SAAE de Juazeiro: “As escolhas do passado cobram o preço hoje. Estão preparados para esta conversa?” por Sibelle Fonseca

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O Serviço de Água e Saneamento Ambiental de Juazeiro (SAAE) ocupa posição estratégica na estrutura administrativa do município. Em uma cidade localizada no semiárido nordestino, onde o acesso regular à água e a expansão do saneamento são determinantes para a saúde pública e para o desenvolvimento urbano, a autarquia exerce papel fundamental na garantia do abastecimento de água e gestão do sistema de saneamento.

Apesar dessa relevância, o histórico recente do órgão é marcado por episódios de crise administrativa, investigações e dificuldades financeiras que impactaram sua credibilidade institucional.

Atualmente, o município atravessa uma série crise hídrica com constantes interrupções no abastecimento e passou a ser alvo de críticas da população, da sede e do interior, que vem sofrendo com a falta de água até para as atividades mais básicas.

Os usuários estão indignados, adversários políticos da atual gestão aproveitam o momento para criticar e cobrar soluções imediatas, mas o certo é que o cenário atual é resultado de fatos que não começaram agora. Apesar da importância da autarquia, patrimônio do município, a falta de investimentos em sua estrutura ao longo dos anos, entre outros episódios, impactaram no serviço prestado aos usuários.

Compreender essa trajetória é fundamental para entender os desafios atuais do processo de reestruturação da autarquia.

Falta de investimentos 

Ao longo das últimas décadas, quase nenhum investimento estrutural foi realizado no sistema de tratamento de água de Juazeiro. Essa inércia impediu a ampliação da capacidade de abastecimento da cidade.

A última intervenção relevante aconteceu entre 2009 e 2010, quando o SAAE era dirigido pelo gestor Marcos Moraes e foi realizado investimento na Estação de Tratamento de Água (ETA) localizada na Rua do Paraíso, um equipamento importante do sistema de abastecimento do município. À época, Fabiana Possídio, atual gestora da autarquia, exercia a função de Diretora Financeira do órgão.

Posteriormente, em meados de 2011, outro reforço relevante foi incorporado ao sistema, mas o investimento veio da iniciativa privada. A intervenção da Gráfico e da Costema viabilizou a ETA do Distrito Industrial. A estrutura foi integrada ao sistema do SAAE para atender inicialmente a região do bairro Nova Juazeiro, mas acabou sendo interligada à rede de abastecimento que atende diversos bairros da cidade, ampliando a capacidade operacional do sistema.

Mas lá se vão 14 anos. A cidade cresceu, a população aumentou exponencialmente, mas os investimentos não acompanharam a demanda.

As boas notícias pararam por aí. Depois, o órgão foi alvo de práticas nada republicanas e esteve envolvido em diversas polêmicas. Relembremos algumas:

Operação da Polícia Federal sobre obras de saneamento

Um dos primeiros episódios de grande repercussão envolvendo o sistema municipal de saneamento ocorreu em 2012, quando a Polícia Federal deflagrou uma operação destinada a investigar possíveis irregularidades em licitações e contratos relacionados a obras de saneamento em Juazeiro. A investigação examinava convênios financiados com recursos federais destinados à execução de projetos de infraestrutura urbana.

A operação cumpriu mandados de busca e apreensão e reuniu documentos relacionados a processos licitatórios e execução de obras vinculadas ao sistema de saneamento do município. Embora os desdobramentos judiciais tenham seguido por anos e produzido diferentes interpretações sobre responsabilidades administrativas, o episódio colocou o setor de saneamento da cidade no centro de uma investigação federal.

Assassinato do diretor da Defesa Civil

Outro episódio de grande repercussão ocorreu em 2017, com o assassinato do então coordenador da Defesa Civil de Juazeiro. O servidor foi morto a tiros em frente à própria residência, em um crime que gerou forte comoção na cidade.

Durante as investigações, surgiram hipóteses de que o crime poderia ter relação com denúncias e conflitos administrativos envolvendo estruturas da gestão municipal. O caso teve desdobramentos judiciais complexos e permaneceu por anos no centro do debate político local, ampliando o clima de instabilidade institucional que cercava o setor.

Denúncias administrativas e questionamentos sobre contratos

O SAAE também enfrentou questionamentos administrativos relacionados à gestão de contratos e condução de despesas públicas. Auditorias e levantamentos administrativos identificaram inconsistências em processos de contratação, restos a pagar sem documentação completa e dificuldades de rastreabilidade de determinadas despesas.

Esses apontamentos reforçaram diagnósticos de fragilidade institucional da autarquia, indicando problemas de planejamento financeiro, controle interno e governança administrativa.

Endividamento milionário e ação do Ministério Público

O problema mais grave enfrentado pela autarquia, contudo, foi o crescimento expressivo de seu endividamento. Em 2025, o Ministério Público da Bahia ajuizou ação civil pública por improbidade administrativa contra a ex-prefeita de Juazeiro e ex-diretores do SAAE. A investigação apontou que a gestão teria deixado de pagar sistematicamente as contas de energia elétrica da Coelba, acumulando uma dívida próxima de R$ 49 milhões. No total, o SAAE foi recebido pela atual gestão com mais de R$ 80 milhões de dívidas diversas.

O desafio da recuperação

Diante desse histórico, a reestruturação do SAAE se tornou uma das tarefas mais complexas da atual administração municipal. Entretanto, a reorganização de uma autarquia com elevado grau de endividamento exige tempo e planejamento. Ocorre que, sendo a água um bem vital, a população tem pressa e exige medidas urgentes para normalizar o serviço pelo qual paga todos os meses.

Um dos primeiros sinais de recuperação ocorreu em 2025, quando a direção do SAAE retomou a regularidade de seus pagamentos, voltou a quitar suas obrigações com fornecedores dentro dos prazos estabelecidos, encerrando o ciclo de atrasos que havia marcado a gestão anterior, conforme já divulgou a autarquia.

Entre os exemplos citados pelo SAAE, está a regularização das contas com a Coelba, eliminando os atrasos no pagamento da energia elétrica essencial para a operação do sistema de abastecimento.

Um processo de reconstrução gradual

Verdade seja dita, a recuperação institucional do SAAE não vai ocorrer de forma imediata. As justificativas pontuais para a falta de água, as desculpas dadas pelo órgão à população, já não convencem a dona de casa, o trabalhador, os estudantes que necessitam do liquido nas torneiras.

O certo é que o elevado passivo financeiro herdado da gestão anterior, como tem demonstrado a atual gestão, limita a capacidade de investimento da autarquia e exige um processo gradual de reorganização administrativa e financeira.

A reconstrução do órgão deverá passar por etapas: primeiro a recuperação da credibilidade institucional e da regularidade financeira; depois a reorganização da gestão e dos mecanismos de controle; e, por fim, a ampliação dos investimentos em infraestrutura de abastecimento e saneamento.

Em um setor essencial para o funcionamento da cidade, não existem soluções imediatas para problemas acumulados ao longo de anos. A reestruturação do SAAE depende de responsabilidade administrativa, planejamento e de tempo para que a autarquia recupere  sua capacidade de investimento e prestação de serviços aos usuários que têm pressa!

Enquanto isso, a população de Juazeiro precisará exercitar ainda mais a paciência. Verdade seja dita.

É como diz aquela célebre frase: “voto não tem preço, tem consequência”. As escolhas do passado cobram o preço hoje.

Redação PNB, por Sibelle Fonseca

 

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