Sempre Aos Domingos: “Eu tive uma infância feliz e nem existia celular”, por Sibelle Fonseca

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Quando vejo uma criança agarrada ao celular ou presa a televisão, volto a minha infância. Um tempo em que não se dava valor a grife, não havia shopping center, jogos virtuais, redes sociais, Mc Donalds, Coca-cola, Danoninho, nem dancinha TikTok e as meninas se vestiam como crianças.

Não é saudosismo, caretice e nem a pieguice de dizer que “no meu tempo era melhor”. Até porque o meu tempo é este. É o agora. O passado não me pertence e o futuro, só a Deus. E celebro sim as coisas boas da contemporaneidade, principalmente a intolerância de grande parte das pessoas à cultura da violência e discriminações. Valentes que combatem a pedofilia, o racismo, o capacitismo, a misoginia, as desigualdades e direitos violados. Essa raça tem mesmo que ser exposta e cancelada.

Mas fico pensando o quanto o sistema é perverso com as crianças. Elas não jogam mais com bolas de meia, nem ludo, não brincam de bingo, não soltam pipas e seguem a lógica de mercado. Adestradas pelo capitalismo selvagem, que atinge nossas crianças em cheio.

A maioria só conhece leite em pó e jamais viu uma vaca sendo ordenhada. Não sobe em árvores, jamais brinca de roda, de picula e nem vai a um circo destes mais fuleiros, onde a simplicidade é pedagógica.

Eu tive uma infância bem feliz. Não havia sofisticação, mas tínhamos tempo para brincar de verdade, experienciar, compartilhar momentos com outras crianças, sentir o abraço da melhor amiga, andar de mãos dadas com a colega, ficar de mal e de bem, descortando os  dedos para fazer as pazes cara a cara. Tudo no mundo real.

Brinquei de casinha de bonecas e tive um bonequinho especial chamado “Bimbim”. Brinquei de médico, de salada de frutas, de guardar o anelzinho bem guardadinho e de se esconder. Brinquei de roda, de Amarelinha, de Boca de Forno e de Chicotinho-Queimado. Fui rica e pobre de Marré Desci. Cantei, zangada, a rosa que o cravo despedaçou e tirei muitos amigos do fundo do mar, como se eu fosse um peixinho.

Cai de bicicleta e de árvores. Na roça do meu avô, o Açúde de Pedras, tirei umbu do pé, tomei leite no curral, escovei os dentes num copo porque não havia água de torneira. Ouvi causos de assombração, dormi com medo do escuro, depois de apagados todos os candeeiros, e limpei o bumbum com malva. Lá também assistia, com o coração apertado, a matança dos bodes que ficavam dias estirados, eram conservados com sal e assim que consumidos, outros eram abatidos.

Fui ajudante da igreja e, ainda menor que o púlpito da catedral, já lia o folheto da liturgia. Fiz a primeira comunhão com direito a foto de véu como lembrancinha. Fiz aquela foto escolar com a bandeira do Brasil ao fundo. Escrevi 200 vezes e, por várias vezes, como castigo da professora, “Eu devo me comportar em sala de aula”. Me fiz de doente para ter o direito de tomar Guaraná e comer maçã. Merendei ovo cru batido com farinha e açúcar, borra de manteiga e meu iogurte era um prato de coalhada das boas. Participei dos “dramas” que minhas irmãs mais velhas faziam no quintal e chorei ouvindo as histórias contadas por meu pai, sobretudo a de uma tal garça que teve os filhos comidos por um socó.

Dei gargalhadas até fazer xixi dos palhaços dos circos improvisados que chegavam em Juazeiro. Tomei peia por fugir de casa e correr atrás do homem da perna de pau que anunciava que teria espetáculo na cidade, sim senhor.

Fiz xixi nas calças de medo nos trens fantasmas. Minha Disney eram os parques que chegavam de ano em ano, com suas rodas gigantes. Eram a Praça do Jacaré, com sua fonte luminosa e a da Bandeira, com uma ladeirinha charmosa, tipo uma pontezinha, que foi demolida pela irresponsabilidade do prefeito de uma época aí. Aquela mesma que o pessoal da minha geração tirava foto.

