A decisão do cantor e sanfoneiro Flávio José de anunciar que ficará fora do São João da Bahia em 2026 expõe o esvaziamento gradual da identidade cultural da maior festa popular do Nordeste.
Ao reagir à recomendação do Ministério Público da Bahia (MP-BA) para redução de seu cachê, o artista fez um desabafo público afirmando sentir-se desrespeitado ao ver representantes legítimos do forró terem seus valores questionados, enquanto artistas sem ligação direta com a tradição junina seguem recebendo cifras elevadas dos cofres públicos.
“Enquanto outros artistas que nada tem a ver com forró ganham rios de dinheiro. É de um desrespeito sem tamanho. Por esse motivo não irei à Bahia”.
A ausência do artista pode impactar cerca de 15 cidades baianas.
A crítica de Flávio José toca em uma ferida aberta. A trilha sonora dos festejos juninos, historicamente marcada pela sanfona, pelo triângulo e pela zabumba, vem perdendo espaço para outros gêneros musicais. Tornaram-se cada vez mais raros os palcos que garantem protagonismo ao forró tradicional, patrimônio afetivo e cultural do povo nordestino.
O forró de Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Flávio José, Jorge de Altinho, Adelmário Coelho, Alcymar Monteiro e tantos outros parece, para muitos gestores públicos, ter se tornado “démodé”.
É evidente que a cultura é dinâmica e que novos ritmos devem ter espaço. O arrocha, o sertanejo e outros gêneros conquistaram público e possuem relevância no mercado. Mas uma coisa é ampliar a diversidade musical. Outra, completamente diferente, é substituir a essência da festa.
Os números do Painel de Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público da Bahia mostram exatamente essa mudança de rumo.
Até o momento, os cantores de arrocha Netto Brito e Devinho Novaes lideram o ranking de artistas mais contratados para o São João baiano de 2026. Netto Brito aparece com cachês variando entre R$ 220 mil e R$ 300 mil. Devinho Novaes recebe R$ 300 mil por apresentação.
Na sequência aparecem outros nomes do arrocha que dominam as programações municipais: Pablo, com cachês que chegam a R$ 704 mil; Tayrone, com até R$ 380 mil; e Thiago Aquino, alcançando R$ 370 mil.
A comparação com 2025 revela um mercado cada vez mais inflacionado. Devinho Novaes registrou aumento de R$ 50 mil em seu maior cachê. Tayrone teve incremento de R$ 80 mil. A banda Toque Dez, que liderava o ranking de contratações no ano passado, elevou seu teto de R$ 350 mil para R$ 500 mil, um crescimento de R$ 150 mil. Já Netto Brito teve valorização próxima de R$ 100 mil em relação ao maior cachê recebido anteriormente.
Os números demonstram a força comercial do arrocha, mas também reforçam um questionamento inevitável: por que artistas ligados diretamente à tradição junina precisam justificar seus valores enquanto atrações de gêneros alheios ao São João se tornam as principais estrelas da festa?
É claro que o Ministério Público cumpre um papel legítimo ao fiscalizar gastos públicos e buscar economia para municípios que enfrentam dificuldades financeiras. A transparência é necessária e o controle dos recursos públicos também.
Entretanto, a discussão não pode ficar restrita à matemática dos contratos. Existe uma dimensão cultural que não pode ser ignorada.
O risco é que o Nordeste caminhe para celebrar o São João sem o protagonismo do forró, uma contradição que seria comparável a realizar o Carnaval de Salvador sem o axé ou uma vaquejada sem aboio.
Quando artistas associados ao São João, por mérito histórico, precisam disputar espaço em sua própria casa, algo está fora do lugar.
Esse é o sentimento compartilhado por muitos músicos, produtores culturais e amantes do forró: a sensação de que a tradição nordestina está sendo empurrada para o segundo plano justamente na festa que deveria celebrá-la.
O São João sempre foi muito mais que um evento. É memória, identidade, história e pertencimento. Transformá-lo apenas em um mercado de shows pode até gerar grandes públicos, mas cobra um preço alto, pois enfraquece uma das maiores manifestações culturais do Nordeste Brasileiro.
Ação do Ministério Público
Segundo o Ministério Público da Bahia já foram firmados acordos para redução de valores em cerca de 180 contratos, gerando uma economia estimada em R$ 8,8 milhões aos cofres públicos.
Artistas como Toque Dez, Solange Almeida, Igor Kannario, Batista Lima, Adelmário Coelho, Caviar com Rapadura e Forró dos Plays já aderiram às reduções.
A justificativa do MPBA é que foi preciso adequar os gastos à realidade financeira dos municípios sem comprometer a realização das festas.
O órgão se manifestou sobre a reação de Flávio José e disse que o cachê do cantor sofreu aumento de R$ 100 mil no último ano, informação que contradiz a versão do artista.
“Até o momento, foram enviadas recomendações a mais de 100 municípios, incluindo aqueles que anunciaram contratações do artista Flávio José, pelo valor de R$ 350 mil, um aumento de R$ 100 mil em relação ao ano passado”, informou o MP em nota enviada ao BNews.
O órgão esclareceu ainda que “tem encaminhado recomendações aos Municípios para que eles adequem as contratações de atrações artísticas aos parâmetros estabelecidos pela Instituição e Tribunais de Contas (TCM e TCE) e tomem como referência a média dos valores pagos aos artistas em 2025, atualizados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). O objetivo é evitar aumentos excessivos de cachês custeados com recursos públicos”.
De acordo com o órgão de controle, tanto o MPBA quanto os Tribunais de Contas, estabeleceram critérios técnicos que consideram a notoriedade e a projeção dos artistas, reconhecendo que atrações de maior relevância no mercado podem justificar valores contratuais superiores aos parâmetros médios.
Redação PNB, por Sibelle Fonseca