Sr. do Bonfim: Associação dos Espadeiros emite nota de repúdio contra ação dos policiais e lança campanha em prol de jovem atingida por bala de borracha

(foto: reprodução/TV Bahia)

A Associação Cultural dos Espadeiros de Senhor do Bonfim (ACESB), por meio de nota, repudiou a ação truculenta das guarnições das Rondas Especiais (Rondesp Norte) e do Comando de Policiamento Especializado (Cipe Caatinga) no último domingo (23), na cidade baiana. Durante a Guerra de Espadas, manifestação cultural antiga da cidade e que está sendo criminalizada pelo Ministério Público (MP), uma jovem foi atingida por uma bala de borracha no rosto durante a ação dos policiais contra os espadeiros.

“A noite mais linda da tradição junina bonfinense foi transformada num campo de batalha que possuía apenas um lado. Infelizmente, a noite mais bela da cultura de um povo virou uma praça de Guerra onde apenas um lado atacava. Nesse interim, a estudante Fabíola de Jesus Cardoso, estudante do curso de Enfermagem da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) foi atingida por um projétil de bala de borracha lançada de forma arbitrária contra a população que ali estava. Compreendemos que os Policiais ali cumpriam ordens, mas será que essas ordens eram legitimas e necessárias!? Será que de fato arrancar a visão de alguém é a melhor forma de tratar as manifestações pacificas!?”, diz um trecho da nota da associação (leia na íntegra abaixo).

Fabíola passou por um procedimento cirúrgico no Hospital da Restauração, em Recife, capital do Pernambuco, para onde foi socorrida após ser atingida. Nesta sexta-feira (28), a estudante deve passar por um novo procedimento. Entretanto, conforme informou a família, a visão do olho esquerdo da jovem já está comprometida. Ela corre risco de perder o globo ocular e ter que usar uma prótese oftálmica.

Rodrigo Pezão Wanderley, Superintendente de Turismo da cidade de Senhor do Bonfim, através de uma publicação em uma rede social, criticou a ação policial.

“Que mal nos fizemos para sermos tratados assim!? Fabíola, nem mesmo espada tinha. E mesmo que tivesse ninguém tem o direito de lhe atingir com projéteis. Uma jovem que estava dançando em uma charanga, cantando forró, confraternizando com os amigos, tem agora sua vida atrapalhada pela desproporcionalidade desrazoada. Quem devolverá o brilho ao olhar dessa jovem!? Ninguém poderá fazê-lo. Ninguém. (…) Vocês estão com as mãos sujas de sangue. Sangue de gente honesta que só queria brincar São João. Ainda é tempo de se rever seus posicionamento e chegarmos a uma solução democrática, sensata e razoável. Ainda é tempo. Ainda há tempo de mudar essa história. Infelizmente, Fabíola não poderá ter a visão de volta”, escreveu o ex-secretário de Cultura da cidade.

Cenário de Guerra

Em entrevista ao G1, Fabíola contou que o grupo que ela tava não participava da guerra de espadas. “Não tinha ninguém levando espada. A única coisa que levamos foi instrumentos musicais para tocar. Quando chegamos no local, fomos recebidos com bombas de gás lacrimogêneo e também com bombas de borracha”, disse.

Além de Fabíola, outras duas pessoas foram que se machucaram durante o confronto chegaram a procurar a Corregedoria da PM para formalizar denúncia de agressão contra os policiais que participaram da ação, conforme noticiou o G1.

Entre as vítimas também estão um homem que foi ferido na cabeça e outro que foi atingido no tórax.

Campanha

A ACESB iniciou uma campanha para arrecadar recursos financeiros afim de garantir a estadia de Fabíola na capital pernambucana e comprar os medicamentos necessários para o tratamento. A associação, que já destinou parte do dinheiro arrecadado com a comercialização de camisas e com uma rifa, disponibilizou contas bancárias para os interessados em ajudar.

Banco do Brasil
Agência: 0228-3
Conta Corrente: 37537-3
Fabíola de Jesus Cardoso

Caixa Econômica Federal
Agência: 0076
Conta Poupança: 47790-3
Operação: 013
Otavio Ferreira L Melo

Criminalização
Em 2003 foi instituído o Estatuto do Desarmamento e a proibição da guerra de espadas se baseou no Artigo 16, que trata da posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso restrito, conforme o Ministério Público.

A proibição da tradicional “guerra de espadas” já havia sido determinada pelo Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) em 2017, após ser considerado um pedido feito pelo MP-BA. Já em 2018, o MP recomendou ao município de Senhor do Bonfim, que não promova ou coopere com a soltura da guerra de espadas, prática onde fogos de artifício, semelhantes a pequenos foguetes, são utilizados como espadas.

No começo deste mês, a decisão de proibir a guerra de espadas foi recomendada, novamente, pelo órgão estadual. No dia 19 de junho, o Supremo Tribunal Federal (STF) manteve a decisão de uma liminar que proibia a tradicional guerra de espadas. A medida foi tomada pelo ministro Luiz Fux. No documento, ele repetiu uma decisão da ministra Carmen Lúcia, tomada em maio de 2018, que fala sobre o risco de morte dos praticantes da guerra de espadas.

