
Quem não gosta de ver a casa limpa e arrumada? Há quem prefira encontrar tudo pronto, mas também tem aqueles que são apaixonados pela limpeza e não negam. Pois está na hora de ligar o alerta, afinal uma pesquisa recente feita na Noruega revelou que o contato prolongado com produtos de limpeza pode ser tão danoso ao corpo quanto fumar 20 cigarros por dia.
“Quando soube da pesquisa e contei aqui em casa, mainha me olhou assustada! Mas eu disse: ‘Não se preocupe que não vou parar”, riu a enfermeira Caroline Matias, 30 anos, que não esconde a paixão pela faxina. “Amo, por Deus! O dom que não tenho na cozinha, tenho na arrumação. Sou extremamente organizada e perfeccionista”, justifica Carol que lava prato desde criança, o que já “era uma diversão”.
A enfermeira diz que “a alucinação para deixar tudo arrumado” acontece todos os dias, mas ela alterna a faxina para não ter contato diário com produtos mais fortes como a água sanitária. E nem o fim de semana escapa, afinal limpar a casa em um dia de sábado “não é dia perdido, é um dia encontrado”, afirma com bom humor. “Aqui em casa não tem faxineira, não precisa. Dou conta”, garante Carol, que mora com os pais enquanto não marca o casamento com o noivo.
A mãe não se importa, afinal também é apaixonada pela limpeza. Entrar em casa? Só tirando o sapato. “Aqui ninguém anda sem sandália, mas tem a sandália para dentro de casa e outra para fora, porque não adianta passar o dia limpando e sujar”, explica Carol. “Minha mãe tem alergias crônicas a poeira, então a gente pesa a mão. Mas se não for prazeroso, não consegue não”, pondera.
Apaixonada
Prazer é a palavra que a técnica em contabilidade Maria das Graças Costa, 58, usa para definir sua rotina com a limpeza. “Sou apaixonada e digo que em outra encarnação fui faxineira! Me sinto bem. Limpo por prazer mesmo. Não me incomodo, sabe?”, garante Gal que também não exclui o sábado e o domingo da programação. “Se for final de semana tomo minha cervejinha”, conta rindo.
Ou seja, limpar e organizar a casa nunca foi um problema. Pelo contrário. “Já fui pior e até achava que tinha TOC [Transtorno Obsessivo- Compulsivo]. Chegava na casa dos outros e perguntava se tinha uma vassourinha… Mas trabalhei isso comigo!”, gargalha. Porém, mesmo com a empolgação, Gal garante que toma cuidados.
Com histórico de rinite alérgica, sua preocupação ganhou fôlego depois de ver a faxineira da casa de sua esposa passar mal depois de jogar água sanitária em excesso no box do chuveiro. Por isso, Gal coloca apenas a quantidade necessária quando vai limpar sua casa, evitando produtos perfumados demais. “Tenho cuidado, mas existem pessoas que não têm. É bom limpar, mas não precisa exagerar, né?”,previne.
Spray x cigarro
Pois é justamente esse alerta que faz a pesquisa realizada pela Universidade de Bergen, da Noruega. Depois de acompanhar, ao longo de 20 anos, mais de 6 mil homens e mulheres com a idade média de 34 anos, o grupo de pesquisadores constatou que o uso prolongado de sprays de limpeza durante a faxina provoca a inalação de substâncias químicas que danificam o organismo tanto quanto fumar 20 cigarros por dia.
“Foi visível a taxa de declínio da função pulmonar com o passar dos anos”, declarou o professor Cecile Svanes, principal autor da pesquisa. “As pequenas partículas dos sprays podem permanecer no ar por horas após a limpeza e podem viajar profundamente nos pulmões, causando infecções e envelhecimento dos pulmões”, explicou em artigo publicado no jornal da Sociedade Torácica Americana.
Pneumologista há 29 anos, o médico baiano Sergio Jezler, 51, destaca que já se tinha conhecimento de que alguns produtos de limpeza que contêm os chamados Compostos Orgânicos Voláteis (COV) podem causar problemas a curto prazo.
“Mas esse estudo mostrou uma coisa nova: que também tem um efeito a longo prazo na perda da capacidade respiratória. Como? Provavelmente essas substâncias inflamam os brônquios e as vias aéreas, levando a uma lesão permanente, assim como o cigarro faz”, explica Dr. Jezler.
Outro destaque feito pelo médico é que boa parte dos produtos de limpeza formados pelos COV irritam a mucosa e podem provocar danos de vias aéreas, como rinite, tosse, asma e lesão pulmonar crônica, além de conjuntivite alérgica e alergia na pele. “É bom lembrar que esses compostos estão não só em produtos de limpeza, mas também de estética para o cabelo, detergentes, aromatizadores de ambiente…”, alerta.
