Sempre Aos Domingos: “Livros, cultura, música e arte. Retomamos nosso protagonismo? por Sibelle Fonseca 

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Passando pelo centro de Juazeiro na manhã deste sábado, 25, último dia do Festival Juá Literária, uma cena chamou minha atenção: pequenos consumidores transitavam com sacolas de livros e brinquedos educativos, roubando o lugar dos costumeiros clientes que compram coisas nas lojas.

Vi uma mãe, segurando a mão da filha pequena, apressada para pegar o ônibus. A garotinha dava tanta importância à sacola de livros como se soubesse que ali estava carregando o essencial para sua vida: o conhecimento, forma única de libertação e poder.

Lembrei de mim, quando criança, e da minha mãe que me apresentou aos livros, com a assinatura mensal da revista “Amiguinho”, meu passaporte para leitura, lugar que frequento desde lá e que salvou a minha vida. Quem seria eu, não fossem os conhecimentos, ainda que parcos, os quais adquiri com os livros. Fui capaz de ver aquela menina doida pra chegar em casa e pegar o livro, sentir o cheiro do livro, soltar sua imaginação e não ser a mesma depois daquele livro.

Nesse instante, o amigo Amilcar, juazeirense da minha geração, me enviou a foto que ilustra essa coluna, com o seguinte comentário: “Essa cena, eu presenciei ontem no Castelo Branco. Todas essas crianças alegres e satisfeitas com livros nas mãos. Nada de celular. Tinham chegado do Juá literária”.

Lembrei do Círculo do Livro que eu frequentava na adolescência. Era no Círculo Operário, na Visconde do Rio Branco, todos os sábados à tarde. Meninos e meninas liam livros, em grupo, depois expressavam o que entenderam, expunham dúvidas, aventuravam certezas, trocavam exemplares e debatiam sobre conhecimento.

No Juá Literária, segundo dados da Prefeitura de Juazeiro, foram comercializados mais de R$ 6 milhões em livros nos 31 estandes de 600 editoras. Os restaurantes da Vila Bossa Nova registraram aumento médio de 30% nas vendas e os informais da praça de alimentação da Orla, contabilizaram um crescimento de 90%, ainda conforme os dados. Na Feira Solidária, que reuniu pequenos produtores e artesãos, o ganho foi, em média, R$750,00 em vendas diárias de alimentos e R$400,00 de artesanato, roupas e acessórios.

Cerca de 80 mil pessoas circularam pela cidade, durante o festival, e a rede hoteleira também registrou uma movimentação alta, informou a prefeitura.

Com uma filha amante de Juazeiro, comemoro os ganhos para a economia e turismo do município.

Mas, como pessoa das letras, minha avaliação entusiasmada, é por acreditar na transformação que o conhecimento faz. Tenho esperança naquelas sacolinhas de livros das crianças, a maioria de alunos da rede municipal que ganharam bônus para escolher seus livros. Eles não compraram coisas, adquiriram a senha para um mundo mágico que, certamente, lhes levará a compreender a realidade e desejar transformá-la.

Meu entusiasmo é ver uma ação concreta, na minha cidade, que contemplou os artistas locais, os escritores independentes, a diversidade cultural, todas as ideologias, idades, gostos, credos e raças, e, de quebra, trouxe grandes intelectuais e referências da cultura nordestina e brasileira.

Meu entusiasmo é ver Juazeiro voltar a respirar arte, e fazer jus a fama de cidade de cultura efervescente. A terra de João, Edésio Santos, Galvão, Bebela, Edilson Monteiro, Wellington Monteclaro, Antonila, Chico Romão, Euvaldo Macedo, Tatau, Zé Maurício, Pedrinho de Biloto, Marcelino Paes Landim, Professores Joselino e Lurdes Duarte, Parlim, Neto de Mundinho, dos Congos, do Reis de Boi, Chá das 5 e dos Penitentes.

Eu, Amilcar e outros iguais a nós, que nos últimos tempos vínhamos acompanhando, tristes e impotentes, o cortejo fúnebre da cultura juazeirense, tomamos um fôlego, um respiro bom, daqueles que inspira e faz bater no peito o orgulho Juazeiro.

Retomamos nosso protagonismo! É preciso reconhecer. E que venha mais!

Sibelle Fonseca é juazeirense, radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, humanista, mãe de Carla, Pingo, Mariana,  Ananda e humana de Diana, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e dos animais, uma amante da vida e das gentes.

 

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