
Em publicação nas redes sociais da Igreja Verbo da Vida em Petrolina, o pastor Edilson de Lira classificou a Ilha do Massangano como um território onde “abunda o pecado”, chegando a compará-la à Ilha do Marajó, no Pará. A Ilha do Marajó é um arquipélago localizado na foz do rio Amazonas e costuma ser mencionada em reportagens nacionais por seus graves indicadores sociais, como pobreza, dificuldade de acesso a serviços públicos e casos recorrentes de exploração sexual infantil. Ao estabelecer essa comparação, o pastor associa a Ilha do Massangano (comunidade tradicional quilombola do Vale do São Francisco) a um cenário amplamente divulgado como símbolo de vulnerabilidade social, desconsiderando as diferenças históricas, culturais e territoriais entre as duas regiões.
A fala imediatamente gerou forte reação nas redes sociais. Moradores da própria ilha expressaram repúdio nos comentários da publicação, questionando a generalização moral e defendendo a história e a identidade cultural do território. O Fórum de Igualdade Racial de Petrolina publicou nota oficial classificando as declarações como preconceituosas e desrespeitosas, ressaltando que a ilha é um quilombo vivo, com mais de um século de ocupação por descendentes de pessoas escravizadas, marcada por resistência, ancestralidade e diversidade religiosa.
Ao afirmar que ali “abunda o pecado”, o discurso recai sobre um território historicamente constituído por cultura negra, ribeirinha e popular. A Ilha do Massangano é reconhecida por manifestações como o Samba de Véio (patrimônio cultural de Pernambuco), e por uma religiosidade popular que articula matrizes indígenas, influências quilombolas e o catolicismo tradicional do Vale do São Francisco.

As terras brasileiras foram historicamente marcadas por processos de colonização que caminharam lado a lado com a imposição religiosa, o país foi colonizado sob doutrinação cristã compulsória, povos indígenas foram catequizados à força, cultos africanos foram criminalizados. A moral cristã europeia se consolidou como padrão de civilização e durante séculos, tudo que escapava a esse padrão foi tratado como atraso, superstição ou mal.
Logo, quando um líder religioso declara que uma comunidade tradicional precisa ser “alcançada” porque ali “abunda o pecado”, ele toca em cicatrizes históricas que nunca foram completamente fechadas. Não é necessário citar quilombolas ou indígenas nominalmente, o território já carrega essa identidade. O peso simbólico recai sobre ela e a vaga acusação permite que estigmas antigos sejam reciclados em linguagem moderna. E nenhuma tradição cultural afro-indígena deve ser redefinida como carência espiritual para justificar uma evangelização.
A repercussão também mobilizou lideranças de religiões de matriz indígena e afro-brasileira na região. O sacerdote Pai João Bosco, da Aldeia Pena Branca, terreiro que cultua Jurema Sagrada em Petrolina, reúne centenas de frequentadores semanalmente e teve o espaço alvo de apedrejamentos em 2025, repudia as declarações.
“A ilha do Massangano não precisa de auxílio espiritual. Não é uma terra de pecado. É um território tradicional, quilombola, indígena, que precisa de fortalecimento nas suas condições de vida, mas não espirituais”, afirmou.
Ele também questionou o caráter invasivo da lógica anunciada
“Quantas vezes vocês viram um terreiro dizer que vai ocupar um espaço porque ali tem muito neopentecostal? A gente não faz isso porque isso também é um ato violento. É uma agressão cultural.”
Ao comentar a dimensão histórica desse tipo de discurso, Pai João Bosco afirmou que ainda há uma romantização da catequização colonial, ignorando as violências que a acompanharam. “Foi imposição. Foi epistemicídio”, declarou, referindo-se ao apagamento sistemático de saberes e cosmologias indígenas e africanas.
A fala do sacerdote evidencia que o debate não é apenas teológico. Comunidades de matriz afro-indígena convivem diariamente com deslegitimação simbólica, ataques a terreiros, ameaças e tentativas de inferiorização de suas práticas religiosas. A intolerância religiosa no Brasil não se limita à violência física; ela também se manifesta na classificação de determinadas culturas como espiritualmente desviantes ou moralmente suspeitas.

Quando territórios quilombolas e indígenas são tratados como espaços que precisam ser “resgatados”, reatualiza-se uma lógica histórica que hierarquiza espiritualidades. E essa hierarquia não é neutra. Ela tem cor, tem origem e tem memória.
O escritor e ambientalista Victor Flores, também se manifestou em suas redes sociais, reforçando a dimensão histórica e cultural da ilha.
“A Ilha do Massangano não é um lugar vazio, não é uma terra sem história. Seu nome carrega raízes africanas, sua memória passa pelo povo preto que ajudou a construir Petrolina. Ali existe cultura, existe ancestralidade. O Samba de Véio não é folclore, é patrimônio vivo de Pernambuco”, afirmou o ambientalista.
Ele concluiu pedindo respeito ao território e à sua memória: “Antes de falar sobre qualquer lugar é preciso conhecer a sua história. Antes de rotular é preciso respeitar.”
Se há algo a ser interrogado sob o nome de pecado, talvez ele não resida na geografia que se acusa, mas na compulsão histórica de projetar no outro a sombra que não se suporta reconhecer em si. Demoniza quem necessita de um demônio para sustentar a própria fantasia de pureza.
E é preciso dizer com todas as letras… discursos que classificam territórios tradicionais como espaços moralmente degradados reproduzem uma lógica colonizadora e racializada. Sua fé não lhe confere autoridade para declarar a cultura do outro como impura. Comunidades quilombolas e ribeirinhas não são sujeira moral a ser limpa, nem páginas em branco à espera de correção espiritual. São sujeitos históricos, com direito à própria fé, à própria cultura e à própria dignidade.
Por Ally Vianna


