Criou-se atualmente um discurso recorrente de que o trabalhador está “exigente
demais”, “não quer mais trabalhar” ou “perdeu o valor do esforço”. Esse discurso,
além de simplista, ignora completamente a transformação social, econômica e
tecnológica das últimas décadas.
Pesquisas apontam que cerca de 60% dos trabalhadores brasileiros se dizem
insatisfeitos com seus empregos. Isso não significa preguiça ou rejeição ao
trabalho, mas revela que o modelo tradicional de emprego não responde mais
às exigências mínimas da vida contemporânea.
A sociedade mudou. O padrão de vida mínimo socialmente aceitável mudou. O
trabalho, em muitos setores, não acompanhou essa mudança.
Hoje, ricos e pobres vivem sob o mesmo bombardeio informacional. Um
trabalhador com um celular simples tem acesso permanente à internet, redes
sociais e publicidade, ou seja, detém informações do que o presidente dos EUA
tinha poucas décadas atrás. Ele compara, aspira e percebe que o isolamento
social acabou. Isso não cria luxo; cria consciência social e expectativa de
pertencimento.
Internet e telefone celular deixaram de ser luxo. São instrumentos de trabalho, de
comunicação entre familiares, acesso a serviços públicos, inclusão bancária e
até sobrevivência econômica. O mesmo ocorre com o transporte básico, uma
moto ou um carro popular que, em muitas regiões, não representa conforto, mas
condição mínima para trabalhar.
O sonho do trabalhador deixou de ser apenas uma televisão ou uma bicicleta.
Isso não é decadência moral; é evolução social. O problema é que parte do
mercado insiste em remunerar como se estivéssemos no século passado,
enquanto exige produtividade compatível com o século XXI.
Certo é que a Constituição Federal estabelece que o salário-mínimo deve ser
capaz de suprir necessidades básicas como alimentação, moradia, saúde,
educação, transporte e lazer. A pergunta incômoda permanece: alguém
acredita que isso é possível hoje, de forma plena, com um salário-mínimo?
Há ainda um elemento essencial, muitas vezes ignorado no debate: os
programas sociais governamentais. Embora insuficientes para garantir plena
dignidade, eles cumprem um papel estrutural relevante ao reduzir a miséria
absoluta e, sobretudo, impedir a formação de um contingente permanente de
trabalhadores em estado de desespero, à espera de qualquer migalha para
sobreviver.
Esse mínimo de proteção social, aliado a um maior grau de informação,
enfraquece o antigo “exército de reserva”, formado por pessoas dispostas a
aceitar qualquer condição de trabalho por medo da fome imediata. Isso dá ao
trabalhador um pequeno, mas importante, fôlego negocial, permitindo que ele
não precise se submeter a toda e qualquer proposta de trabalho, por mais
degradante que seja.
Esse fenômeno incomoda porque redistribui poder. Reduz o medo absoluto de
perder o emprego e rompe com a lógica de que o trabalhador deve aceitar
tudo para não cair na miséria. Não se trata de desestimular o trabalho, mas de
impedir que o desespero seja usado como método de gestão.
Ao mesmo tempo, o trabalhador enfrenta uma contradição profunda: é
cobrado por flexibilidade, disponibilidade permanente, adaptação tecnológica
e multifuncionalidade, enquanto convive com o salário-mínimo como
paradigma, com vínculos frágeis e formas modernas de precarização, como
pejotização, contratos intermitentes e trabalho por plataformas.
Além disso há de se considerar que muitos trabalhadores jovens migraram para
o tão alardeado empreendedorismo e hoje laboram com uber, delivery, por
incentivo do próprio sistema, reduzindo o contingente de pessoas à espera de
uma vaga nas empresas.
A tecnologia não é o problema. A pergunta correta é: modernização para
quem? Para o trabalhador ou apenas para maximização de lucro?
Portanto, a insatisfação crescente não é capricho, nem falta de vontade de
trabalhar. É o reflexo de um sistema que exige cada vez mais, protege cada vez
menos e ainda se surpreende com a recusa. Por outro lado, a massa
trabalhadora expandiu seus horizontes e suas necessidades básicas já não são
tão básicas, inclusive por estímulo da visão atual do mercado.
Ignorar essa realidade é insistir em um modelo de trabalho socialmente esgotado
e que cedo ou tarde será confrontado, seja pelo Judiciário, seja pela própria
sociedade.
Aderbal Vargas
Advogado trabalhista



