
foto microscópica mostra célula humana sendo infectada pelo Sars Cov-2, o novo coronavírus
(foto: NIAID via Nasa)
Anticorpos. Imunidade. Estudos e pesquisas. Essas, talvez, sejam as palavras que mais estão em evidência nas últimas semanas em todo o mundo, e que giram em torno de um grande debate entre especialistas e pesquisadores da área de saúde, no que diz respeito a pandemia da covid-19, que já infectou mais de 13 milhões de pessoas e matou mais de 500 mil em todo planeta.
Entre as tantas dúvidas que cercam o assunto, a ciência, hoje, busca responder uma das principais indagações: quem já foi infectado pela covid-19 está realmente imune à doença? Salvador Carvalho, médico da família e comunidade, esclarece que ainda é cedo para tirar conclusões, tendo em vista que se trata de uma doença recém descoberta – há menos de um ano – e que, portanto, as pesquisas ainda estão em andamento.
Grande parte desses estudos estão focados em trazer respostas sobre os anticorpos.
Mas, afinal, o que são?
Os anticorpos podem ser considerados uma importante arma de defesa que o sistema imunológico humano desenvolve frente e alguns patógenos, como vírus e bactérias.
“Quando o ser humano entra em exposição com algum agente, ele desenvolve respostas, que se transformam em anticorpos, que servem para que, em um segundo momento, se o ser humano voltar a ter contato novamente com esse vírus ou bactéria, possa ter uma resposta melhor. Estamos ouvindo muito isso agora porque, quando existem pandemias, precisamos entender que só haverá um controle mais adequado, quando parte da população tenha esses anticorpos no organismo, ou seja, que parte da população seja imunizada de alguma maneira“, explica Salvador Carvalho.
Essa imunização, segundo o médico, pode acontecer por contato direto, que é o que chama-se de imunização de rebanho, ou seja, a infecção de grande parte da população, o que, na teoria, desenvolveria uma imunidade coletiva, prática que chegou a ser defendida pelo Reino Unido, e também a imunização por vacinas.
Hoje, diversas vacinas experimentais estão sendo produzidas e testadas em diversos países do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem 160 iniciativas para desenvolvê-la. O grande dilema dos pesquisadores, hoje, é produzir anticorpos que possam atuar como neutralizadores do vírus. Algumas já estão avançadas [veja o andamento de algumas abaixo].
“A vacina, de fato, é que fará com que a gente respire um pouco melhor, podemos dizer assim“, acrescentou Salvador Carvalho.
Porém, enquanto as vacinas ainda estão em fase de teste, os cientistas também buscam respostas para o questionamento que foi colocado acima:
Quem já foi infectado pela covid-19 está realmente imune à doença?
O médico Salvador Carvalho alerta que essa resposta ainda é inconclusiva.
“Infelizmente, por se tratar de uma doença muito nova, não temos como afirmar se essas pessoas estão imunes ou não. Teoricamente, todo mundo que tem contato com algum vírus, desenvolve anticorpos, ou seja, teoricamente a pessoa estaria imune. No caso a covid-19 ainda não se tem certeza pois é recente, não tem nem um ano [de sua descoberta]. Existe casos de pessoas que se reinfectaram e, infelizmente, vieram a óbito inclusive, isso aconteceu na Europa. Porém, a maioria dos casos, pelo que a gente está acompanhando, não há essa reinfecção, então a gente acredita que exista sim essa imunidade na maioria das pessoas, mas não é possível afirmar isso ainda, pois não existem estudos que comprovem isso“, disse.
Ou seja, os pesquisadores ainda têm dúvidas se realmente a imunidade é criada por todos que foram infectados pela covid-19, e se sim, por quanto tempo, de fato, protegem o corpo humano. Sem respostas para todas essas dúvidas, pacientes que já foram infectados preferem manter a rotina de cuidado. É o caso da Thais Cunha, 27 anos, que foi diagnosticada com a infecção, conforme apontou os testes rápidos realizados pelo município e um outro particular.

(foto: arquivo pessoal)
“Cheguei a pensar que seria um alívio ter sido infectada, mas, diante de tantas informações incertas, tenho medo de ser infectada novamente. Minha filha não foi testada pelo SUS, e eu tenho medo de trazer o vírus em minha roupa, meus objetos, pois, caso ela não tenha tido, pode ser infectada. Por isso minha rotina continua sendo com precauções, utilizando máscara e álcool gel. Também tenho tomado muita vitamina para fortalecer o sistema imunológico, pois continuo com tosse e cansaço físico, até mesmo deitada. Qualquer esforço é um desconforto grande”, disse Thais.
Na analista de qualidade, a doença se manifestou de forma sintomática, ou seja, ela apresentou alguns sintomas, que, segundo ela, perduram até hoje. Thais teve a cura clínica declarada na última terça-feira (14).
“Continuo amedrontada do mesmo jeito que antes. É uma doença que mexe muito também com o psicológico. Não é difícil cair numa depressão“, desabafou.
A jornalista do PNB, Yonara Santos, também não flexibilizou sua rotina de cuidados. Ela foi diagnosticado com a doença no dia 9 de junho ao participar do mapeamento do status imunológico realizado pela Prefeitura de Juazeiro, no Norte da Bahia, com os profissionais da imprensa.
