João Fernandes da Cunha, em sua Memória Histórica de Juazeiro, nos diz que:
“Foi construído, em 1874, o Teatro Santana, com capacidade para quatrocentas pessoas, inclusive os camarotes. Nessa época, aquela casa de diversão representava uma grande conquista e atendia, inteiramente, às necessidades locais como ao grau de desenvolvimento da terra. Aí se exibiram inúmeras companhias líricas e, igualmente, tiveram lugar incontáveis representações dramáticas de conjuntos formados pelos habitantes da cidade, como de outros que iam até ali com essa finalidade. Infelizmente, só de raro em raro delas nos chegam notícias, e pouco esclarecedoras por terem ficado sem registro, pela falta de imprensa, não nos animando, pois, a mencioná-las” (pg.135).
Iniciar este texto com essa citação é uma forma demostrar aos leitores uma pequena ideia da importância histórica que o teatro teve e tem para a sociedade juazeirense, são vários os relatos dos historiadores sobre a força desta linguagem em nossa cidade. E são vários também os nomes que figuram no panteão teatral de Juazeiro, de Armando Pontes e Bebela a Elder Ferrari passando por Wellington MonteClaro e Claúdio Damasceno, Devilles Sena, Marcos Velasch e tantos e tantas, cada qual com sua devida importância e contribuição. Não vou citar todos que me lembro já que a ideia é aqui é falar de um grupo relativamente novo, do qual eu faço parte e que vem trabalhando na promoção da arte cênica em terras ribeirinhas.
O Coletivo Abordagem Teatral celebra, em 2025, seus 21 anos de trajetória, consolidando-se como um dos coletivos mais importantes da cena cultural de Juazeiro, Bahia. Ao longo dessas duas décadas, a companhia construiu um legado de arte, resistência e inovação, contribuindo de forma significativa para o teatro no Vale do São Francisco e além.
Desde sua fundação, o Abordagem Teatral tem se destacado pela sua pesquisa cênica arrojada, pela valorização da dramaturgia regional e pela formação de novos artistas. Seus espetáculos transitam por diferentes linguagens, indo do teatro de rua à cena contemporânea, sempre com uma abordagem crítica e socialmente engajada.
Com peças que desafiam o público a refletir sobre questões sociais, políticas e culturais, o grupo se tornou referência na democratização do acesso à arte, levando o teatro para escolas, comunidades e espaços públicos. Sua atuação não se restringe aos palcos tradicionais, mas expande-se para oficinas, debates e projetos educativos que fomentam o pensamento crítico e a criatividade.
Em 2020, o Abordagem Teatral foi agraciado com o Prêmio Respirarte da Fundação Nacional das Artes (FUNARTE) pelo monólogo Quebranto, fruto da parceria com o escritor João Gilberto Guimarães e o ator e diretor Elder Ferrari. Dessa colaboração também nasceu o espetáculo Re-correntes, dirigido por Ricardo Andrade, que participou do projeto Palco Giratório do Sesc e foi selecionado para concorrer ao Prêmio Braskem de Teatro. Além disso, o grupo organiza a Mostra Abordagem de Teatro, eventocoordenado por Lineker Pereira, que valoriza e dá visibilidade a textos de autores da região, reforçando seu compromisso com a cultura local.
Ao longo desses 21 anos, o Abordagem Teatral coleciona prêmios, participações em festivais e reconhecimento de críticos e do público. Sua permanência e relevância no cenário teatral são frutos do empenho de artistas apaixonados, que veem na arte um instrumento de transformação social.
Neste aniversário especial, saudamos o Grupo Abordagem Teatral por sua trajetória inspiradora. Que venham muitos mais anos de criatividade, resistência e inovação! Vida longa ao teatro, vida longa ao Abordagem!
Por João Gilberto Guimarães Sobrinho, produtor cultural, cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, Pós graduando em Politicas Públicas e direitos sociais, pesquisador das Políticas Públicas de Cultura.