Não achem que estou fazendo apologia a pedagogia da surra. Mas no meu currículo de criança tem também vários 12 bolos em cada mão com a cruel escova de lustrar sapatos. Umas cinturadas por eu ter furtado um chocolate no Supermercado Pinguim. Meu pai me fez ajoelhar aos pés do gerente, pedir perdão e pagar pelo bombom roubado. Foi marcante. Até acho que ali aprendi a maior lição de honestidade e de humildadei.

Catei caju na Ilha de Nossa Senhora e me banhei escondido nas águas do Velho chico. Fugi para a Ilha do Fogo no horário da aula de educação física. Ouvia minha avó cantar e fui aprendendo uma cantigas de amor. Ganhei de minha mãe a assinatura da Revista Amiguinho e me apaixonei pela leitura. Mas me frustrei porque não tinha festa de  aniversário e poucas vezes ganhei o presente que queria.

Fui a baliza nos desfiles de Sete de Setembro e do 15 de julho. Fui uma rosa no desfile dos 100 anos da minha cidade Juazeiro. Fui anjo na procissão de Nossa Senhora das Grotas e a menina má na peça de teatro da escola. Fui Calouro nos shows da 28 de setembro e declamei poemas na Sociedade Apolo.

Tomei Guaraná Antártica na Primavera e na Kisabor, com meu pai e minhas irmãs. Vez em quando, ganhava um trocado para tomar o sorvete da “Delícia”, na 28, e na Iglu, em Petrolina.

Fui as manhãs de sol no Country Clube. Saia para almoçar fora aos domingos e todos os dias as refeições eram feitas com todos à mesa, e meu pai na cabeceira. Tomei carreira de Maria polpa de pau, de João doido e de Guiomar, a que mais eu temia. Via  “Legal” cheirando gasolina nos poucos postos de Juazeiro.

Tive catapora, caxumba, hepatite. Inventei dor de cabeça na escola, só para usar óculos de grau, o que eu achava um chame. Desejei quebrar uma perna ou um braço, só para engessar, o que eu também achava um charme. Tive sangue doce para piolhos, fiz bolinhas de cuspe e preguei chicletes em baixo da mesa de jantar.

Tirei 10 na escola, na maioria das vezes. Tirei nota “c”, a pior em comportamento, quase sempre. Fui expulsa do Colégio das Freiras por ser “subversiva”(termo que eu nunca nem tinha ouvido).

Eu tive uma infância feliz. Tenho todas as marcas dela. A da vacina de BCG, ornamenta meu braço esquerdo. Nas pernas e joelhos, cicatrizes das quedas que me ensinaram a levantar. Guardo até uma deixada pela mordida do cachorro de Drubi que me atacou no caminho ao instituto Imaculada Conceição, minha primeira escola. Tenho marcas felizes na minha alma de criança. Algumas úlceras também, que doeram, mas me ensinaram resiliência.

Cada uma destas marcas têm uma história. Marcas das expectativas frustradas e superadas, o que me ensinou a ser forte. Alguns traumas (ainda pra resolver), que estimulam a eterna busca. Marcas dos valores e princípios passados pelos meus pais, que me dignificam. Marcas das vezes em que me rebelei, contestei, subverti, o que me ensinou o enfrentamento e a resistência. Marcas suaves no meu coração, do afeto, da poesia e das cantigas da infância que vivi.

Foi uma fase saudável, feliz, bem vivida, e não existia celular.

Foi assim que me compus para as fases da vida. Não que eu seja uma pessoa sem feridas emocionais, sem cicatrizes na alma, mas as emoções bobas vividas na infância, tornou-me essa mulher, que leva a vida na meninice. Que leva a sério somente o necessário. E não aceita rótulos e definições. Que chega aos 56 gostando de ver suas rugas, as linhas de expressão, as pintinhas senis e as mexas de branco nos cabelos. Ver o tempo me esculpindo, é uma honra! Acho que tudo isso tem a ver com uma infância bem vivida, com uma vida bem vivida. De uma pessoa que não dá valor nenhum a coisas, a títulos, a status e a tanta futilidade mais. Uma pessoa que necessita do outro para se encontrar, crescer e ser feliz!

Eu sou feliz assim. No mundo real, no profundo, no inexorável.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, mãe de nove filhos, sendo 5 de 4 patas, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e animais, uma amante da vida e de gente.

1 COMENTÁRIO

  1. “A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”. Gabriel Garcia Marques já havia apontado o caminho, e Sibelle Fonseca mostra agora a direção da história quando contada com humanismo e paixão.

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