isto exige TEMPO (não contabilizado nas 8 ou 12 horas) e um tempo sem remuneração extra, tudo está dentro do salário que já recebemos. Acho que o senhor não sabia, por isso afirmou que considera um absurdo um professor D.E ter apenas 8 ou 12 horas em sala de aula. Portanto, como o senhor pode ver e confirmar, não é bem assim, a universidade não é apenas sala de aula.

Pode aproveitar e ver, também, a informação de que nosso salário médio é de R$17 mil reais. Bom, espero mesmo que um dia eu chegue a este salário. Hoje não chega nem à metade do valor citado. Ainda que alguns recebam esse valor, é necessário levar em consideração quantos anos esses professores têm de instituição e qual a titulação (e isso significa anos a fio de qualificação, estudo duro!).

Eu fiquei triste em ver o senhor referir-se aos salários de 17 ou 20 mil reais, como grandes salários, excessivos, até! Porém, nunca o vi questionar os salários dos médicos, juízes, deputados, engenheiros, advogados, que nem sempre têm a titulação ou os anos de carreira como nós temos e ganham muito mais do que aqueles que recebem salários mais altos dentro da nossa categoria! Professor é profissão menor? Não somos importantes para receber um salário desse porte? Nossos anos de estudo e qualificação, o trabalho árduo que fazemos, não validam nossa remuneração? Gostaria muito de compreender esse seu ponto de vista!
O senhor sabia que os professores da Educação básica da rede estadual de 20 horas, padrão D (doutorado) e grau VI, tem um salário maior do que um professor com a mesma titulação de 40 horas, assistente B, na UNEB? Pois é…
Na educação básica, aos professores também (e que bom!), têm sido garantidas as promoções e progressões, sem a fila de espera que nós, das universidades enfrentamos. Por qual razão? Vou lembrar que estamos há quatro anos sem reajuste, nosso poder de compra caiu e a vida, como o senhor deve saber, requer condições materiais concretas que só com dinheiro, é possível adquirir: alimentar-se, vestir-se e locomover-se, são algumas delas! Nós não temos cartões corporativos, não temos auxílio moradia, não temos nem helicóptero, nem carro, nem combustível pago pelo estado. Onde quer que formos, fazemos isto às nossas custas. Por falar nisto, quero só reiterar que os mais pobres não pagam nosso salário, nosso trabalho paga nossa remuneração. Mas, esses luxos, como os que falei acima, estes privilégios que não são privilégios dos professores, isso sim, os mais pobres pagam e nós, também!

Ainda para ajudar a esclarecer sobre nosso tempo, sobre como fazemos nosso trabalho na universidade pública na Bahia, quero dizer que as outras horas (que não estão entre as 8 ou 12 em sala de aula), nós também dedicamos às comissões (e são várias) nos nossos colegiados, fazendo, inclusive, trabalhos administrativos dentre eles, já que não temos uma estrutura que nos garanta apenas o exclusivo exercício da docência em sala de aula e o resto do tempo livre para nossas pesquisas e extensão. Nós, na verdade, viramo-nos em vários, para dar conta do dia a dia dos nossos cursos.

O Senhor sabe quanto um coordenador de colegiado (que não deixa a sala de aula, nem suas outras atividades, como docente), recebe como remuneração para a função na UNEB? Fui coordenadora de colegiado e recebia um extra de R$ 630,00 mensais. Pois é, R$ 630,00 para chegar às 14 horas na universidade e sair às 22h todos os dias da semana e com todas as atribuições que a função exige!

Aceite meu convite e venha ver de perto, caríssimo Governador! Mas não se espante se ao chegar, o senhor nos vir fazendo orientações aos alunos ou nossas reuniões de pesquisa, PIBID ou extensão, embaixo das árvores ou em um cantinho de um corredor. Isto pode acontecer porque não temos sequer, salas para fazermos o atendimento pedagógico e comunitário necessário aos trabalhos que nós desenvolvemos. Temos que dar um jeito e damos!