O teste rápido deu IgM [anticorpo produzido na fase aguda da doença] reagente, ou seja, acusou infecção pelo vírus. O IgM pode aparecer tanto nas primeiras 24 ou 72 horas e até em 10 dias após o contato. No caso da covid-19, esse IGM só começa a aparecer a partir do oitavo dia e o melhor dia para identificá-lo no sangue é a partir do décimo dia, conforme explicou Salvador Carvalho.
“É por isso que a maioria dos testes são realizados a partir desse período, pois se fizer antes não vai identificar nenhum desses anticorpos, e pode acontecer o que chamamos de falso negativo, ou seja, a pessoa pode ter o vírus e não ter apresentado ainda os anticorpos, já que o organismo demora alguns dias para desenvolver esses anticorpos, no caso da covid-19”, acrescentou.

(foto: arquivo pessoal)
Após a confirmação, a profissional, que teve sintomas leves, ficou em isolamento domiciliar e recebeu alta após ser avaliada por um médico da rede municipal de saúde. Yonara também teme ser reinfectada pelo vírus.
“Eu tenho muito medo de ser reinfectada e acabar desenvolvendo uma forma grave da doença. Esse vírus ainda é um desconhecido muito perigoso. Nós não temos todas as respostas sobre ele, por isso o melhor mesmo é continuar se cuidado. Eu continuo trabalhando de casa, evitando ao máximo sair, entrar em transporte público, ou em outros lugares movimentados. E quando preciso por algum motivo sair, sempre faço o uso máscara e do álcool em gel. É o melhor que a gente pode fazer hoje por nós e pelo próximo”, disse.
Pesquisadores da King’s College de Londres, uma universidade britânica, recentemente anunciaram um estudo que aponta que a carga de anticorpos de pessoas que se curaram do novo coronavírus pode cair drasticamente ao longo do tempo. A pesquisa também sugere que a reinfecção é possível, e que essa pessoa que foi reinfectada também poderia voltar a transmitir a doença. A OMS coletou outras pesquisas que vão na mesma direção, mas ainda acha que não dá para confirmar nada.
Diante das incertezas, o médico Salvador Carvalho, que também foi infectado pela doença causada pelo novo coronavírus, alerta:
“Os pacientes que tiveram a covid-19 precisam, e muito, manter a rotina de cuidados. Primeiro pois a gente não sabe se existe ou não, comprovadamente, esse imunidade. Segundo que essa pessoa pode até não adoecer, mas pode se tornar um vetor. Ou seja, ela pode adquirir ou ter o vírus nas mãos, nas vias respiratórias, por exemplo, e transmitir. A pessoa que já teve precisa se cuidar, pois se ela relaxar, ela pode transportar isso para dentro de casa e outros ambientes.“
O médico também é enfático ao citar que o relaxamento total das medidas de isolamento social ainda é imprevisível.
“Não sabemos [quando vamos sair do isolamento]. Mas só teremos uma tranquilidade apenas depois de termos essa vacina, que seja eficaz, e que faça efeito“, reforça.
Vacinas em andamento
A Rússia anunciou no domingo (12) que concluiu a primeira fase de testes de uma vacina que começou a analisar no mês passado. O governo disse que os primeiros resultados foram satisfatórios e que, caso os testes continuem tendo bons resultados, a produção para imunização poderia começar já em setembro. Uma outra vacina experimental, que está sendo desenvolvida pela empresa americana de biotecnologia Moderna, também mostrou eficácia ao induzir respostas de anticorpos contra o coronavírus em todos os 45 participantes de um teste em humanos, mostrou um artigo publicado na terça-feira (14).
Outra vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, do Reino Unido, e testada no Brasil, poderá ter o registro liberado em junho de 2021, de acordo com a reitoria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A OMS classificou a vacina de Oxford como a mais adiantada no mundo e, também, a mais avançada em termos de desenvolvimento.
Na quarta-feira (15), cientistas de universidades nos Estados Unidos e na Alemanha identificaram dois anticorpos potentes em bloquear a infecção pela covid-19 e que agem impedindo que o vírus se conecte às células humanas e entre nelas. A pesquisa com a descoberta foi divulgada na revista científica “Nature”, uma das mais importantes do mundo.
Os anticorpos (COV2-2196 e COV2-2381) foram capazes de reduzir a inflamação no pulmão, a carga viral e a perda de peso de camundongos infectados pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2). Em macacos-rhesus, o uso de cada um dos anticorpos protegeu os animais de serem contaminados pelo vírus. Juntos, esses resultados sugerem que os anticorpos, sozinhos ou em combinação, são candidatos promissores para a prevenção ou o tratamento da covid-19, segundo os pesquisadores no estudo.
Covid-19 em Juazeiro e Petrolina
As cidades de Juazeiro, na Bahia, e Petrolina, no Pernambuco, apresentam, de acordo com os boletins divulgados pelas Secretarias Municipais de Saúde ontem (16), respectivamente, 1.666 e 1.785 casos confirmados de covid-19, totalizando, portanto, 3.451 pessoas infectadas pelo novo coronavírus. Desse total, 1.237 pessoas já estão com a cura clínica declarada, que é registrada quando o paciente, após 14 dias de isolamento, não apresenta mais sinal ou sintoma da doença.
Juazeiro soma, até o momento, 45 mortes pela doença, enquanto Petrolina soma 41 óbitos.
*com informações publicadas pelo G1 e EL País Brasil
Da Redação por Thiago Santos


