No sertão do Vale do Salitre, em Juazeiro, no norte da Bahia, a 600 km de Salvador, existe um caminho que não se mede em quilômetros, mas em histórias, afetos e resistência.
Salitre significa terra fértil, boa pra plantar, como se fosse um tipo de adubo natural. São áreas que têm bastante sal no solo, por isso o nome. Esse nome veio desde a época das tribos indígenas que viviam ali há muitos anos. Lugar onde tem um rio que não seca, cercada por uma mata bem densa. E daí veio o nome do distrito, lugar que representa resistência, com um povo feliz, solicito e forte. Atualmente, essa região abrange cerca de 10 comunidades rurais, onde vivem famílias que preservam tradições culturais, modos de vida e uma profunda ligação com a terra e as águas do Rio Salitre..
Uma rota que começa com abraços
A Rota do Carrapicho não está em mapas turísticos comuns. Ela começa em abraços sinceros, na hospitalidade de quem transforma a própria casa em abrigo e o cotidiano em experiência. Nas comunidades , a cerca de 40 km de Juazeiro, as conversas se desenrolam nos terreiros. Em outros espaços, como na comunidade do Umbuzeiro, mulheres produzem trabalhos artesanais, como esteiras feitas com palha de taboa, planta típica das margens dos rios, além da tradição da festa de São Gonçalo, que é mantida viva e transmitida entre gerações. Ali pulsa uma memória ativa, marcada pela luta pela permanência no território.
“Quem chega aqui não é turista, é visita. E visita a gente acolhe como parente”, diz Judite Ferreira, moradora da comunidade de Alfavaca, que recebe em casa turistas trazidos pela rota. Enquanto prepara um café com beiju e cuscuz, ela se emociona: “A gente acolhe esses meninos e meninas e acaba se apegando. Eles passam o dia aqui como se fossem da família. Eu mesma sempre choro ao me despedir.” Desabafa.
Atualmente, o valor médio cobrado nas hospedagens varia conforme a logística e o roteiro escolhido. Em 2024, o custo médio por pessoa foi de aproximadamente R$ 450 para um final de semana completo, incluindo hospedagem, todas as refeições, guia turístico e participação nas vivências da comunidade. O transporte, nesse valor, é pago à parte. A rota já chegou a receber até 30 pessoas de uma só vez, e há capacidade para grupos ainda maiores, desde que a logística de hospedagem seja organizada com antecedência.
A Rota do Carrapicho é organizada coletivamente, com agendamentos feitos pelo coletivo de comunicação Carrapicho Virtual, um grupo de jovens do Salitre que atua conectando iniciativas culturais, roteiros turísticos e fortalecimento comunitário através da comunicação popular. Surgido da vontade de contar as histórias do Salitre e do semiárido com suas próprias vozes, o Carrapicho também produz vídeos, fotos e textos para as redes sociais, desenvolve projetos voltados às comunidades e no interesse do povo, além de participar da articulação dos roteiros turísticos.
“A gente acredita que turismo de verdade é aquele que se constrói com o território. A rota é uma ponte entre a gente que vive aqui e quem quer conhecer. Uma troca onde todo mundo aprende”, explica Érica Daiane, idealizadora do projeto Carrapicho e da Rota.
“O Carrapicho surgiu da vontade de comunicar nossa história com nossas próprias palavras, nossas imagens e sentimentos. Com o tempo, virou mais que comunicação: virou articulação, rota, pertencimento”, completa Érica. “A juventude daqui está vendo que pode transformar a realidade com o que tem em mãos: saber, afeto e território.”
Turismo que gera renda e pertencimento
A Rota do Carrapicho percorre de oito a dez comunidades da região do Salitre, entre locais de hospedagem e visitação, e envolve diretamente cerca de 10 famílias em cada roteiro. De 2021 até agora, mais de quatro grupos já vivenciaram experiências como hospedagens, produção de esteiras, rodas de conversa, caminhadas ecológicas, festas e celebrações.
Segundo a Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional (CAR), vinculada ao Governo do Estado daBahia, o programa Pró-Semiárido já mobilizou mais de R$ 500 milhões para ações de fortalecimento da convivência com o semiárido em 32 municípios baianos, incluindo Juazeiro. Esse apoio inclui iniciativas ligadas ao turismo comunitário, comunicação popular, agroindústrias e intercâmbios entre comunidades. A Rota do Carrapicho é uma das beneficiadas pelo programa, com apoio a oficinas, articulação em rede e fortalecimento da juventude local.
Para Carla Dias, turista da comunidade de Campos, localizada no distrito de Itamotinga, que visitou a rota no ano passado, a experiência foi transformadora: “Eu nunca imaginei que pudesse aprender tanto em tão pouco tempo. Conviver com essas famílias me fez repensar sobre várias coisas e quebrar preconceitos a respeito do Salitre. O acolhimento foi tão grande que me senti em casa.” Conclui Carla, entusiasmada.