Além desse trabalho extra sala de aula, os nossos projetos de pesquisa e extensão consomem o triplo desta carga horária semanalmente, são projetos que têm efeito social amplo, que têm relevância para os coletivos com os quais trabalhamos além dos alunos, além da sala de aula. Se o que falo for colocado em dúvida, consulte nossos projetos e as comunidades que eles alcançam.
Embora não tenhamos as condições necessárias, fazemos pesquisa e fazemos muito bem (ainda que, pudéssemos fazer melhor), temos conhecimentos acumulados em várias áreas, no caso da UNEB, destaco a formação de professores e professoras onde temos uma longa história no estado da Bahia.

Nossa universidade dialoga com o povo, com as comunidades, dialoga com os territórios e fazemos isto, sobretudo, via extensão, onde quase sempre, sequer temos recursos financeiros e materiais para executá-la. Não somos remunerados pelos projetos de extensão, mas fazemos muitos deles e dedicamos não apenas as horas de trabalho, mas parte de nossas vidas!

Ainda bem que nosso compromisso não se restringe ao recebimento de bolsas (que são justas e necessárias), nós fazemos mesmo sem elas (embora não seja justo e certamente, por isto, nesse momento isto pareça não ter valor). Aliás, quero também dizer ao senhor, que as universidades estaduais na Bahia são referências porque temos compromisso com a profissão que assumimos e, mesmo sem o Estado prover as condições necessárias ao trabalho que cabe à uma universidade desenvolver, nós, professores e professoras, fizemos e fazemos a Universidade ser o que é. São milhares formados por nossas instituições, profissionais diversos atuando em todos os setores, o que nos fazem ter muito orgulho do esforço empreendido por cada um de nós, docentes e funcionários.
As universidades estaduais na Bahia, caríssimo Governador, não seriam a referência que são, se não fosse pelo compromisso político pedagógico e intelectual dos professores e professoras, que ao ouvirmos sua entrevista, seus argumentos e justificativas, ficamos todos estarrecidos e decepcionados.
Poderíamos fazer um grande evento para as Universidades estaduais, da Bahia, apresentarem ao senhor o que temos feito ao longo da nossa história. Ele só não poderia ser no nosso departamento, assim como em outros departamentos da UNEB onde nós não temos sequer um serviço de sonorização adequado, nossos equipamentos como datashow, microfone, caixa de som, são todos velhos e sempre nos deixam em maus lençóis, nos eventos!
Por mais que nos esforcemos, não damos conta das questões estruturais que são fundamentais para nosso trabalho acontecer, a nossa parte estamos fazendo, aliás, fazemos muito mais, como o senhor pode ver.

Se aceitar nosso convite, ficaremos honrados com sua visita e poderemos nos olhar nos olhos e, então, o senhor verá que nossa luta é justa e, que ainda há tempo de corrigir os equívocos que suas falas têm revelado. Use sua humildade e carisma neste momento, seja sensível ao que estamos lhe trazendo como elementos a serem dialogados e vamos, juntos, fazer da Bahia um estado ainda melhor. Torcemos por isto!

Atenciosamente,
Professora Me. Ivânia Freitas

2 Comentários

  • Reginaldo Rodrigues disse:

    Um bom texto para desmistificar a realidade do Educador universitário criado pelo Governador , afinal o um dos objetivos do poder ” é criar verdades

  • janio aparecido disse:

    E bem verdade que o momento e de extrema digiculdade porem e preciso tambem ponderar as palavras pra que a nossa educacao seja respeitada, nao sera num momento que sofremos tantos ataques dos mais diversos pra retoradas do direitos dos trabalhadores que permitiremos ainda mais percas …
    noemtanto precisamos juntos a propria academia fazer esforco no sentido do entendimento. Que o momento e o mais dificil. Pois a luta e pra manter o que se tem e nao ver nossa educacao sofre recaidas por que ai seria o caus .. e e justamente isso que alguns algases desejam.
    nosso fracass emquato sociedade Bahiana e Brasileira.

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