Homens x mulheres
Um aspecto que também chamou a atenção na pesquisa foi o baixo número de homens trabalhando com limpeza: apenas 57. “Preciso ser honesto: a maioria dos meus amigos é mal acostumada porque, provavelmente, na casa deles viveram em condições parecidas com a minha: alguém que fizesse a faxina. Geralmente uma mulher. Então eles ficavam mal acostumados”, revela o geólogo Lucas Blanes, 29.
Apesar da autocrítica, Lucas conta que tentou reproduzir o ambiente de limpeza em que foi criado nas casas onde morou com amigos, sozinho, ou com a namorada. “Gosto de manter tudo limpo e organizado. Normalmente eu limpava os banheiros e ela ficava com a sala e o quarto. Dividimos conforme a afinidade de cada um”, garante Lucas, que hoje mora sozinho por causa do trabalho em outra cidade.
Namorada de Lucas, a advogada Luísa Abreu, 25, conta que ele “era o principezinho da família” e tinha quem fizesse tudo, então teve que ensinar algumas coisas. “Mas ele gosta muito de limpeza também”, reconhece. “Então tem que saber fazer”, sorri a advogada que adora o ambiente limpo e organizado, porque se sente melhor e “o dia a dia fica mais fácil”.
Por isso “esse estudo é interessante, porque trata de um tema corriqueiro que é a limpeza de uma casa”, destaca Dr. Jezler, enquanto reforça o alerta.
“Ele mostrou que mesmo as atividades cotidianas podem estar inseridas no contexto de perigo à saúde. Se você não tiver certos cuidados ao limpar uma casa, aquela atividade do dia a dia pode se tornar uma ameaça”, previne.
Dicas de proteção
Evite usar Spray
O equipamento de limpeza faz com que pequenas partículas permaneçam no ar por horas, po- dendo entrar nos pulmões, causando infecções e danos irreversíveis. “Muitos desses produtos não devem ser respirados, pois são feitos com ácidos fortes”, destaca a professora Vera Cancio, formada em química com mestrado em Quimica Analítica e doutorado pela Universidade de Liverpool.
Olhe o rótulo
Muitos produtos de limpeza são formados pelos Compostos Orgânicos Voláteis (COV), como formaldeídos, acetona e amônia, que irritam a mucosa e podem provocar danos como rinite, tosse, asma, lesão pulmonar crônica e alergias. Esses compostos também estão em produtos de estética e aromatizadores de ambiente.
Deixe a casa ventilada
Usar máscara durante a faxina é uma solução? “Não há nada comprovado, então o melhor é manter o ambiente aberto e ventilado”, destaca o pneumologista baiano Sergio Jezler. Para além dos danos respiratórios, os produtos de limpeza podem provocar alergias na pele, então o recomendado é usar luvas.
Mude o hábito de limpeza
Uma forma alternativa de fazer a limpeza da casa é usando apenas água e sabão do tipo detergente. “Não é necessário usar esses produtos com compostos orgânicos voláteis para limpar uma casa. Então, considerar outras formas de limpeza, evitar produtos com química pesada é bom”, indica Dr. Jezler.
Fique atento
Produtos de limpeza não devem ser misturados, pois reagem e produzem gases e compostos altamente prejudiciais à saúde, destaca a química Vera Cancio. Substâncias com cloro e soda cáustica deve ser manipulados com proteção do corpo e das vias respiratórias. Se tiver contato, lavar com água corrente e procurar socorro médico.
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Entenda a pesquisa
Números
Um grupo de pesquisadores do Departamento de Ciências Clínicas da Universidade de Bergen, da Noruega, acompanhou ao longo de 20 anos um total de 6.235 mil pessoas, entre homens e mulheres com uma média de 34 anos.
Mulheres
A pesquisa revelou que as mulheres que faziam limpeza regularmente no trabalho ou em casa apresentaram um declínio maior da capacidade pulmonar, em comparação às que não faziam a faxina doméstica.
Exames
Dois exames foram usados no item anterior: a quantidade de ar que uma pessoa consegue expelir em um segundo, que diminuiu em 3,6 ml/ano nas domésticas e 3,9 ml/ano nas profissionais; e a quantidade de ar total que o paciente pode expelir, diminuindo 4,3 ml/ano nas domésticas e 7,1 ml/ano nas profissionais.
Asma
O estudo também mostra que as pessoas que fazem limpeza têm 40% mais risco de desenvolver asma do que outras.
Correio da Bahia



