Durante um culto da Igreja Evangélica Verbo da Vida, em Petrolina, no Sertão de Pernambuco, o pastor Edilson de Lira fez uma declaração sobre a Ilha do Massangano, território quilombola e ribeirinho do município, e comparou a comunidade à Ilha do Marajó. A fala gerou repercussão e vem sendo duramente criticada nas redes sociais.
Durante a celebração, o líder religioso convidou um casal da igreja para assumir o pastoreio de uma congregação que será implantada na Ilha do Massangano.
“[…] Ontem nós conversamos e a igreja Verbo da Vida também está indo para a Ilha do Maçangano. […] Naturalmente não parece atrativo, mas eu queria que vocês pastoreassem uma igreja sendo plantada naquele lugar”, declarou.
Em seguida, o pastor fez a comparação que gerou críticas.
“A Ilha do Maçangano é a nossa ‘Ilha do Marajó’, se é que você me entende. É um lugar onde hoje abunda o pecado, mas vai superabundar a graça”, disse Edilson.
A fala repercutiu nas redes sociais e motivou uma manifestação pública do Fórum de Igualdade Racial de Petrolina. Em nota, a entidade repudiou as declarações e as classificou como preconceituosas e desrespeitosas, afirmando que a comparação com a Ilha do Marajó foi feita sob uma “narrativa moralista” que remete à ideia de “Sodoma e Gomorra”.
Confira a nota na íntegra:
“O Fórum de Igualdade Racial de Petrolina vem a público manifestar veemente repúdio às declarações proferidas pelo pastor Edilson Lira, da Igreja Verbo da Vida, que, de forma preconceituosa e desrespeitosa, atacou a Ilha do Massangano, chegando a compará-la à Ilha do Marajó sob uma narrativa moralista que remete à ideia de ‘Sodoma e Gomorra’.
A Ilha do Massangano não é apenas um território geográfico. É um Quilombo vivo. Um epicentro de resistência, ancestralidade e de um movimento cultural que pulsa com força e potência no Vale do São Francisco. São mais de 100 anos de ocupação por descendentes de quilombolas e de pessoas escravizadas. É terra de cultura viva, do Samba de Veio, das festas tradicionais, da religiosidade popular e da convivência entre matrizes africanas, indígenas e o catolicismo popular.
As falas proferidas pelo pastor atacam diretamente a história do povo negro, a diversidade religiosa e as manifestações culturais que fundamentam a identidade da nossa região. Ao associar problemas sociais a suposta “degeneração espiritual”, ignora-se o abandono histórico do poder público, o racismo estrutural e a ausência de políticas públicas que garantam dignidade às comunidades tradicionais.
Não aceitamos que discursos mascarados de uma suposta evangelização sirvam para reforçar estigmas, criminalizar a pobreza e deslegitimar um espaço de tamanha relevância cultural e social. Problemas sociais não são resultado da fé do povo, mas de desigualdades estruturais que precisam ser enfrentadas com responsabilidade e compromisso público.
A Ilha do Massangano merece respeito. A Ilha do Marajó merece respeito. Os povos tradicionais do nosso país exigem respeito.
Exigimos retratação pública e reafirmamos nosso compromisso inegociável com a defesa da igualdade racial, da liberdade religiosa, da justiça social e da preservação da memória e da dignidade do nosso povo.
Pela preservação e respeito à Ilha do Massangano!”
Redação PNB



