Ilha do Fogo: E quando a serpente acordar, poderá ser tarde demais, por Sibelle Fonseca

(Fotos Ailton Nery/Preto No Branco)

A Ilha do Fogo, um dos principais espaços públicos de lazer de Juazeiro e Petrolina, lugar aprazível para a prática de esportes e contemplação, transformou-se em um caldeirão de problemas, decorrentes da ausência dos poderes públicos. A falta de segurança tem afastado os frequentadores e atraído os criminosos, que utilizam o espaço para o tráfico de drogas e prática de todos os tipos de violência. O PNB já noticiou casos de agressões, também praticados por policiais, homofobia, tentativa de estupro, assédio sexual, brigas e confusões que viraram cenas comuns na ilha.

Nos finais de semana, quando o movimento aumenta, sequer tem equipes de salva vidas e também são frequentes os afogamentos no balneário; O comércio na ilha segue de forma desordenada, e a cada dia aumenta o número de ambulantes que comercializam seus produtos, longe de fiscalizações, até mesmo da Vigilância Sanitária; O lixo toma conta dos quatro cantos, sem coleta regular, sem consciência ambiental dos frequentadores, que sujam o espaço, atentam contra o rio e a imundície impera.

Abandonaram a Ilha do Fogo, numa demonstração de falta de compromisso com o turismo local, de responsabilidade com o bem estar das pessoas e total incompetência de gerir um espaço tão importante, que faz parte do cenário em que o Velho Chico é protagonista.

O município de Petrolina ganhou a Ilha do Fogo. Por direito está sob sua responsabilidade direta, a administração do balneário. No entanto, os deveres com a manutenção e benfeitorias no espaço, estão à toa.

A Ilha está entregue à própria sorte, ou ao azar de quem ainda se arrisca a frequentar o lugar. “Eu sempre tive o hábito de vir a Ilha do Fogo, mas minhas vindas aqui estão menos frequentes, por me sentir amedrontado e incomodado com tanto abandono. Não tem segurança, não há limpeza, a venda e uso de drogas correm soltos. Está complicado trazer a família para desfrutar deste lugar, que poderia ser bem cuidado, pois é um espaço de lazer acessível, que a gente pode vir andando pra curtir o rio e toda esta beleza”, relatou um banhista que não quis ser identificado.

Na manhã do último sábado (25) a equipe do PNB esteve na Ilha e colheu fotos da sujeira, e também relatos dos frequentadores que procuram respostas do poder público sobre tanto descaso.

“O que está acontecendo? Por que tanto descaso com este espaço que em qualquer lugar do mundo seria valorizado e bem explorado como ponto turístico”? questionou outro banhista.

“A ilha sempre foi mais frequentada pelos juazeirenses. Desde menino a sensação que eu tinha era a de que ela pertencia a Juazeiro, mas as gestões nunca enxergaram a ilha. Nunca nenhum gestor fez uma melhoria aqui. O casarão está em ruínas. Agora, que a Prefeitura de Petrolina ganhou sua posse, a coisa só piorou. Nem a mão da limpeza chega aqui, isso sem falar na falta de segurança. Eu ainda teimo e venho, mas confesso que não me sinto seguro. Muito pelo contrário, a sensação é que a qualquer momento verei uma cena de violência”, declarou um juazeirense de 50 anos, que semanalmente frequenta a ilha.

“Por que a Univasf não assume este espaço, como comentaram que isso iria acontecer há uns tempos atrás? Isso aqui precisa urgente de uma intervenção, precisa que as gestões se responsabilizem e assumam a administração. Este jogo de empurra é um absurdo, uma irresponsabilidade. Petrolina não toma conta, Juazeiro se acomoda e nós, população, engolimos este abandono”, bradou outra frequentadora.

Interessante registrar que as pessoas ouvidas por nossa reportagem, pediram para não ser identificadas, temendo represálias. “O tráfico de drogas aqui é real. A gente que frequenta faz de conta que não tá vendo nada, mas onde tem tráfico, tem violência e este ponto está nas mãos dos criminosos. Eu sou atleta e venho nadar aqui todos os dias, sei que corro riscos, mas vou enfrentando “, justificou um banhista.

A gestão municipal de Juazeiro se livrou da ilha, não fez e nem faz questão do espaço. Foi cômodo aceitar de bom grado que o balneário passasse para Petrolina. A gestão municipal de Petrolina, não tem cumprido seu dever de gestora do espaço. É como se ele não pertencesse ao município.

Até quando? Qual município responsável e visionário não queria um lugar paradisíaco para ofertar aos seus moradores e apresentar aos visitantes? Um lugar potencialmente turístico, que oferece um belo por do sol, um banho em águas calmas, uma faixa de terra para o descanso e lazer, um lugar inspirador, lendário e cultural?

Pecam as duas cidades que não se apropriam de tamanha riqueza. Com alguma boa vontade e respeito ao patrimônio público e a população, as duas prefeituras bem que poderiam dividir responsabilidades e, pelo menos, manter a ilha bem cuidada.

A quem interessa o sucateamento e inviabilidade do local? Qual a intenção? Quais os projetos futuros para a Ilha do Fogo de Juazeiro e de Petrolina? Já há quem indique que a iniciativa privada está de olho no espaço. A Ilha do Fogo poderá deixar de ser do povo. E quando a serpente acordar*, poderá ser tarde demais para enfrentar o fantasma da privatização.

*(Reza uma antiga lenda que existe na ponta da Ilha do Fogo uma grande serpente amarrada em três fios de cabelos de Nossa Senhora das Grotas (Padroeira de Juazeiro). No dia em que a serpente se libertar, diz a lenda, as cidades de Juazeiro e Petrolina serão inundadas.)

Da Redação por Sibelle Fonseca     

3 Comentários

  • Marconi costa disse:

    Parabéns minha querida colega pela reportagem. Fico indignado com esse “descaso proposital” das autoridades das duas cidades. A ilha não é de Juazeiro nem de Petrolina, é um patrimonio universal. Fora a isso, a falta de educação domestica, a falta de cidadania, a falta de sensibilidade dos que a frequenta, me envergonha. Lembro me quando criança meu pai (ex func.dos coreios de Juazeiro) levava me para ver o funcionamento de grandes geradores de energia eletrica que funcionou na ilha e que fornecia energia eletrica para ambas cidades. Por isso ela é chamada ilha do fogo. Parabens pela materia.

    • Luís Moura disse:

      Reza a lenda que na lua cheia a pedra encandecia e brilhava como fogo, e aos que observavam antigamente deram essa nomenclatura, a Ilha do Fogo!
      Com um pensamento mais cosmopolita, como cidadão do mundo, vejo que lá há espaço para todas as tribos, pescadores, banhistas, atletas, ecoturistas e usuários recreativos de substâncias hoje ilícitas, basta o “Estado”, definir por exemplo onde o acesso é exclusivo a maiores, onde se “tolera” o fumaçê e aonde seria repreendido, cada qual na sua!

  • 'Stefan Mantu disse:

    Sibelle, bom dia …
    Sugiro que você convide o Chico Egídio e o Ênio Costa para uma entrevista/denúncia sobre a destruição da Ilha do Fogo em seu programa Preto no Branco.
    É urgente a reconstituição do Coletivo Amigos da Ilha do Fogo.
    A Ilha do Fogo, um polo natural de turismo, cultura e lazer está mais uma vez sendo devastado.
    É sempre bom relembrar que em nossa luta anterior comprovamos a existência de tropas dos EUA na região.
    https://www.youtube.com/watch?v=7cfVzQJBWaI&t=97s

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.