Estádios vazios colocam em xeque Brasil como país do futebol

[Estádios vazios colocam em xeque Brasil como país do futebol]

No livro “Futebol ao sol e à sombra”, Eduardo Galeano diz que não há nada menos vazio que um estádio vazio, nada menos mudo que as tribunas sem ninguém. Na Copa América disputada no Brasil, apesar dos gritos de gol, as cenas de milhares de cadeiras vazias nos estádios foram constantes, principalmente na primeira fase.

Nessa etapa, a média de comparecimento aos estádios foi de 29,3 mil, uma taxa de ocupação inferior a 50%. O jogo de menor público, entre Equador e Japão, teve 9.729 pessoas em um Mineirão com capacidade para 60 mil —a maioria não pagou ingresso.

Com o aumento de público na fase de mata-mata, a média por partida subiu para 32,6 mil, e a ocupação, para 57,8%.

As cadeiras vazias são uma imagem diferente dos estádios, que costumavam ser “caldeirões sociais” no futebol brasileiro no século 20.

Imitando a estrutura de teatros, com lugares para geral, arquibancada e camarotes, descreviam a composição da própria sociedade, segundo o escritor e professor aposentado da USP José Miguel Wisnik.

“Nós assistimos nos últimos tempos à transformação do estádio em um recesso dos abonados. Ele segue uma lei de mercado. É disputado por quem tem mais dinheiro para pagar e põe os preços lá em cima. Isso significa um processo de mercantilização do futebol, que faz parte de um processo geral de mercantilização da sociedade”, afirma.

A Conmebol considerou positivo o balanço dos números do torneio. A renda bruta total da primeira fase foi de R$ 110 milhões. No jogo de maior bilheteria, a estreia do Brasil contra a Bolívia, no Morumbi, a arrecadação foi de R$ 22 milhões. Na semifinal entre Brasil e Argentina, no Mineirão, chegou a R$ 18,7 milhões.

O tíquete médio da abertura foi de R$ 485, embora houvesse entradas disponíveis a R$ 190, R$ 290, R$ 390 e R$ 590. Os pacotes hospitalidade, entre R$ 1,6 mil e R$ 4,3 mil, alavancaram o valor.

Para o ex-jogador e colunista da Folha Tostão, o interesse do público pela seleção brasileira foi afetado pela falta de bons resultados recentes.

“Esse chavão de que o brasileiro adora futebol não é bem assim. O brasileiro gosta da competição, não é um apreciador do futebol. Falta uma cultura, que a própria imprensa não colabora [para criar], para fazer as pessoas gostarem do jogo. Elas gostam de levar bandeira, meio superficialmente, como um jogo de entretenimento”, diz.

Professor da FGV, Pedro Trengrouse, especialista em gestão de esportes, diz que a política de ingressos da Conmebol deveria ser revista.

“Até do ponto de vista plástico, para as transmissões, é melhor ter estádio cheio do que vazio. É fundamental que haja mais sensibilidade na política de ingressos, seja na precificação, seja na mobilização. A exemplo do que se fez na Copa das Confederações da África do Sul [2009], quando a Fifa distribuiu ingressos”, afirma.

Mesmo com os espaços vazios nos estádios, a Conmebol sempre descartou mudar a sua política de preços durante o torneio. A próxima edição da Copa América será em 2020, quando Argentina e Colômbia terão a missão de atrair torcedores ao evento.

 

Fonte Bocão News

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