“Entre o sal e as raspaduras; memórias do velho chico” Por João Gilberto Guimarães Sobrinho

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A primeira barca de que se tem notícias por aqui foi a Barca de Passagem do Juazeiro, construída por ordem do Capitão-General Duarte Sodré Pereira, aproximadamente no ano de 1731. Não se sabe quem a construiu e nem onde, mas o que se pode afirmar com certeza é que essa barca representou o primeiro grande impulso civilizatório do que viriam a ser as cidades de Juazeiro e Petrolina. O interesse inicial, sem dúvidas, foi a facilitação do comércio, permitindo a travessia do gado e das mercadorias que vinham não apenas da capital, mas também de outras regiões.

Porém, não é do gado que falaremos aqui, e sim do salgado e do doce. O “sal da terra”, como era conhecido, foi talvez o primeiro grande negócio da região do Médio São Francisco. Com as cheias do rio e a consequente vazante, formavam-se várias lagoas ao longo do trecho do rio, e era dessas lagoas que se extraía o sal. Esse produto, essencial para a conservação de alimentos e outros usos, era recolhido pelos barranqueiros, subia o rio através dos remeiros e era vendido ou trocado por rapaduras e outras mercadorias em cidades rio acima como por exemplo Januária, nas Minas Gerais. As mercadorias adquiridas eram comercializadas com esmero, ao sabor da corrente do rio como vemos no relato do ex-remeiro João Felix:

“Às vezes, nós trazíamos dois, três mil fardos de rapadura. Chegava…Tinha dono de depósito que comprava aquilo tudo de uma vez. Às vezes, se tinha quinhentos fardos, o Sr. Chegava e dizia: “Olha! Eu quero duzentos! Você faz a tanto…Eu fico com duzentos fardos!” O barqueiro ia, fazia a conta: duzentos fardos…D´pra mim ganhar tanto…”Põe pra fora aí menino” Entregava lá. O sujeito pagava; ia embora. Não vendia só um fardo, não…Vendia de uma(rapadura) até a barca toda, se quisesse comprar…Vendia uma, até meia, vendia. Chegava…às vezes, a gente chegava num lugar daquele. Ou, às vezes, a gente ia passando…Vinha um canoeiro…Um roceiro, sabe? Por que tinha muitos não é? Chegava e dizia: “Ô moço, me vende uma banda de rapadura aí!” A gente… Porque, quando eles fazem a rapadura, eles fazem elainteira, e também eles fazem ela dividida, não fazem? Vocês já viram isso? Pois é… A gente às vezes, quando não tinha, assim, ela dividida, a gente pegava uma faca, media ela assim, serrava no meio, tirava uma banda, vendia pro canoeiro.” ***

Esse comércio do sal que subia o rio e do doce, quefazia o caminho de volta transformou o Rio São Francisco em um verdadeiro centro comercial,pujante, movido pelos braços fortes dos remeiros, dos tropeiros e dos barranqueiros, que ajudaram a formar a identidade e a população da região.

Com o passar do tempo, a grande produção de açúcar substituiu a rapadura na mesa do nordestino, e o sal da terra foi sendo gradativamente trocado pelo sal marinho, proveniente do litoral. A chegada da modernidade também transformou os meios de transporte e o fluxo comercial. Em 1870, a viagem inaugural do vapor Saldanha Marinho marcou uma nova era. Partindo de Sabará, pelo Rio das Velhas, a embarcação desceu em direção às nossas paragens, revolucionando o transporte fluvial e consolidando o papel do São Francisco como uma via essencial para o comércio e a comunicação.

Outro aspecto, um tanto mais misterioso, que envolve nossa história fluvial é o surgimento das carrancas, figuras emblemáticas associadas às embarcações do Velho Chico. Curiosamente, só a partir de 1880 essas esculturas começam a ser citadas por historiadores e viajantes, tornando-se, com o tempo, símbolos da cultura ribeirinha e do imaginário popular. Essas figuras esculpidas em madeira, muitas vezes assustadoras, tinham a função de espantar maus espíritos e proteger as embarcações, além de refletirem a identidade dos canoeiros e barqueiros que navegavam pelo rio.

O desenvolvimento de Juazeiro e Petrolina foi fortemente impulsionado pela navegação no São Francisco. Durante o século XIX, os vapores eram a principal forma de transporte, ligando a região ao restante do país e permitindo o escoamento da produção agrícola e comercial. O crescimento dessas cidades também esteve atrelado à chegada da ferrovia e, posteriormente, ao avanço das rodovias, que mudaram drasticamente a forma como as mercadorias e as pessoas circulavam.

Além da economia, o Rio São Francisco também foi palco de importantes manifestações culturais. As festas populares, como a tradicional Festa de Nossa Senhora das Grotas, padroeira de Juazeiro, reuniam ribeirinhos, comerciantes e viajantes em celebrações que misturavam religiosidade, cultura e comércio. Os violeiros, sanfoneiros e repentistas davam o tom dessas festas, perpetuando a tradição oral e musical que ainda resiste ao tempo.

Assim, entre o sal e a raspadura (raspa, mesmo), entre as águas e as estradas de terra, Juazeiro foi se formando, mesclando tradição e progresso. Seu passado é um reflexo das forças humanas que moldaram a identidade e o povo da região: o rio, o comércio, os trabalhadores incansáveis e as trocas que deram sabor à nossa história. Uma história agridoce, como tudo que nasce entre o sal e o açúcar.

*Trecho extraído do livro Navegantes da integração: Os remeiros do Rio São Francisco de Zanoni Neves.

Por João Gilberto Guimarães Sobrinho, juazeirense, produtor cultural, cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, Pós graduando em Políticas Públicas e direitos sociais, pesquisador das Políticas Públicas de Cultura.

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