Junior Silva, outro visitante, resume: “Foi uma experiência única, muito incrível. Me senti muito bem acolhido, aprendi muito sobre o dia a dia das famílias locais. A atividade que mais me marcou foi a roda de conversa, sem dúvida alguma. Foi lá que conheci realmente a realidade e a história das comunidades. Vi que o Salitre é uma região rica em culturas, culinárias e pessoas acolhedoras. Sim, eu recomendaria e viveria essa experiência outras vezes.”
O turismo comunitário movimenta a economia local de forma ampla. As famílias que hospedam recebem diretamente pela estadia. Muitas compram produtos no comércio local para preparar os alimentos. Durante as noites culturais, moradores vendem comidas, bebidas e artesanatos. Jovens atuam como guias, produtores de conteúdo e comunicadores do projeto Carrapicho Virtual recebendo por isso e assumindo protagonismo local.
Para Amanda Clara, jovem integrante do Carrapicho Virtual, a rota é uma chance concreta de futuro. “A renda que entra com o turismo ajuda, sim. Com o que ganho, faço várias coisas. Mas o mais importante é o que isso tudo ensina pra gente. A gente aprende a valorizar nosso lugar, nossa história. Aprende que não precisa sair pra encontrar um futuro.”
A evasão de jovens é um desafio histórico no semiárido. Mas a Rota do Carrapicho tem mostrado que é possível viver da e com a comunidade. Amanda não esconde a satisfação e o sentimento coletivo: o de que o turismo comunitário é ferramenta de transformação, pertencimento e autonomia.
Cultura viva em cada gesto
Na comunidade de Umbuzeiro, a 2 km da comunidade de Alfavaca, a produção de esteiras de palha de taboa, que antes era uma atividade doméstica cotidiana para uso próprio e geração de renda, hoje também integra as vivências turísticas. Visitantes participam do processo de produção das esteiras, vivenciando um saber ancestral transmitido pelas mulheres da comunidade. Mais do que ensinar uma técnica, essas oficinas reafirmam a importância da cultura material do sertão, onde cada esteira simboliza a resistência e a permanência das pessoas no território.
Para Mauro Adriano, que participou de um dos intercâmbios e teve a experiência de praticar a produção de esteiras na casa de Dona Luz, a atividade foi marcante: “Achei a prática de fazer esteiras top! Algo novo para mim. O intercâmbio foi muito rico, aprendi demais.”
• Samba de Velho e Bumba meu boi: celebrações tradicionais com música, dança e figuras folclóricas como o boi, a mulinha, a ema e os caretas, perpetuadas nas festas de reisado, especialmente em janeiro.
• Visitas à Cachoeira do Salitre e aos paredões da Cerca de Pedra.
Como acessar:
A Rota do Carrapicho está localizada no Salitre. O acesso é feito por meio de agendamento com o coletivo Carrapicho Virtual ou pela agência Chocalho.
Contato: Érica Daiane (idealizadora): +55 74 9943-3546
Instagram: @carrapichovirtual | @agenciachocalho
Resistência com sabor de afeto
Para Rosangela Pereira, moradora de Alfavaca, o turismo afetivo transforma relações: “Eu gosto quando a gente senta junto pra comer, pra conversar. Já teve visitante que virou amigo, virou família. Tem gente que voltou só pra passar uns dias com a gente de novo. e a gente fica feliz com o dinheiro que recebe, mas o amor que a gente cria por eles, não tem preço.”
Apesar dos avanços, os desafios persistem: estradas precárias, falta de sinalização, estrutura de apoio e maior apoio institucional. É necessário melhorar a infraestrutura das estradas, fortalecer a formação de guias locais, principalmente entre os jovens, e ampliar o conhecimento sobre o território e seu potencial.
“A gente precisa de infraestrutura, de estradas melhores para garantir segurança no deslocamento dos grupos. Mas também precisamos fortalecer o papel da juventude como guias, como protagonistas. Jovens que conhecem suas comunidades, que sabem contar sua história. E preparar melhor as casas para receber os visitantes com conforto. Não que esteja ruim, porque as pessoas elogiam muito. Mas sempre dá pra melhorar”, reforça Érica Daiane.
Potencial reconhecido
Para o gestor de turismo de Juazeiro, Jomar Benvindo, o projeto é estratégico:
“A Rota do Carrapicho articula cultura, natureza e comunidade. É um exemplo de como o turismo pode ser desenvolvido com respeito às tradições e com inclusão social. Juazeiro tem muito mais do que o rio e a música: tem sertão, tem memória, tem diversidade.”
Ele também pontua a importância da valorização dos saberes locais: “É preciso reconhecer que os saberes tradicionais são diferenciais estratégicos. Só aquela comunidade tem aquele jeito de fazer, aquele conhecimento sobre a terra, aquela culinária, aquele modo de acolher. Isso é valor cultural, social e econômico. Precisamos fortalecer isso com políticas públicas integradas.”
Mais do que um destino, uma vivência
A Rota do Carrapicho é, portanto, um convite à escuta, ao cuidado e ao encantamento. Um mergulho em um sertão que não quer ser olhado de longe, mas vivido de perto. Onde resistir é uma forma de amar. E onde o turismo, quando guiado pela comunidade, pode ser ponte entre mundos, gerações e sonhos.
Por Roseane Santos e Érica Paloma