O pedido de suspensão da liminar foi feito pela prefeitura da cidade, que alegou que a proibição prejudica a economia do município, porque implica diretamente na redução das receitas e na diminuição do turismo no período dos festejos juninos.

Nota completa da ACESB

NOTA DA ASSOCIAÇÃO CULTURAL DOS ESPADEIROS BONFINENSES (Acesb)

A Associação Cultural dos Espadeiros de Senhor do Bonfim vem por meio deste comunicar ao grande público toda a dor e angústia que presenciou na noite do dia 23 de junho de 2019, noite de São João.

A noite mais linda da tradição junina bonfinense foi transformada num campo de batalha que possuía apenas um lado. Seguindo os nossos comunicados os espadeiros bonfinenses abriram mão de soltar espadas na Rua Dr. Costa Pinto, tradicional local de realização da manifestação máxima de nossa tradição secular, A “Guerra de Espadas”.

Reconhecemos a decisão liminar interlocutória da Comarca de Senhor do Bonfim como entendimento injusto mas mesmo assim recomendamos que todos nossos membros a cumprissem.

De forma espontâneas milhares de pessoas afluíram em direção a rua onde desde sempre foi montada a Fogueira de Ramos, em forma de protesto contra a decisão e mesmo sem poder acender nossas fogueiras a população permaneceu lá apenas cantando e dançando forró na maior alegria.
Até que por algum motivo até o momento não esclarecido uma chuva de bomba, balas e spray de pimenta foi lançado ao esmo, em direção aos corpos dos bonfinenses, dos espadeiros, dos turistas, dos moradores, de todos que ali se encontravam.

Infelizmente, a noite mais bela da cultura de um povo virou uma praça de Guerra onde apenas um lado atacava. Nesse interim, a estudante
Fabíola de Jesus Cardoso, estudante do curso de Enfermagem da Universidade do Estado da Bahia (Uneb) foi atingida por um projétil de bala de borracha lançada de forma arbitrária contra a população que ali estava.

Compreendemos que os Policiais ali cumpriam ordens, mas será que essas ordens eram legitimas e necessárias!? Será que de fato arrancar a visão de alguém é a melhor forma de tratar as manifestações pacificas!?

Acreditamos que já passou a hora de buscarmos uma alternativa. Não basta apenas criminalizar. Não basta lançar uma população inteira a margem. Poderíamos estar dialogando francamente, abertamente, formas de garantir o direito de todos tal qual a proposta da ACESB.

Nossa Tradição não é Crime. E precisa ser preservada.

Se existem condicionantes a serem atendidas para atingirmos este objetivo, por que todos os órgãos do Estado, Ministério Público, Poder Judiciário, Poder Executivo e Poder Legislativo, não dão as mãos em busca de uma saída que atendam a todos os lados?

Nesse sentido a Associação cultural dos espadeiros de Senhor do Bonfim, repudia veementemente a conduta violenta adotada pelo poder público e se coloca a disposição dos familiares e amigos de pessoas que sofreram agressões. Em especial, Fabíola Cardoso, que se encontra acamada em estado delicado no Hospital da Restauração em Recife, Pernambuco.

Reafirmamos nosso compromisso na busca da categorização do Artefato Espada Junina, junto ao Exército Brasileiro, e posterior, adequação a produção do artefato na busca de uma resolução.

Não queremos outras Fabíolas. Ninguém pode apagar o brilho no olhar dos Espadeiros Bonfinenses.

25 de junho de 2019.

Com informações do G1 Bahia*

Da Redação

1 comentário

  • Cláudia Dantas disse:

    A guerra de espadas é uma manifestação cultural praticada a anos ,passada de pai para filho , nós bonfinenses participamos de livre e espontânea vontade ,usamos EPIs. O que me deixa indignada é a forma como estão tratando a nossa tradição ,os que participaram ,não somos criminosos ,jamais irei esquecer a cena que presenciei no dia 23 de junho de 2019, no local que antes meu coração transbordava de emoção ,fui tomada por uma tristeza em ver a rua Costa Pinto transformada em zona de guerra ,policiais atacando cidadãos (que não estavam portanto espadas) ,não só com balas de borracha ,nem gás lacrimogêneo ,mas ameaçando com cacetete, chamando as pessoas de vagabundos . Vi policiais impedindo as pessoas de transitarem pelas ruas . No que transformaram o nosso Sao João ,a nossa guerra de espadas , é revoltante , lamentável ,a jovem Fabíola foi vítima daqueles que estavam ali cumprindo ordens do ministério público ,mas logo eles que são os responsáveis por proteger a população ? E agora ,quem a população de senhor do Bonfim tem para recorrer em casos de abuso de autoridade, desrespeito para com os nossos direitos de cidadão?

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